Porto de Partida

Porto - Edifícios 1
Não há cidade como o Porto. Precisamente por isso, por saber que não há nenhuma que se lhe pareça, hei-de desejar sempre percorrer todas as outras: europeias, africanas, asiáticas, americanas. Mas só à luz do Porto chego a sentir plenamente as cidades que exploro. E em cada uma delas escuto, numa língua e outra, que a parte de mim que por lá caminha não deixará nunca de regressar.
Cabe aos especialistas – historiadores, antropólogos, arquitectos – dizer como é ou deixa de ser o Porto, e fazem-no muito bem. Eu limito-me a viver a cidade nos episódios e estados de alma que em mim melhor a refletem. Noto-me no Porto sempre que, ao som de uma velha cassete assombrada pelo Lloyd Cole ou pelos The The, os pneus do meu carro deslizam temerariamente sobre o paralelo molhado das abruptas travessas que descem das Virtudes para Miragaia. Reencontro-me em cada cortada da Praça do Império para a Rua de Diu, onde o mar se revela inesperadamente, não importa quantas vezes, murmulhando lá ao fundo. Nem me restam dúvidas de que estou no Porto quando me deixo invadir pelo crepitar das vozes francas nos cafés da Baixa.
Rua de Diu, Porto
Passei os meus primeiros anos na Rua Miguel Bombarda, cerca de década e meia antes de esta se converter no coração do Bairro das Artes e onde — em vez de exposições — se inaugurava no quintal em frente a matança do porco que, Domingo-sim-Domingo-não, acordava os meus ouvidos apavorados logo de manhã cedo. Cresci em Oliveira Monteiro, em volta do vigoroso resfolgar das máquinas de Cimbalino, do estalar das bolas de bilhar e dos assobios lançados às miúdas, numa casa amarela nas traseiras da qual, por entre as sebes verdes, apitava timidamente o vermelho do tranvia que ia para a Póvoa. Depois veio a Foz Velha, onde o vaivém dos carros sobre o empedrado das ruelas quase se confunde com o eterno pano de fundo tecido pelo murmúrio das ondas. Aqui, a intimidade com rio e mar acrescenta inevitavelmente uma nova dimensão estética e afectiva à vivência da cidade.
Foz do Douro, Porto
Recentemente, não resisti a deixar-me arrastar para uma dessas típicas casas antigas da Baixa (áreas que ecoavam de tão grandes, pé-direito de catedral gótica, chão de madeira rangente e claraboia com vista para a lua ao cimo das escadas íngremes: tudo aquilo a que na Baixa se tem direito), mais concretamente para a Rua da Galeria de Paris, que para muitos representa o epicentro de uma recém-estabelecida nova movida portuense. Vivi assim este ano e meio mesmo por cima de um daqueles espaços nocturnos do Porto que, embora tourist-friendly q.b., foi capaz de conservar uma personalidade, ambiente e selecção musical singulares.

Ao ser mais habitada por bares do que por não-bares, a vida na Galeria de Paris apresenta desafios sonoros únicos, e muitos poderão achar-me louco ou surdo por lá ter querido viver, mas garanto-vos que compensa. Durante o dia, a rua mergulha numa paz inesperada e deixa escutar a brisa que corre por entre as folhas dos Ginkgos. Serena e cosmopolita, subtrai-se ao fervilhar das ruas que a rodeiam, escapando surpreendentemente à algazarra dos autocarros, dos táxis e das ambulâncias que parecem querer evitá-la. À noite, isso sim — e especialmente durante o fim-de-semana, que pode perfeitamente começar um ou dois dias antes do previsto — transfigura-se, trocando o olhar estremunhado por um vestido de lantejoulas, e dando início a uma sequência peculiar de paisagens sonoras bem diferenciadas.

 

Se à uma da manhã a Rua da Galeria de Paris se deixou entretanto invadir pelo bulício das centenas — por vezes milhares — de corpos que ocultam quase integralmente a calçada, bulício pontuado pelos ocasionais graves de uma linha electrónica ou pela energia tórrida de um ritmo latino, por volta das quatro já apenas se ouvem os uivos de meia-dúzia de pinguços, ecoando pelas paredes e colidindo finalmente com violência contra o sono dos vizinhos. Partidos os últimos copos, chegam os veículos da SUMA que sopram e varrem e desinfestam e que apitam quando fazem marcha-atrás. Acordam então, em uníssono, todos os pássaros das redondezas, e fazem-se ouvir sobretudo as gaivotas, cujos guinchos parecem cada vez mais querer afirmar uma relação de soberania. Ao meio-dia tocam extasiados os sinos dos Clérigos, e a Baixa sabe que pode finalmente encostar a cabeça e aterrar.
Atardecer no Douro, Porto
Hoje escrevo-vos de volta à Foz Velha e ao familiar aconchego do espumar do Atlântico, que em breve atravessarei para — no contexto de deambulações acústicas por cidades desconhecidas, a meio caminho entre um Andante e um Andantino — soletrar os próximos episódios desta aventura sonora. Comigo levo o chiar dos eléctricos nos trilhos da marginal, os sotaques assertivos do Bolhão e o ondular dos barcos ao largo da Cantareira: que mais razões são precisas para nunca deixar de regressar?

 

Mas afinal a que soa o Porto?

 

Sound Escapes

“Porto de Partida” é o 1º episódio da série Sound Escapes, um projecto artístico onde a escrita de viagem se encontra com a arte sonora, e que pretende dar resposta à questão — A que soam os Lugares? — Este artigo encontra-se também publicado em inglês no website do projecto. Um grande obrigado à Casa da América Latina, à Câmara Municipal do Porto, à ESAD Matosinhos e a todos aqueles que com quem me tenho cruzado nesta viagem só de ida e que, dia após dia, me têm apontado na direcção do meu lado melhor.

 

Próximo Episódio >> Tulum: Gorilas na Bruma

 

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Um comentário a Porto de Partida

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