Furo ‘épico’

Os caminhos que rodeiam El Chalten não são asfaltados. À exceção da ligação a El Calafate, os restantes sãoem gravilha. Enem sempre todos os cuidados são suficientes. Apostamos em iniciar o trilho para o Lago de Los Três a uns10 quilómetrosda povoação. Imprescindível levar o carro. Começamos por visitar uma cachoeira e depois regressamos, provisoriamente, a El Chalten, apenas para deixar a Ro. Tem 67 anos de pura coragem, mas a longa e exigente caminhada que nos espera demandam mais do que vontade.

Hosteria Pilar é o lugar ideal para iniciar a aventura, mas encontra-la pode ser igualmente um desafio, mesmo conduzindo a 20/30 km/hora. Temos a sorte de a encontrar, não está propriamente bem assinalada. O resto do grupo não está no parque. Significa que falhou o reconhecimento do sítio. E não há rede em muitos quilómetros, pelo que nada podemos fazer. ‘Should i stay or should i go’ desfila na minha mente, enquanto vocifero sobre a má sorte de termos furado o pneu. Em nenhum lugar esta é uma boa notícia, aqui muito menos. Quase uma hora depois, de infrutífera tentativa de trocar a roda, o grupo fica novamente junto. A fortuna parece não nos abandonar, por completo.

Estamos atrasados e apostamos em iniciar o trilho. Só na manhã seguinte viremos buscar o carro. Que, como esperado, estará no mesmo lugar.

Com as dicas do responsável da rent-a-car, contamos resolver o assunto em 15 minutos, até porque temos horas a cumprirem El Calafate, de onde teremos voo neste dia para Buenos Aires.

Três habilidosos – eu, o Cristóvão Paula e o Rui Almeida – e não conseguimos retirar o pneu suplente do Fiat todo o terreno. Dávamos voltas consecutivas ao esquema que nos enviaram, sem resultado. E o macaco também fracassa na sua nobre missão: ‘desmaia’ nas nossas barbas, com o carro a cair abruptamente na ponta do nosso assustado nariz.

Um motorista de um grupo de montanhistas dá o seu melhor, mas não consegue ajudar. Também não entende o sistema. Meia hora mais tarde, desafiamos um companheiro de profissão que é algo mais paciente. A suposta namorada não gosta de ficar sozinha nem da sua persistência. Suja toda a roupa – bem vindo ao clube, companheiro! – em 1001 posições. Faz força. Inventa o possível e, surpresa das surpresas, acaba por desbloquear a situação. Mais de meia hora depois…

Agradecemos e insistimos com o macaco – ele não tem um para nos emprestar -, que não dá sinais de melhoras. Tentamos, então, com o do carro com o qual nos deslocamos para resgatar o veículo furado. É muito mais frágil. E está com dificuldades em satisfazer as nossas expectativas. Falta-lhe força. Procuramos pedras para adaptar o seu tamanho. Um perigoso e periclitante equilíbrio que nos deixa com o coração nas mãos.

Não é fácil até sermos bem-sucedidos. O que acontece com duras horas e meia de atraso, sem conseguir avisar o resto do grupo, pela tal ausência de rede.

Começa a chover. Exatamente quando terminamos. Ufa, parece que a sorte, finalmente, mudou. Não fosse o carro de apoio furar no regresso à povoação…

 

Rui Bar­bosa Batista relata no blo­gue Cor­rer Mundo a sua aven­tura pela Argentina e Uruguai. No site www.bornfreee.com pode ace­der a outros rela­tos e ima­gens sobre a viagem.

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