Espírito Santo: Não há festa igual nos Açores

Os bois são enormes. Imponentes. E estão enfeitados, por todo o corpo. Com estrelas. Serpentinas. Fitas. Parecem que se vestiram para passeio dominical. Travestidos de galãs do Mundo animal. Há os que apenas fazem parte da festa, exibindo os seus adornados dotes, e os que, além disso, puxam carroça.

As estradas são estreitas e os espaçosos animais obrigam-nos a parar. O grupo festivo surge com a mesma alegria do de Mosteiros, mas com melhor vinho. E igualmente a oferecer diversos tipos de saborosos bolos e guloseimas.

Há uma dupla de bois que, subitamente, parece suicida, forçando o caminho rumo a um precipício. Vale-lhes um franzino e jovem pastor, que os guia e que é ainda mais teimoso do que eles. Sem dúvida, tem tarimba. E coragem.

Já na pacata aldeia, falhamos o início do périplo da trupe musical que se formou. Contam-nos que já começaram o espetáculo ébrios e que prometeram ir alegrar umas 50 casas. “E olhe que nunca faltam ao prometido”, garantem-me. Ficaremos a saber, mais tarde, que não são esperados para jantar antes de madrugada adentro…

Chove e abrigamo-nos no lugar onde o mais importante da ação vai decorrer: o jantar. É uma tenda bem grande que alberga quatro filas de mesas corridas. Hoje, são esperados 300 convidados, incluindo o grupo Bornfreee.com de oito. Somos dos primeiros a chegar e logo nos instalamos, junto a profundos conhecedores da ilha: Maria José é irmã do grande e bom amigo Eduardo. É professora e está cá há umas duas décadas. Está acompanhada de jovem músico e realizador, que fez um documentário sobre os Açores que no verão de 2014 andou a mostrar pelas nove ilhas, protagonizando o seu projeto com cativante pão de forma. O cinema ao ar livre é projetado em tela montada na lateral da carrinha.

Enquanto o grupo não fica completo, decido explorar a cozinha. Ampla. Cheia de boas e bem-dispostas voluntárias. Logo me mostram algumas das muitas e tentadoras delícias que vamos jantar. Impossível não me desgraçar. Valha-me o Espírito Santo…

Transmontanos estiveram entre os primeiros habitantes dos Açores e isso talvez ajude a explicar o espírito solidário que lhes está enraizado até ao tutano. É assim que uma das voluntárias se aguenta. Conta-me que ao quarto filho o marido “fugiu com outra, para a América”.

Sobrevive com a sua tenacidade. Planta a pouca terra que possui, cuida de uns animais e tem de aceitar o trabalho precoce dos seus filhos. O resto, é com a invariável e sempre pronta ajuda dos vizinhos. Um deles, é o patrono deste ano. Diz quem tem sido voluntário na cozinha que este ano já dedicou 36 cabeças de gado para os jantares em honra do Espírito Santo. Hoje, seremos 300. Asseguram-me que em quatro dias serão uns 1.200.

Para que se perceba melhor a árdua tarefa do mordomo, tudo é oferta sua: carnes, legumes, saladas, pão, bolos, sobremesas, todo o tipo de bebidas… o que for comestível ou bebível, tem a sua ‘bênção’. E, mais do que um custo, é a suprema das honras. No fim, ainda nos presenteiam com um grande bolo e sorrisos largos.

A vida recompensa os bons, mas a teoria não chega. Deixaremos o nosso contributo. Mero simbolismo, já que esta noite não tem preço. Mesmo. É a melhor experiência humana neste périplo e não apetece partir. Tanta, mas tanta boa gente e um ambiente familiar difícil de igualar.

O jantar é buffet. Que ajuda a perceber que temos aqui  verdadeiros leões. É sobejamente conhecida a exímia capacidade lusitana para beber. Se alguém tivesse dúvidas, esta gente também não é tímida a atacar as ofertas do Espírito Santo.

Poderia ser um casamento deliciosamente rural, mas não seria certamente tão animado. Isto é muito mais. Soa-me a conto de fadas. A noite irreal. Sinto que parte de mim sempre esteve aqui. E que assim vai continuar. Vamos deslizando em conversas temperadas por gente simples e que, pelo menos hoje, é feliz e nos torna iguais. Até às lágrimas.

Rui Bar­bosa Batista relata no blo­gue Cor­rer Mundo a sua aven­tura pelos Aço­res. No site www.bornfreee.com  pode ace­der a outros rela­tos e ima­gens sobre a viagem.

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