Moldávia: o maior ‘cofre’ mundial de vinho

Fonte: www.cricova.md

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Quando pensamos em vinho, na sua qualidade ou capacidade/potencial de exportação de um determinado país, dificilmente a Moldávia nos vem à mente. Mas devia…

As caves subterrâneas francesas da Champagne, Borgonha e Bordeaux serão as mais tradicionais e visitadas do mundo, mas ficam-se por uns ‘meros’ 20 quilómetros. Longe de desdenhar estas verdadeiras minas do mais saboroso nos néctares, apenas as comparo com duas da Moldávia, que competem pelo estatuto das maiores do Mundo.

Cricova e Milestii Mici. Dois nomes de adegas a ter em conta. As primeiras começaram a ser escavadas no século XV e têm ‘entranhas’ de calcário: o objetivo era extraí-lo para a construção de Chisinau, a capital.

Fonte: www.cricova.md

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Os seus corredores totalizam cerca de 100 quilômetros de extensão, vão até 7,5 metros de largura e 3,5 metros de altura (sim aqui circulam automóveis em ruas batizadas com nomes de uvas) e, o mais importante, albergam cerca de 1,3 milhões de garrafas de mais de 600 marcas diferentes.

Na II Guerra Mundial serviram de esconderijo e armazenamento militar. Entretanto, muitas figuras de estado de renome mundial por cá andaram. O francês Jacques Chirac, o chinês Jiang Zemin ou o russo Vladimir Putin, que aqui celebrou o seu 50.º aniversário, são apenas alguns exemplos. Os compatriotas Leonid Brejnev e Mijail Gorbachov também eram clientes habituais. Tal como o astronauta Yuri Gagarin: diz-se por cá que o primeiro homem a viajar para o espaço e a voltar para o Planeta Terra se terá perdido durante dois dias até conseguir sair à superfície…

Fonte: www.wine.md

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A Milestii Mici data de 1969 e visava armazenar, amadurecer e preservar vinhos de alta qualidade para exportação. As informações sobre as mesmas são algo contraditórias, mas é certo que as suas galerias atingem até 100 metros de profundidade. Dizem que são cerca de 200 quilómetros de galerias, embora o acesso seja apenas parcial. O Guiness Book of Records já a reconheceu como a maior coleção de garrafas de vinho de qualidade do mundo, com mais de 1,9 milhão de garrafas.

Com a comidinha certa, este é um dos lugares onde, indubitavelmente, seria muito, muito feliz…

Rui Bar­bosa Batista relata no blo­gue Cor­rer Mundo a sua invulgar aven­tura por Palma de Maiorca, Roménia, Moldávia, Itália e São Marino. No site www.bornfreee.com pode ace­der a outros rela­tos e ima­gens sobre a viagem.

Chisinau: a interessante velha soviética

A capital e maior cidade da Moldávia não será dos destinos de turismo mais desejados, seu sei, mas o facto do país ter uma natureza que chega a ser deslumbrante aliado à  arquitetura estalinista (não falo dos enfadonhos blocos de betão) tornam-na um lugar obrigatório nestas latitudes. Merece ser vista, com atenção, pois os seus encantos – reais – não são óbvios.

À semelhança de toda a nação, seguramente das mais pobres da Europa, Chisinau não exibe riqueza ou soberba generalizadas – apenas localizadas, mas já lá vamos -, porém o seu legado histórico – não apenas soviético – tornam-na, aqui e ali, em museu a céu aberto. Com o agrado, pessoal, de ser uma das capitais mais arborizadas da Europa.

Ao contrário de muitas outras urbes do Leste do Velho Continente, Chisinau parece ter parado no tempo. O que me agrada particularmente. Estamos em 2016, mas é como se experienciasse um dia-a-dia que remonta há muitas décadas. Imagino que continuo na antiga URSS (União Soviética). Até no trajar de muitos moldavos… sendo que à noite tudo muda, com a luxúria a surgir do nada, em carros topo de gama de vidro fumado e ‘top models’ saindo não se sabe bem de onde.

