Super Tuesday, estado a estado – e depois

Eleitores em Steubenville, Ohio. Foto: AFP/Joe Raedle

Dez estados votam esta noite para a nomeação republicana à presidência dos Estados Unidos. A Super Tuesday é, no contexto das primárias, uma espécie de ensaio-geral para a eleição de Novembro: num curto espaço de tempo, as campanhas têm de definir os seus alvos, trabalhar as suas mensagens, e conquistar eleitores diversos em estados muito diferentes entre si. E os recursos são finitos – o posicionamento é fundamental.

Em jogo estão, no total, 437 delegados à Convenção de Tampa, que serão distribuídos proporcionalmente pelas diferentes candidaturas de acordo com os resultados. O concorrente que conquistar mais delegados arrancará uma vantagem que, nesta fase da corrida, será praticamente impossível de superar pelos seus adversários. O ex-governador do Massachusetts, Mitt Romney, favorecido pelo establishment republicano, e líder até ao momento, com 173 delegados, deverá, portanto, terminar a noite como o grande vencedor. A não ser que o antigo senador da Pensilvânia Rick Santorum consiga prevalecer no Ohio – o grande prémio da noite – e impor-se no Sul (que não votar em Newt Gingrich), cimentando assim o seu estatuto como a alternativa conservadora a Romney.

Aqui fica um pequeno guia sobre a eleição de hoje.

As vitórias esperadas: Massachusetts e Georgia

O principal estado da Nova Inglaterra será de Romney, e pela mesma razão, o ex-Speaker do Congresso Newt Gingrich ficará com a Georgia: ambos estão a jogar em casa.

Mitt Romney foi governador do Massachusetts, e durante o seu mandato equilibrou o orçamento do estado e aprovou uma lei para a cobertura médica universal da população, o chamado Romneycare, precursor (como não se cansam de lembrar os seus rivais) da reforma do funcionamento do sistema de saúde assinada pelo Presidente Barack Obama. A votação desta noite no Massachusetts (38 delegados) não fará história, o que não quer dizer que o estado não seja importante no contexto da eleição de Novembro. Tradicionalmente, o Massachusetts vota democrata, e as sondagens dão vantagem a Barack Obama sobre Mitt Romney. Além disso, há uma interessante corrida pelo lugar do Senado que pertenceu ao “leão” democrata Ted Kennedy e ficou nas mãos do querido do Tea Party Scott Brown. O conservador é candidato a um segundo mandato e está a ser desafiado pela liberal Elizabeth Warren, professora da universidade de Harvard e antiga directora do Gabinete de Protecção Financeira do Consumidor criado pela Administração Obama em resposta à crise de 2008.

A Georgia é o estado com mais delegados esta noite: 76. Newt Gingrich, que representou o 6º círculo eleitoral de Atlanta no Congresso durante 20 anos, tem uma vantagem de 20 pontos nas sondagens, e tem repetido que uma vitória no seu estado natal é a condição para se manter na corrida (e para convencer o milionário Sheldon Adelson a financiar a sua campanha).

O Sul: Virginia e Tennessee

Sem os nomes de Newt Gingrich e Rick Santorum nos boletins de voto, a Virginia (46 delegados) é terreno fértil para Romney, que deverá sobrepor-se facilmente a Ron Paul, o rival que ao mesmo tempo tem sido um aliado na corrida. Será interessante ler nas entrelinhas das sondagens à boca da urna da Virginia a composição do eleitorado e principalmente a sua motivação: este é o paradigma do “swing state” que poderá revelar-se vital em Novembro em termos de colégio eleitoral e do equilíbrio de forças do Congresso. Para já parece ser o único estado do Sul disposto em apostar em Romney nesta fase do campeonato.

O Tennessee (55 delegados) é outro dos estados do Sul fortemente conservadores. Newt Gingrich e Rick Santorum são candidatos modelo para os eleitores do Tennessee, mas com uma taxa de desemprego nos 9%, a preocupação com a economia poderá levar parte do eleitorado a prestar mais atenção a Mitt Romney – será uma reviravolta inesperada se o ex-governador vencer.

