Primeiras impressões sobre os números do Iowa

Por uma unha negra, o ex-governador do Massachusetts, Mitt Romney, venceu os caucus do Iowa. Com mais oito votos do que o segundo classificado, o surpreendente Rick Santorum, o concorrente veterano parte para a primária do New Hampshire com um reforçado estatuto de favorito à nomeação republicana para a Casa Branca. Ou será que parte?
A votação do Iowa não consolidou o eleitorado conservador em torno da candidatura de Mitt Romney – a sua votação foi sensivelmente a mesma que obteve em 2008, quando ficou em segundo lugar. Ou seja, Romney não atraiu novos apoiantes para a sua causa. Mais relevante do que os 25% de votos que recebeu (30015), é o facto de a sua candidatura vencedora continuar a ser rejeitada por dois terços dos eleitores republicanos. Quer isto dizer que há muito mais conservadores que não querem que Mitt Romney seja nomeado pelo partido do que os que querem que o antigo governador seja o adversário de Obama em Novembro.
Essa é a nuance que a imprensa americana destaca no rescaldo dos votos. “Os caucus do Iowa não forneceram uma resposta clara sobre o tipo de candidato que os republicanos pretendem apoiar para derrotar o Presidente Obama e reconquistar a Casa Branca”, assinala o The New York Times. Por seu lado, o Washington Post nota como Romney continua, em 2012, a debater-se com “os mesmos problemas que inviabilizaram a sua candidatura em 2008”.
A surpresa do Iowa – anunciada uns dias antes mas ainda assim surpreendente – foi a votação no ex-senador da Pensilvânia Rick Santorum. A sua campanha foi projectada como um míssil do fundo da tabela para o top 3, ou seja, Santorum passou a ser um candidato “a sério” na corrida republicana, e por uma razão simples: ele é o oposto de Romney, um conservador em quem os conservadores acreditam.
Já o candidato libertário Ron Paul provou, mais uma vez, ser um caso verdadeiramente à parte. Durante uma parte da noite, Ron Paul foi indicado como o vencedor dos caucus (terminou em terceiro, com 21% dos votos). Isso aconteceu porque as projecções dos resultados foram feitas com base nas entradas para as assembleias de voto: os apoiantes de Ron Paul foram os que compareceram em peso mais cedo.
Com uma organização notável, Ron Paul foi o único candidato capaz de enviar um representante para cada sala de caucus (as televisões americanas, em directo de várias localidades do Iowa, observavam como em muitos desses lugares não se encontrava ninguém que falasse em nome da candidatura de Rick Perry ou Michele Bachmann).
Em 2012, a campanha de Ron Paul é a única que acrescenta eleitorado ao bloco conservador – e nesse aspecto rivaliza com o feito de Barack Obama em 2008. O mais velho de todos os candidatos é o que reúne a preferência dos jovens, ao contrário de Mitt Romney, cuja base de apoio é a da faixa etária mais velha. Será uma preocupação para os republicanos, se Romney vier efectivamente a ser o nomeado: num cenário de confronto com Obama, o democrata goza de vantagem entre a juventude (foi a mobilização dos jovens que impulsionou a sua campanha de 2008). Uma ressalva: até agora, os jovens eleitores de Obama têm-se manifestado desiludidos com o Presidente e desinteressados com a campanha; poderão não comparecer à eleição. Pelo contrário, os eleitores mais velhos são o bloco que tradicionalmente mais vota.

De volta aos números do Iowa, algumas notas de interesse. Quando se divide o eleitorado em grupos auto-denominados de “conservadores”, “moderados-com-inclinação-conservadora” e “moderados-com-inclinação-liberal”, constata-se que Rick Santorum foi o preferido pelos primeiros (26%), Mitt Romney foi a escolha dos segundos (30%) e Ron Paul arrecadou os votos dos terceiros (40%).
Ronl Paul também conquistou a maioria dos votos dos eleitores que se identificavam como “independentes” (de acordo com os números da ABC, 6 em 10 eleitores de Ron Paul dizem que não são republicanos), e dividiu com Rick Santorum a votação dos eleitores evangélicos – ou seja, o eleitorado que se afirma como mais conservador ainda não se fixou num candidato, e divide a sua preferência consoante esteja mais atento às chamadas “questões sociais” ou aos temas de economia e política externa.
Outro aspecto interessante revelado pelas sondagens: dois terços dos participantes nos caucus identificaram-se como simpatizantes do movimento anti-governo Tea Party, e o candidato em que menos votaram foi Mitt Romney.

No entanto, uma palavra de precaução. Os números do Iowa fornecem pistas mas não devem ser extrapolados para a realidade nacional. Apenas uma minoria de eleitores participa nos caucus, e a noite passada não foi excepção. Do total de eleitores registados, só 120 mil saíram de casa para manifestar a sua preferência. Na eleição de 2008, a adesão aos caucus ficou nos 118 mil eleitores. Ainda assim, pode argumentar-se que o envolvimento da população é francamente maior agora: em 1996, a última vez que os republicanos escolheram um candidato para tentar derrotar um Presidente democrata (o antigo senador do Kansas Bob Dole contra Bill Clinton), foram 90 mil eleitores do caucus.

O Iowa vai enviar 28 delegados à Convenção Nacional Republicana de Tampa, na Florida. De acordo com o regulamento eleitoral do estado, esses delegados não estão comprometidos com nenhuma candidatura, pelo que teoricamente poderão depositar o seu voto em qualquer concorrente que se apresente à nomeação na Convenção. Porém, não há tradição de “convenções divididas” no Partido Republicano – a aplicação do método “winner takes all” na distribuição dos delegados das primárias garante que estes eventos sejam festas de coroação/aclamação do candidato com mais vitórias.

Rita Siza

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