Sim, aqui nota-se claramente a forte influência soviética. Na arquitetura e modo de vida. E sobra quem não fale a língua romena, expressando-se apenas em Russo. Na verdade, conhecendo muito bem todo o Leste Europeu (apenas não visitei a Bielorrússia), em poucos lugares como aqui, fora da Rússia, podemos saborear a vida desses tempos.

O seu ar cinzento? Delicioso. O Porto que me adotou tem beleza ímpar e não foge muito a estas tonalidades. Chisinau não tem a mesma ‘vida’, mas os seus habitantes parecem-me confortáveis com o ritmo do seu quotidiano. Claramente distinto entre a enérgica – e por vezes extravagante – juventude e gerações mais velhas.

As tradições continuam vincadas e assisto a uma procissão noturna em que esbeltas jovens desfilam ao lado de pais e avós. Sapatinho alto. Roupa curta. Minúscula, por vezes. Devoção antes da… diversão, numa cidade cujos principais pontos de interesse se confinam a uma zona pequena e fácil de explorar.

Chisinau foi devastada na II Guerra Mundial e regulares terramotos (fortes em 1940 e 1977) revelaram-se acrescido injusto castigo duplo. A forte política de russificação – o alfabeto latino foi substituído pelo cirílico e houve deportações em massa, ‘compensadas’ com a chegada de muitos russos – que se seguiu incluiu a reconstrução da cidade liderada pelo arquiteto Alexey Shchusev, que comandou uma vasta equipa.

O centro histórico é onde tudo acontece. Podemos começar pelo Arco do Triunfo, que celebra precisamente o êxito russo sobre os turcos-otomanos. Não tem o tamanho do original, em Paris, mas a obra do arquiteto Luca Zauşkevici (1840) está no centro de boa parte das referências mais interessantes da capital.

O Parque da Catedral é um bom lugar para relaxar e, como nome indica, tem um edifício religioso. Esbelto. A Catedral da Natividade, de estilo neoclássico, é a principal referência ortodoxa no país. Quando parcialmente destruída na guerra, chegou a ser adaptada a um pequeno centro de exposições. Recuperou o esplendor e as funções em 1997.

Esta zona é onde decorrem boa parte das celebrações na cidade, sejam ou não de cariz religioso. Até concertos… Regularmente, a principal avenida da cidade é fechada e o parque transforma-se em amplo espaço de lazer. Um parque com oito entradas, adornadas com grande diversidade de flora.

Progressivamente, surgem contrastes que chegam a chocar. Lado a lado com evidentes dificuldades económicas, carros de luxo, as mais caras cadeias de lojas internacionais e restaurantes para uma clara minoria. Espelham as desigualdades sociais, nas quais os mais poderosos parecem fazer questão de as sublinhar, desafiando, clara e impunemente, a lei: o estacionamento em qualquer lugar e perigosas manobras de condução são apenas o exemplo mais visível.

Tudo nas barbas de Stefan cel Mare, o Grande, um rei que desde há 500 anos é uma referências nestas terras, que foram mudando de senhor, face a instáveis interesses geopolíticos. A sua estátua foi alterando de local, mas agora voltou ao original, no parque central com o seu nome. Ótimo para passear, descansar ou apenas ler um bom livro. A um quilómetro, o lago Valea Morilor. Um espaço bem mais amplo, igualmente com natureza, embora sem a mesma beleza.

O animado mercado central, os diversos museus, a igreja de todos os santos (os edifícios religiosos são, por norma, bem mais modestos na aparência do que no seu interior), o memorial judeu, o parlamento ou palácio presidencial valem uma visita.

Chisinau é barata. A estadia, os transportes, comida e bebida são perfeitamente acessíveis. E o país, acreditem, é de uma ruralidade encantadora. A Moldávia está a ‘agarrar-me’. Dêem-lhe essa oportunidade.

Rui Bar­bosa Batista relata no blo­gue Cor­rer Mundo a sua invulgar aven­tura por Palma de Maiorca, Roménia, Moldávia, Itália e São Marino. No site www.bornfreee.com pode ace­der a outros rela­tos e ima­gens sobre a viagem.

Rumo à Moldávia

Comboio é o meu transporte favorito, mas este para Chisinau sai apenas uma vez por dia. E é a meio da noite. Sem qualquer sentido. Incompreensivelmente, Iasi não faz parte das contas de países centrados em torno do umbigo das respetivas capitais: apenas Chisinau e Bucareste estão servidos a horas decentes.