O centro das atenções: Ohio

Como aconteceu a semana passada com o Michigan, a eleição do Ohio é uma representação simbólica da corrida republicana, expondo as fragilidades e os desafios que cada candidatura tem de ultrapassar para prevalecer: Romney e Santorum e os republicanos versus o restante eleitorado, democratas e sobretudo independentes. Está tudo em aberto no duelo entre os dois candidatos com mais delegados até ao momento: nos últimos dias de campanha, Romney conseguiu atenuar/eliminar a desvantagem para Santorum nas sondagens. Conseguirá vencer as resistências dos conservadores e terminar em primeiro, ou voltará a morrer na praia? Poderá Santorum solidificar o bloco ultra-conservador e emergir como o concorrente daqueles que querem “qualquer-um-menos-Romney”? Romney apela ao pragmatismo dos eleitores e Santorum à ideologia dos conservadores – a luta é, portanto, entre razão e coração, e a parada não podia ser mais alta para Romney. Uma vitória efectivamente consagra-o como o nomeado, uma derrota não o desqualifica mas implica uma nova reviravolta na corrida e dificuldades acrescidas tanto nas primárias como na eleição geral (quanto mais tempo durar a campanha, mais desgastado fica o candidato). A composição demográfica do estado – um “swing state” em Novembro – com predominância para os chamados “conservadores sociais” teoricamente favorece Santorum, mas há um factor técnico que o debilita: a sua candidatura não conseguiu inscrever Santorum nos boletins de todos os círculos eleitorais do Ohio, pelo que há 18 delegados que ficam fora do alcance de Santorum, mesmo que este acabe com mais votos no total estadual.

Os outros estados: Vermont, Oklahoma, Idaho, Dakota do Norte, Alasca

Apesar de se esperarem resultados diferentes, estes estados serão importantes para se perceber as preferências dos diferentes blocos de eleitores que constituem a chamada “coligação” republicana. Romney é favorito no Vermont (primária, 17 delegados), um estado do Nordeste vizinho do Massachusetts, e onde não correu em 2008 (já tinha desistido). Também o Dakota do Norte (caucus, 28 delegados) não representa um grande desafio para Romney – ou para os republicanos, que independentemente do seu candidato conquistarão o estado em Novembro.

O Idaho (caucus, 32 delegados) e o Alasca (primária, 24 delegados) distinguem-se por serem as grandes apostas do libertário Ron Paul – o congressista espera poder reclamar as suas primeiras vitórias, e se não, conseguirá pelo menos coleccionar umas dezenas de delegados. A campanha de Ron Paul, que é puramente ideológica, será um sucesso se o candidato conseguir chegar ao fim e reclamar uma vaga de orador na Convenção republicana. Com uma forte adesão dos eleitores mais jovens, uma boa organização no terreno e um bem sucedido modelo de financiamento, não há nada a impedir o candidato de se manter em prova até ao Verão. Mas há um elemento a ter em conta no Idaho: a percentagem da população que é mórmon e tenderá a apoiar o seu candidato Romney nas urnas.

O Oklahoma (primária, 43 delegados) é outro estado fortemente conservador, e a campanha de Santorum investiu grande parte das suas fichas aqui. Se o antigo senador não conseguir segurar o Ohio, a vitória no Oklahoma torna-se fundamental.  Mas o facto de ter disputar com Gingrich o voto das bases mais conservadoras poderá beneficiar a campanha de Mitt Romney.

As fortunas dos quatro candidatos dependem dos resultados da Super Tuesday – e por fortunas queremos dizer a capacidade de angariar fundos para prolongar a corrida. Tradicionalmente, bastavam uma série de duas ou três derrotas para forçar um concorrente a desistir, mas este ano os Super PAC mudaram as regras do jogo e enquanto houver financiadores os candidatos não têm nenhum incentivo a abandonar, mesmo sem reais expectativas de uma vitória no final. O facto de ainda haver uma forte oposição a Romney – se dividíssemos o voto das primárias até ao momento por parcelas e categorias, o maior bloco seria o “qualquer-um-menos-Romney” – provavelmente alimentará a competição muito para além da Primavera.

As próximas eleições de Março são, sobretudo, caucus (já este sábado, nos territórios ultramarinos do Guam e Ilhas Virgens, e também no Kansas). A seguir votam mais dois estados do Sul, Alabama e Mississippi, que poderão prolongar o braço de ferro entre Gingrich e Santorum pelos votos da facção mais à direita do partido. A 20 de Março vota o Illinois, que tudo indica será um Ohio parte II em termos do duelo Santorum-Romney.

O verdadeiro teste para as finanças dos candidatos será Abril (e logo se verá quem sobra para Maio), quando as eleições chegam a Nova Iorque, Pensilvânia e Maryland, estados grandes, com muita população, muita diversidade e mercados mediáticos (para anúncios televisivos) muito caros. A partir dessa data, as vitórias tornam-se verdadeiramente decisivas, uma vez que volta a ser aplicada a regra “winner takes all” que atribuiu todos os delegados ao candidato com mais votos.

A data das primárias do Texas, um dos estados mais importantes e que distribui delegados proporcionalmente, ainda não foi definida: está em curso um processo de “redistricting” [reorganização dos círculos eleitorais] atrasando a eleição para Maio ou até mesmo Junho. Em Junho vota a Califórnia, mas não há ninguém que acredite que nessa altura a nomeação já não esteja entregue.

Rita Siza

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