Rabo de Peixe – Um Novo Mundo

20150524-006_VHILS_Rabo-de-Peixe (1)Rabo de Peixe é tudo o que nos dizem e muito, muito mais. Um Mundo completamente à parte. Que apetece explorar até à mais profunda das entranhas. Um verdadeiro filme alternativo. Acima de tudo, pelas pessoas.

Confirmam-se crianças e jovens sem fim a deambular pelas ruas. Ou apenas sentados/deitados nas soleiras das portas. Que agora começam a ser, em determinados lugares, coloridas. Aqui, é como se o futuro não tivesse pressa. Ou jamais viesse. E soa a impotência para mudar isso.

Começamos por nos aventurar nas obras de Vhils. Quem as viu em Ponta Delgada, não pode falhar estas. Aliás, nenhuma. Como sempre, em edifícios degradados. Neste caso, eternamente a olhar o mar. O 10 de junho é bastas vezes usado para condecorativos disparates presidenciais. Este ano, Vhils foi ordenado Cavaleiro daOrdem Militar de Sant’Iago da Espada. A sua arte merece.

Enquanto fotografo os rostos desejados, impossível abstrair-me de sonora discussão que vem da minha esquerda. Há um armazém e, no seu interior, uma dezena de pescadores que, a avaliar pela violência da conversa – nomeadamente o tom e altura, já que muitas palavras não são percetíveis – faz supor que a manhã poderá ser de desgraça. Aventuro-me.

Sei que o Alexandre Farto (Vhils) tem outras obras na vila e decido perguntar. Sinto a preocupação de quem me segue com o olhar. Assume este ato como desnecessária ousadia. Sem sentido. Esta forma de falar está-lhes no sangue. No diálogo, do mais simpático, franco e aberto possível.

São generosos na comunicação e abrem-nos as suas vidas. E percebemos – se dúvidas houvesse – como é difícil. Mostram-nos a sua arte. Contam-nos o dia-a-dia. Revelam-nos o apelo do mar. Que não tem alternativa: em vila com pouco mais de 9.000 habitantes, mais de 1.000 são pescadores.

Percebemos as dificuldades e incertezas de quem tem no mar sustento diário. E de quantos dependem demasiado dessas mesmas incertezas. Rabo de Peixe é o lugar dos Açores com mais beneficiários do RSI (Rendimento Social de Inserção).

Não há pergunta sem resposta. Curiosidade que seja entendida como imprópria. Aqui não há segredos. Apenas uma grande vontade de conhecer e uma enorme vontade de mostrar a realidade. Tao crua quanto nua. A estética do betão chega a ser caótica, mas esta gente mais do que justifica um mergulho a sério na sua realidade.

Que o rapper Sandro G, filho da terra, canta como poucos.

https://www.youtube.com/watch?v=NWK-1_BIIeE

Rui Bar­bosa Batista relata no blo­gue Cor­rer Mundo a sua aven­tura pelos Aço­res. No site www.bornfreee.com  pode ace­der a outros rela­tos e ima­gens sobre a viagem.

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