No terminal de ‘marshrutkas’ (carrinhas de transporte mais típicas dos países de Leste) ninguém me sabe dar novidades para Chisinau. Estranho. E o homem do guichet de informações andará a laurear a pevide, pois tem o equivalente ao ‘volto já’ exibido há demasiado tempo. Entretanto, uma decrépita carrinha chega com a desejada placa ‘Chisinau’ e tudo se resolve. Claramente o veículo em pior estado de conservação.

São uns 150 quilómetros, boa parte deles já em território moldavo. A fronteira funciona como uma verdadeira separação entre os países, pois a pobreza logo se instala após os habituais procedimentos alfandegários.

Dentro da viatura, fotografo a fronteira – um velho hábito, proibido, que custa abandonar – mas sou apanhado por um soldado. Que não faz boa cara. Ajo como se ainda não tivesse tirado qualquer foto. Digo-lhe isso, em gestos, pelo que não vem verificar. Certa vez, entre o Burundi e o Ruanda, safei-me pelo facto da máquina estar encravada e não poder recuar na visualização das imagens.

O passaporte é verificado minuciosamente. De ambos os lados da pacata fronteira. Estranham sangue português nestas paragens. Mas não têm por onde pegar. Nem os vejo com atitude arrogante. Em minutos, já saboreio o caminho da verdejante nova nação que nos acolhe.

A Moldávia surge surpreendentemente bela. Antiga, pobre, mas extremamente cativante na sua ruralidade. E como eu gosto destes cenários…

Olga fala bom inglês. Estuda em Iasi, “tal como imensos outros moldavos”, e agora vai visitar a família. Boa conversadora. Situa-nos em termos de religião e rituais ortodoxos. Pede uma ‘selfie’ para mostrar aos familiares e amigos. Custa a sair uma em condições. A marshrutka serpenteia pela estrada em péssimo estado e não conseguimos fixar uma posição. “Fica mesmo assim. Parecerão obras de arte. Será o retrato fiel da jornada”, graceja.

Chisinau não se apresenta como a mais bela das cidades. E o motorista leva-nos para a zona errada: desejo a estação de comboios, mas acabamos no terminal de autocarros. Bem distante. Aqui, o serviço é ao domicílio. Ou quase.

Quando corrige a trajetória e nos leva ao hotel, esquece-se de onde deveria ter parado. Só mais tarde para. E, por gestos, diz-nos que já deveríamos ter saído. Não fala inglês. Mochila às costas e fazemos o restante trajeto a pé. O hotel é dos mais ‘simpáticos’ e mais bem cotados da capital. Embora algo difícil de encontrar. E em rua secundária.

Daniel espera-nos. Bom amigo que já viajou comigo na Birmânia, Uganda, Ruanda, Burundi, Quénia e Etiópia. Um curioso nato com a vantagem de ser médico, sempre uma companhia útil em viagem. Na Moldávia, seremos, então, um trio. Promete…

Rui Bar­bosa Batista relata no blo­gue Cor­rer Mundo a sua invulgar aven­tura por Palma de Maiorca, Roménia, Moldávia, Itália e São Marino. No site www.bornfreee.com pode ace­der a outros rela­tos e ima­gens sobre a viagem.

Iasi, o diamante romeno

Iasi surge no meu roteiro como um plano B, um rasgo de última hora. Sai desta viagem como a grande surpresa da longa jornada. Que cidade! Que destino!!

História e modernidade. Herança cultural. Pujança social. Monumentos. Gastronomia. Gente sorridente. VIDA! Não sei que mais pedir para uma experiência inesquecível neste Mundo.
O destino coloca-me nas mãos de Eiffel. Sim, do Gustavo. Esse mesmo. O Traian Grand Hotel é uma das obras-primas do mestre da engenharia gaulês, imortalizado pela torre com o seu nome em Paris, pelo seu ‘dedo’ na Estátua da Liberdade e trabalhos em Viena, Saigão e outros destinos mais ou menos exóticos. Desenhou e construiu o Traian. Aqui em Iasi. Uma obra neoclássica que nos faz sonhar e experienciar outros tempos. Um luxo de **** a preço… competitivo.

