A capa da Newsweek

“Hit the Road, Barack”, um artigo do historiador e professor da Universidade de Harvard Niall Ferguson para a Newsweek, anda a animar o debate na blogosfera política dos Estados Unidos.

Na peça, que fez a capa da última edição, Ferguson defende a tese de uma presidência falhada de Obama: o primeiro mandato do Presidente, considera, define-se pela quebra de todas as suas promessas eleitorais, e pela sua incapacidade de atacar os dois principais desafios para o país, o desemprego e o endividamento do Estado. O ensaísta apresenta uma longa lista de fracassos atribuídos ao Presidente e ilustra graficamente os seus pontos de vista recorrendo a uma série de estatísticas, gráficos e projecções — muitos dos quais, como entretanto se veio a revelar, são factualmente incorrectos ou foram caprichosamente manipulados para encaixar no seu argumento. *

A conclusão de Ferguson é que, para “salvar” a América, Obama tem de perder as eleições e dar lugar aos republicanos — a sua grande esperança é Paul Ryan e não Mitt Romney, mas o seu raciocínio assenta na plataforma de cortes (fiscais e no défice) preconizados pelos conservadores.

Mas não é só por causa da economia que Ferguson censura Obama. O historiador alega que os fracassos se estendem também à política externa americana e atingem mesmo a identidade do país (e a sua posição relativa no mundo). A sua premissa é ideológica: o autor defende uma política imperial, em que os Estados Unidos se assumem como a única potência militar, diplomática e económica do mundo, os nation-builders que instauram e promovem modelos democráticos à sua imagem e semelhança. Mas essa foi exactamente a premissa que Obama derrotu nas presidenciais de 2008: o então senador do Illinois concorreu contra todas as políticas da Administração de George W. Bush, da guerra do Iraque aos cortes fiscais para os milionários.

Para quem estiver interessado em seguir o debate, recomenda-se um passeio por exemplo por aqui ou aqui.

* A propósito dos erros, interessante exposição de Paul Krugman, um dos primeiros a denunciar as incorrecções no artigo da Newsweek. E sobre a polarização na imprensa americana, ler Stanley Kurtz na NRO e ainda Joe Coscarelli na New York Magazine.

Rita Siza

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