Contexto

A semana começou mal para Mitt Romney. Forçado a aplicar-se para emendar a mão depois de declarações polémicas no último debate televisivo entre republicanos, o candidato que lidera as sondagens para a nomeação para a Casa Branca (e que tudo indica vencerá a primária do New Hampshire esta noite) voltou a escorregar na linguagem, e em vez de fingir que não repararam, os seus adversários não desperdiçaram a oportunidade. “Romney gosta de despedir pessoas” foi a manchete repetida por todos.

Os concorrentes republicanos referiam-se a um desabafo de Romney num discurso em Nashua. O ex-governador perorava sobre a reforma do funcionamento do sistema de saúde aprovada pelo Presidente Barack Obama (e inspirada no modelo criado pelo próprio Romney no Massachusetts), prometendo aos eleitores que mudaria tudo se chegasse à Casa Branca. O seu sistema, explicou, daria aos consumidores – nos Estados Unidos, o acesso aos cuidados médicos é garantido pela subscrição de seguros de saúde – o poder de “rejeitar” os seus prestadores no caso de insatisfação com o serviço que oferecem:

Se não gostarem do que eles estão a fazer, vão poder despedi-los. Eu gosto de poder despedir as pessoas que me prestam serviços.

A campanha  entrou imediatamente em alerta: como vincou o antigo presidente do Comité Nacional republicano, Michael Steele, esse comentário vai “assombrar” a campanha de Romney. “Está-se mesmo a ver que Obama e a sua equipa vão passar esse video inúmeras vezes, juntamente com umas imagens bem deprimentes. Romney não pode continuar a oferecer-lhes soundbites”. Mas nem foi preciso esperar por Obama. “Romney gosta de despedir pessoas, eu gosto de criar emprego”, reagiu Jon Huntsman, que combate pelos mesmos eleitores moderados de Romney. Ao fim do dia, a frase tinha sido repetida centenas de vezes.

Em defesa do seu candidato, a campanha alegou que a declaração estava a ser “mal interpretada” e repetida “fora do contexto”. Um argumento absolutamente correcto, mas que só veio lançar mais achas para a fogueira. Há uns meses, a mesma campanha tinha declarado ser “justo” utilizar declarações truncadas em anúncios eleitorais, depois dos conselheiros de Obama terem denunciado a táctica – um vídeo patrocinado pela campanha de Mitt Romney mostrava Obama perante os seus apoiantes dizendo “Se continuamos a falar sobre a economia vamos perder as eleições”. O vídeo era da campanha de 2008 e a frase que Obama proferiu foi qualquer coisa como “Os nossos adversários estão muito preocupados, a campanha do senador John McCain até disse, e estou a citar, se continuamos a falar sobre a economia vamos perder as eleições’”.

A performance desastrada de Romney no debate televisivo de domingo já tinha aberto o caminho para os seus rivais, pela primeira vez, atacarem duramente as suas credenciais de gestor, que até então constituíam umas das principais virtudes e dos mais fortes predicados do candidato.

Newt Gingrich e Rick Perry, cuja linha de ataque contra Romney tinha a ver com a sua mácula e impureza ideológica (o ex-governador é o exemplo acabado do flip-flopper), guinaram à esquerda e encontraram uma nova linha de fogo. “Não tenho dúvidas que o governador Romney se preocupasse com os papéis-cor-de-rosa* [pink slips, nos Estados Unidos, são os formulários oficiais distribuídos aos trabalhadores despedidos]. Na sua companhia, com todos os postos de trabalho que ele erradicou, devia estar preocupado que não tivesse papéis cor-de-rosa suficientes para entregar. Quando Romney diz que compreende os problemas dos trabalhadores, é um insulto”, atirou Rick Perry. “O que Romney fazia na Bain Capital [a sua empresa de investimento e capital de risco]era saquear outras companhias”, resumiu Gingrich.

 Rita Siza

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