Porém, e antes de me aventurar a contar sobre a cidade, tenho de me fixar JÁ no imponente, majestoso, soberbo (acreditem, todos estes epítetos são eufemismos da realidade) Palácio da Cultura. Um admirável edifício neogótico do início do século XX que agora é um vasto complexo museológico.

Construído sobre as antigas ruínas de dois antigos palácios que serviram como cortes reais moldavas (região da Roménia, não o país) – a primeira de 1343 e a segunda em 1823 -, mas destruído em incêndio na derradeira década do século XIX. Não sei como era o original, mas o que resultou dos despojos é digno de figurar entre os mais emblemáticos edifícios do planeta. Sim, sem exagero. Acreditem, ter visitado metade dos países do Mundo ajuda-me nesta convicção.

Foram duas décadas para construir (inaugurado em 1926) uma extravagante obra neogótica com 298 quartos distribuídos por imensos 36.000 metros quadrados. Esteve em remodelação durante oito anos. E HOJE o público pode contemplar o resultado pela primeira vez.

Não arranjo bilhete. Chego tarde. Mas explico a um dos seguranças que no dia seguinte – o palácio voltará a fechar um par de dias – estou de partida. Digo-lhe ao que venho. E mereço a sua benemérita compreensão. Que muito agradeço. Sim, é verdade, apetece-lhe uma cerveja. Não é o meu estilo estes caminhos enviesados, mas ninguém sai prejudicado da situação. E não posso MESMO perder o seu interior.

Alberga um museu de história, um etnográfico, um de artes e outro de ciência e técnica. Ao nível do papel cultural, académico, artístico e político que a cidade ostenta desde há 500 anos. E sobra arte no seu faustoso interior. Diria que, tal como o Hermitage, em S. Petersburgo, nem precisaria de arte para nos deslumbrarmos com o seu sumptuoso interior.

Nas suas traseiras, a nova zona de vida noturna (e diurna) da cidade. Jardins, piscinas, esplanadas, bares, restaurantes, hotéis, gente bonita… numa urbe com cativantes praças e parques bem-cuidados.
O Palácio da Cultura, a Praça da União, as inúmeras igrejas e palácios tornam a zona um ex-líbris da Roménia. E não esquecer a forte tradição judaica deste aglomerado de 300.000 habitantes, um quinto dos quais estudantes universitários. Que ajudam a um ambiente sempre descontraído, renovado e jovial. Cada vez mais dinâmico. A universidade, o teatro e o jardim botânico (mais de 100 hectares e 10.000 espécies) mais antigos do país estão aqui.
Iasi está em permanente agitação com festivais, conferencias, eventos religiosos… afinal, na sua área alberga mais de 10 mosteiros e 100 igrejas históricas.

A catedral Metropolitana, a maior ortodoxa na Roménia, o mosteiro Golia, a antiga e a nova catedral católica, a igreja Arménia, a grande sinagoga (uma das mais antigas da Europa)… na verdade, o difícil é saber por onde começar. O complicado é definir uma escala sobre que obras mais me encantam. E já referenciei que assisti a cerimónia religiosa ortodoxa com cânticos de tonalidades divinas?

A bienal de arte contemporânea Periferic, o festival internacional de literatura FILIT, o festival internacional de educação (FIE), o festival aeronáutico Hangariada, festivais de rock, opera e jazz são frequentes, tal como musica ao vivo ou noites de poesia e leitura são habituais em bares cafés, sempre com grande vida.
Aqui também não faltam feiras e feirinhas, todas com o seu ar artesanal. A carteira não é muito afetada, mas a mochila ainda não percebeu como vai ter de se amanhar. Sim, Iasi entusiasma-me a um ponto surpreendente.

E há o parque Ciric, com quatro lagos, que ajuda a dias descontraídos e soalheiros. Fico a saber que Iasi tem perto de 400 árvores centenárias, 224 das quais declaradas ‘monumento’ de interesse nacional. Gosto deste respeito pela natureza. E da forma como esta gente aproveita (também) as benesses do ar livre.

