A semana dos republicanos

Há um acordo de cavalheiros na política norte-americana no que diz respeito às convenções de cada partido. É uma tradição que,  por mais “agressiva” que seja a campanha — e o adjectivo pode bem aplicar-se à campanha em curso* –, continua a ser respeitada: durante a reunião dos delegados de um partido, o outro abstém-se de fazer anúncios importantes, apresentar ideias novas, escalar as críticas ou, de forma geral, reclamar o holofote mediático. No período de tempo que dura a convenção, o duelo é suspenso, e os dois adversários remetem-se, sucessivamente, ao silêncio: primeiros em democratas, enquanto os republicanos estiverem reunidos em Tampa, e depois estes, quando os liberais avançarem com o seu convénio em Charlotte.

Este ano, na véspera das convenções, muito se debateu o significado e a importância destes eventos, com comentadores a desvalorizá-los como uma reminiscência anacrónica e folclórica de uma forma ultrapassada de fazer política e outros a defendê-los como rituais fundamentais e indispensáveis para a definição e fixação da mensagem e imagem de uma candidatura. Sobre essa questão, são interessantes os argumentos que se podem apanhar aqui, aqui ou aqui ou ainda aqui. E de bónus para quem se interessa por História, aqui fica o link para o backgrounder do Council on Foreign Relations sobre o papel da política externa nas convenções.

A Convenção Republicana de Tampa, que hoje arranca oficialmente com discursos do Speaker John Boehner, do antigo candidato à nomeação Rick Santorum, de Ann Romney e da estrela de Nova Jérsia Chris Christie, tem inúmeros motivos de interesse, inúmeros “enredos paralelos”, como diriam os argumentistas de cinema, que justificam a nossa atenção a seguir a narrativa. Obviamente, os momentos altos serão os discursos de nomeação do candidato à vice-presidência, Paul Ryan, e à presidência, Mitt Romney. Certamente, a coreografia será respeitada, mas à semelhança do que ocorreu em 2008, não me admiraria que o entusiasmo e fervor dos delegados fosse maior na sessão em que o congressista do Wisconsin figura como cabeça de cartaz — apesar de não se esperarem divisões nem críticas, a desconfiança das bases relativamente à figura de Mitt Romney não desapareceu por magia. Basta ver, por exemplo, como depois de oito meses de campanha a imprensa americana ainda continua a escrever sobre “o mistério” ou “o paradoxo” que é Romney para os eleitores (e nem o conservador David Brooks resiste ao sarcasmo).

Observar e perceber o comportamento (e as dinâmicas) das bases é sempre o exercício mais interessante numa convenção, pois ultrapassa a disciplina dos partidos. No caso da chamada “grande coligação” republicana, é uma tarefa especialmente fascinante, uma vez que a plataforma dos conservadores é suficientemente abrangente para acolher as mais diferentes e heterodoxas facções do eleitorado, subdividido em rótulos como o dos Neocons ou dos Theocons conforme as conveniências. Hoje, o The Wall Street Journal sugere que se olhe para os governos republicanos dos estados. A rádio pública NPR especula sobre o confronto entre as forças do sistema e os insurrectos em Tampa. No The American Conservative, Daniel McCarthy escreve sobre o estado actual “movimento conservador”, à boleia das dúvidas manifestadas pela New Yorker sobre “onde estão os intelectuaisconservadores?” (por sua vez, à boleia do debate provocado pela publicação do ensaio anti-Obama de Niall Ferguson para a Newsweek, a que já fizemos referência no blogue).

Um último foco de atenção, já depois de cair o pano sobre a festa partidária, tem a ver com o tradicional efeito de “bounce” (ressalto) pós-convenção medido nas sondagens. Como argumenta Michael Barone, a candidatura republicana precisa de um bom “bounce” à saída de Tampa para mudar os números antes da última etapa da campanha. Larry Sabato reforça essa opinião, e coloca o sucesso futuro da campanha republicana no balanço com que sair da convenção. O fenómeno, notam os especialistas, tem vindo a diminuir à medida que os inquéritos se tornam mais científicos, exaustivos e frequentes: quanto mais fielmente eles aferem exactamente o eleitorado potencial de cada candidatura e a real intenção de voto, menos se nota o pico de interesse durante as convenções.

*No WP, Ezra Klein analisa a reintrodução da variável racial na campanha pela candidatura republicana. Na Slate Sasha Issenberg aborda a polarização na era de Obama. E Jonathan Chait, na New York Magazine, revela como a campanha de Romney sabe que esta é a última oportunidade para ganhar uma eleição confiando exclusivamente no ressentimento racial dos eleitores brancos.

Rita Siza

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