O envolvente fantasma Kharanaq

É com o estômago colado às costas que Kharanaq se nos aparece no horizonte. Um mágico lugar fantasma que resistiu a 4.000 anos de história, mas agora está abandonado aos caprichos do tempo…

O nosso interlocutor não arranha uma palavra de inglês ou qualquer outra língua. Mas sobra-lhe experiência de vida e pragmatismo. Será o nosso cicerone neste périplo ilusório, ‘prémio’ que conquista pela forma resoluta como trata do nosso estômago. Leva-nos a uma quase abandonada bomba de gasolina e ao seu modesto restaurante. Em pouco tempo põe-nos a comer como príncipes (e não é só pela circunstância da fome).

Octávio veio de boleia de moto no trajeto para o ‘restaurante’ e é essa experiência de vento no rosto que repito no regresso, até à entrada de um incrivelmente belo povoado de adobe, estranhamente abandonado…

Estou num dos lugares que mais aprecio no Irão. Apenas nós e a história. E uma misteriosa atmosfera. Intenso mergulho no genuíno. Um vale incrivelmente sedutor aos pés de montanhas com igual capacidade para cativar. Lá o fundo, uma colorida mesquita que realça ainda mais a singularidade da tela.

Perco um par de minutos a consciencializar-me que estou mesmo aqui. Um lugar muito, muito especial. Repleto de marcas da história e de erosão, bem além daquela que vai descascando as paredes…

Gado caprino e alguma agricultura, que se agarra a sistema de irrigação milenar. É assim que se sobrevive por estas paragens. Fico tão embeiçado, sou possuído por tal entusiasmo infantil, que acredito que, nos próximos anos, Kharanaq ressuscitará como um ‘secret spot’ para os que se aventuram no Irão.

Esta região de Yazd tem muito com que nos ocuparmos. O carácter que molda as regiões agrestes: aqui, o clima e os solos são desafios que nem sempre os humanos podem vencer.

Como desejo poder regredir no tempo, àquele em que as crianças percorriam estas estas enfeitiçantes ruas sinuosas e davam alegria à aldeia. Agora, apenas escassos idosos que, inevitavelmente, se tornarão fantasmas, tal qual o lugar onde escolheram viver…

Tudo isto é poesia. Apetece ficar por cá a ouvir dos anciãos histórias dos seus heróicos antepassados. Em Kharanaq sinto um magnetismo (quase) ímpar nestas Lendas da Pérsia…

Rui Bar­bosa Batista relata no blo­gue Cor­rer Mundo a sua aven­tura pelo Irão. No site www.bornfreee.com pode ace­der a outros rela­tos e ima­gens sobre a viagem.

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