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Sighisoara, a Alma Medieval da Transilvânia

Sabem aqueles lugares do Mundo que nos maravilham e aos quais prometemos voltar? Pois bem, estou a cumprir o sonho iniciado em 2012: o retorno a Sighisoara.

O centro histórico de ‘lugarejo’ torna-o quase invisível no mapa da Roménia, mas sobra-lhe dimensão no meu lado sensorial. Sighisoara encarna bem o que aprecio nas maravilhas medievais dessa Europa.

Vlad, O Empalador (Vlad Tepes, que a literatura de ficção – Bram Stocker – transformou em ‘Conde Drácula’) é o filho pródigo deste burgo do século XII no qual deambulo uma e outra vez, perdido nas ruelas de paralelepípedo pintadas a cores quentes, num arco-íris ‘vintage’.

Aos poucos, Sighisoara vai recuperando e ruínas vão
sendo transformadas em galerias, restaurantes, lojas, bares… antes o turismo, do que o degredo. Este lugar merece futuro. Risonho.

Ainda não falei das engalanadas torres. Das construções imponentes que fazem deste tipo de arquitetura a minha favorita no Velho Continente. Ajuda a colocar a Roménia no meu pódio de eleição na Europa.

Preciso dizer que estes 850 anos de história e cultura dos Saxões na Transilvânia só podia ser Património Mundial da UNESCO? Desde 1999 que a obra iniciada pelos artesãos e comerciantes alemães foi consagrada internacionalmente.

Tal como no Portugal de outros tempos, o piso inferior das casas – muitas, mal amanhadas – era uma loja ou oficina (por vezes, gado), enquanto o andar superior era destinado à habitação. Com o turismo, o piso térreo é agora dedicado ao comércio e o superior a todo o tipo de hospedagem.

A Torre do Relógio (século XIV) e a Passagem das Velhas Mulheres anunciam a pequena, mas bela e aconchegante cidade velha. E tornam a ascensão à cidadela de Sighisoara mais fácil durante o Inverno para os mais idosos que, ainda assim, parecem já não ser a maioria nesta cidade que ronda os 30.000 habitantes. O crescente turismo ajuda a fixar os mais no
vos.

A Torre do Relógio é mesmo a principal imagem de marca da cidade. Vê-se ao longe e, do seu topo, vista privilegiada de 360º. Alberga um pequeno museu, da história da cidade, mas o ‘bater’ das horas, animadas por apelativos bonecos mitológicos, é o que mais prende os curiosos. Tal como a pequena sala de tortura, que também pode ser visitada. Em frente, um pequeno museu de armas.

A uns trinta passos, contados, a casa (amarela) onde nasceu Vlad Tepes, ainda hoje recordado. Venerado. Desejado. “Era muito duro e cruel, certamente, mas nessa altura não havia crime. Tínhamos uma sociedade mais ímpia”, surpreende-me uma jovem universitária. Dizem que Vlad era exímio estratega militar. E que a sua desumana técnica de empalamento controlava os cidadãos e aterrorizava os inimigos. No rés-do-chão da casa que o viu crescer funciona agora um restaurante. Tepes não deve estar satisfeito…

A histórica escadaria coberta (1642), em madeira, é composta por 175 degraus que nos conduzem à Torre do Relógio, mas também nos leva à igreja luterana. Vários credos parecem coexistir, pacificamente.

A cidadela é protegida por vária torres. Todas diferentes, mas iguais nos grandes telhados inclinados. Várias serviam como portas da cidade.

No lugar mais alto de Sighisoara, há um histórico cemitério cuidado por um zeloso coveiro e o seu cão. Junto a uma igreja gótica (1345-1525) que também apetece explorar e que foi erigida sobre as ruínas de uma fortaleza.

Se as cores dominam de dia, a noite não é menos mágica na bem iluminada cidadela. É uma nova e não menos estimulante experiência sensorial. Os vários restaurantes fieis aos tempos medievais ajudam a compor o cenário.

Na verdade, esta pérola da Transilvânia vê-se em menos de um dia, mas é desperdício não ficar mais. Em duas noites podemos mergulhar verdadeiramente no espírito.

