Romney fala francês

As comparações entre o líder da corrida à nomeação republicana para a Casa Branca, Mitt Romney, e o antigo candidato presidencial do Partido Democrata, John Kerry, são recorrentes, e não é só porque os dois sabem falar francês.

http://youtu.be/tyFaWhygzjQ

Grande parte das semelhanças entre os dois é ou circunstancial ou coincidência. Romney, como Kerry, vem do Massachusetts, é milionário, tem um percurso de vida marcado pela facilidade e o privilégio – e é incapaz de demonstrar naturalidade, descontração, de estabelecer uma relação emocional com o público.
E tal como o senador democrata, Romney é acusado de ser um flip-flopper, porventura uma das acusações mais gravosas na política norte-americana. O eleitorado dos Estados Unidos tolera muito mal as mudanças de opinião dos seus políticos, e quando alguém passa a ser contra quando antes era a favor, a opinião pública tende a interpretar essa “evolução” como uma incoerência, um calculismo político, um defeito de carácter.

Os adversários republicanos de Romney já começaram a confrontá-lo com as suas (frequentes) guinadas ideológicas, em tentativas cada vez mais desesperada para demonstrar como o ex-governador do Massachusetts não é um verdadeiro conservador. No aborto, Romney era a favor antes de ser contra. Na igualdade de direitos para casais homossexuais, Romney era a favor antes de ser contra.

A evolução ideológica de Romney do centro para a franja mais à direita não deixa de representar um problema para o candidato na eleição geral. Os americanos tendem a rejeitar posições extremistas, e nas eleições, costumam optar pelos candidatos mais moderados, que lhes oferecem maiores garantias de razoabilidade e bom senso. Por muito que o Tea Party (e os candidatos republicanos) gritem que o Presidente Barack Obama é um muçulmano, socialista, capaz de vergar os interesses americanos aos dos europeus, disposto a pedir perdão pelos excessos da América, essa não é aexperiência nacional depois de três anos de mandato.

Mas a comparação mais interessante entre Romney e Kerry tem a ver com a estratégia das suas campanhas no posicionamento das respectivas candidaturas.
Em 2004, quando a eleição era basicamente um referendo à política de defesa e segurança nacional de George W. Bush no rescaldo dos atentados terroristas de 11 de Setembro e das guerras do Afeganistão e Iraque, o democrata John Kerry baseou a sua campanha no facto de ser um veterano da guerra do Vietname, com experiência em combate e ainda na sua experiência política no comité de Relações Exteriores do Senado. O contraste que ele tentou traçar com Bush era o de que enquanto o Presidente candidato à reeleição procurava subterfúgios para não ir para a guerra, ele tinha dado o corpo ao manifesto, cumprindo o seu dever com honra.
Ora, quando esse argumento foi posto em causa, Kerry não tinha outras credenciais para exibir. Depois do aparecimento dos devastadores anúncios dos Swift Boat Veterans for the Truth, que vieram pôr em causa as condecorações militares de Kerry, efectivamente aniquilando aquela que era a sua maior vantagem na corrida, a sua campanha colapsou.
Este ano, a batalha eleitoral vai ser travada pelo lado da economia. A campanha de Mitt Romney apostou tudo na distinção entre o gestor bem sucedido, que fez carreira no sector privado e nunca através da política, e o Presidente Obama, que passou do mundo académico para o sector comunitário e foi eleito senador e a Presidente sem nunca ter trabalhado numa empresa.
A campanha do ex-governador apresenta-o como o homem mais habilitado para conduzir a economia e pôr o país no caminho do crescimento. Os riscos para Romney neste momento são grandes: 1) os ataques dos seus adversários, que estão a expôr as práticas da sua sociedade financeira Bain Capital e a desmentir o seu argumento de ser reponsável por mais de 100 mil postos de trabalho, comprometem a sua imagem, que poderá não recuperar de uma excessive colagem a Wall Street; 2) os indicadores económicos americanos, apesar de anémicos, apontam para um crescimento de 2% e sugerem uma tendência de diminuição da taxa de desemprego.

Se em Novembro a perspectiva ou a percepção da opinião pública for que a economia está a melhorar, e se os americanos não acreditarem que Romney é mais capaz do que Obama de criar postos de trabalho, o republicano não terá mais nenhum argumento de peso para convencer os eleitores que é melhor votar nele do que reeleger o Presidente.

Rita Siza

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