Violação e aborto

Os republicanos, sempre tão disciplinados, de vez em quando oferecem uns brindes aos seus adversários democratas.

Depois de todo um fim-de-semana passado a discutir os cortes no Medicare (o programa federal que subsidia as despesas de saúde dos reformados norte-americanos), eis que surge o congressista do Missouri Todd Akin, que disputa um fulcral assento no Senado contra a democrata Claire McCaskill, a falar sobre aborto e violação. As suas declarações foram tão estapafúrdias, que imediatamente se tornaram o “caso do dia” — a campanha do Presidente Barack Obama, naturalmente interessada em desviar as atenções de tudo o que possa ter a ver com a economia e o desemprego, não ia desperdiçar a oportunidade.

Quando questionado sobre o direito ao aborto, mesmo em casos de incesto e violação, Todd Akin manifestou-se contra, explicando que pelo que lhe tinha sido dito pela comunidade médica, o organismo feminino dispõe de um mecanismo biológico que impede a gravidez quando a relação sexual é forçada. Segundo o seu raciocínio, as mulheres que são vítimas de violação “só muito raramente” engravidam — e portanto, as mulheres que recorrem aos fundos federais para financiar abortos sob o argumento de terem sido violadas, não terão sido vítimas de um crime, mas antes culpadas de um comportamento promíscuo ou irresponsável. Sendo 100% pró-vida, Akin considerou que “prejudicar outro ser inocente ” nunca poderá ser a atitude certa.

Previsivelmente, as palavras de Akin incendiaram os ânimos dos defensores do aborto, e até dos que, opondo-se à sua prática, concordam com a distinção que a lei faz para os casos de violação (e outros). Com a polémica a tomar conta do noticiário, de nada bastou ao congressista vir pedir desculpa e dizer que se tinha explicado mal : nessa altura, tudo o que os jornalistas americanos queriam saber era se os dois homens que representam o Partido republicano na corrida à Casa Branca, Mitt Romney e Paul Ryan, concordavam com a posição expressa pelo candidato do Missouri.

A campanha republicana procurou rapidamente demarcar-se, sublinhando que “uma Administração Romney-Ryan jamais se oporá ao aborto em casos de violação”. Mas logo foram desterradas imagens de Mitt Romney a defender a proibição do aborto em todos os casos, e recuperados todos os votos de Paul Ryan no Congresso para limitar o direito ao aborto (consagrado pelo Supremo Tribunal dos Estados Unidos desde 1973). Mas pior do que isso, como notava o New York Times, é que mais uma vez os republicanos foram forçados a desviar a atenção da sua mensagem económica, para responder por outras questões — e as suas respostas tendem a menorizá-los face ao seus opositores.

Actualização: Todd Akin aguentou a pressão e anunciou que vai manter a sua candidatura ao Senado.

Rita Siza

Esta entrada foi publicada em Sem categoria com os tópicos , , . Guarde o href="http://blogues.publico.pt/eleicoeseua2012/2012/08/21/violacao-e-aborto/" title="Endereço para Violação e aborto" rel="bookmark">endereço permamente.

Deixar um comentário

O seu email nunca será publicado ou partilhado.Os campos obrigatórios estão assinalados *

Podes usar estas tags e atributos de HTML:
<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>