Acredito que entre mim e Sighisoara não há duas sem três. Nunca estive cá no festival medieval no qual artes e artesanato se mesclam com rock e teatro.

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Sibiu, a joia da Transilvânia

Sem dúvida, dos meus lugares favoritos na fantástica Roménia. Uma cidade de joviais 900 anos que tem tudo o que aprecio: gente hospitaleira, boa comida, arquitetura, lugares bonitos, história, natureza, cultura…

A cidade ganhou dimensão internacional quando foi capital europeia da cultura em 2007, mas também porque, face aos seus inúmeros méritos, a revista Forbes e o The Huffington Post a colocaram em restrita lista dos mais idílicos lugares a visitar na Europa. No velho e no novo Mundo, Sibiu é palavra cada vez mais conhecida e desejada. E explorada pelos restantes romenos e cidadãos de todo o Mundo, estimulando a sua abertura à multiculturalidade.
O centro histórico é o maior do país e provavelmente o mais belo e mais bem conservado. Numa cidade abrigada por muralhas e torres, destaca-se o seu ar medieval espelhado nos dois níveis pelos quais o centro urbano se espraia. Há história em todos os seus poros, seja nas casas particulares ou nos edifícios públicos. Nas igrejas e nos vestígios defensivos.
As praças centrais e as adjacentes ruas estreias – e outras mais imponentes – têm uma grande importância do ponto de vista arquitetónico e histórico. Na verdade, diversos estilos arquitetónicos convivem em harmonia e destacam-se através da forma das claraboias, dos telhados, das ombreiras e até das persianas. Difícil não reparar naqueles misteriosos olhares vigilantes em todos os telhados…
Há um relógio que, na sua versão atual, funciona desde 1588, tendo substituído, na altura, um outro ainda mais antigo. A nova camara municipal é um hino à elegância e criatividade dos génios transversais ao tempo. E subir à mais altiva torre na praça principal (Turnul Sfatului) permite-nos uma vista incomparável sobre toda a cidade, descobrindo todas as suas outras torres e picos de edifícios.
Esta é também a terra dos museus. E o Brukenthal é o primeiro da Roménia, inaugurado em 1917, começando com coleção que inclui pinturas, selos, biblioteca e numismática do barão que lhe deu o nome… e o edifício. O projeto cresceu e hoje inclui os museus de história, de história natural, da farmácia e da caça. Juntamente com o complexo Astra, igualmente museu nacional, tornam a cidade ainda mais atrativa na parte cultural.
O meu entusiasmo por Sibiu fez-me esquecer que esta encantadora cidade da Transilvânia era, até recentemente, habitada essencialmente por alemães, entretanto regressados à pátria com os incentivos do governo. Agora serão apenas uns 2.000, mas o presidente da autarquia é… germânico.
A cidade aguentou a perda. E está cada vez mais esbelta, com predicados de sobra. Como o amplo museu etnográfico ao ar livre, nos arredores, na floresta Dumbrava. Estruturas, paisagens e modos de vida de cada uma das regiões.
Mas o que mais me prende, o que me enfeitiça é mesmo este centro que me transporta a tempos idos, numa tela polida, com praças pavimentadas, azáfama das zonas pedonais, repletas de gente sorridente.
A Piata Mare (a praça principal) alberga regularmente feiras tradicionais e brinda-nos novamente com a sua ousadia. A Turnul Sfatului é a tal torre que parece controlar o Mundo e tem passagem para a Piata Mica, mais pequena, igualmente encantadora.
Deste lado, encontramos a ponte das mentiras. Era aqui que se faziam negócios entre mercadores. E onde os apaixonados faziam juras de amor. Para este nome ter vingado, presumo que uma e outra atividade não terão sido totalmente felizes nos exemplos dados à sociedade.
A Strada Nicolae Balcescu é a grande e espaçosa pedonal onde todos aparecem para ver e ser vistos. Tem restaurantes, gelatarias, lojas de souvenires e um movimento perpétuo, com as esplanadas sempre animadas.
O centro histórico faz-se tranquilamente caminhando e podemos arejar do tecido urbano no parque da cidadela. E apreciar a muralha Turnul Dulgherilor. Se possível, também não devemos perder um espetáculo logo ali ao lado, na Filarmonica de Stat.
Aliás, permanece-me a dúvida se prefiro Sibiu ao esplendor do dia ou se me enamoro mais com a luz turva e as sombras que enfeitiçam a noite. Esta cidade prende em qualquer circunstância.
Crama Sibiul Vechi. Old Lisbon (sim, português e com comida boa, da ‘nossa’). Crama Ileana. Qual deles a melhor experiência? Seriam precisas muitas linhas para contar o prazer de uma refeição nestes singulares restaurantes…

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Constança, nem só de praia vive o Mar Negro

É o destino favorito de férias dos romenos amantes de praia, mas já foi dos prediletos da realeza Europeia, por volta do ano 1900. Entretanto, a nobreza perdeu estatuto no burgo fundado pelo imperador Constantino, O Grande – não apenas na sociedade, mas também na decadência dos edifícios seculares da cidade, nascida 600 anos antes de Cristo– e Constança foi hibernando… até se reinventar.
Confesso algumas semelhanças com o encantador Porto que me adotou: sobra-lhe beleza, só há que a recuperar. Enquanto a Invicta renasceu, pujante como nunca (talvez demasiado, para meu gosto), Constança ainda hesita se há-de despertar. Para o turismo de praia, sobra-lhe energia, nomeadamente em Mamaia. Mas tem grande potencial, aparentemente desperdiçado, na sua vertente cultural.

Custa-me ver o abandono a que o casino foi vetado. Não pela atividade em si, mas pela qualidade arquitetónica do edifício. E a privilegiada localização. De frente para o imenso plano de água, com as ondas do Mar Negro a murmurar na sua estrutura agora habitada por gaivotas e gatos perdidos… É um dos edifícios de maior beleza neste país – Art Nouveau – e a chuva e cinzento do céu confere-lhe um misticismo ainda mais especial. Imagino que também brilha na tela, num qualquer passeio soalheiro ao fim da tarde…
A pitoresca cidade velha, onde encontramos tesouros arqueológicos, tem o charme de uma Veneza delapidada. E concentra, muito próximos, três notáveis edifícios de outras tantas religiões. Recuso-me a entrar na mesquita Mahmudiye – por princípio, deixei de visitar lugares sagrados que exigem dinheiro pela entrada –, a principal do país, mas aprecio, sem a maçada de tempo contado, a catedral ortodoxa (incluindo ‘missa’ para um pequeno punhado de fiéis) a dois quarteiros e a igreja católica romana logo ao pé.

Ao lado da ortodoxa, achados arqueológicos com casas de entre os séculos quarto e sexto. Ali, com vista para o mar. E para o abandonado casino que me arrebata, e a cujos pés temos um humilde aquário. E a poucos metros do conhecido farol Genovês. Não tem o uso de outros tempos na que continua a ser a grande porta do país para o Mar Negro, constituindo o seu principal porto.
Se o infindável porto impressiona, negativamente, na paisagem, quem para cá vem aposta regularmente em Mamaia, logo ali ao lado, com longas praias e gente bonita. É o lugar da moda. São oito quilómetros de areia dourada e múltiplos motivos para saborear o verão. Aquaparque, restauração, hotéis, bares e discotecas.

Fico-me por Constança, abençoada pelo museu nacional de história e arqueologia. Só por si, o edifício já justifica a visita. Está na praça principal (Piata Ovidu) e é belo e imponente, qualquer que seja a esplanada da qual deleitamos a vista. Entrando, acesso a impressionante coleção de artefactos gregos e romanos. Que também por cá deixaram termas que ainda estão em funcionamento.
Há um outro parque arqueológico, na Boulevard Republicii, que abriga colunas e fragmentos de três edifícios do século IV e uma torre do século VI. Não sei se o festival nacional de folk, que anualmente se realiza por estas bandas em agosto, contempla este espaço. Eu já imaginei como a experiência poderia ser…
sobrenatural.
Tanta coisa boa para ver sob persistente chuva abre o apetite. A comida grega é popular por aqui e o Niko’s é o mais bem conceituado por estas bandas. Sou grande apreciador da comida mediterrânica, mas nunca imaginei que me fosse perder como o fiz…

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