O Mundo das “Mulheres-Girafa”

DSC05974Em 2007, quando as vi pela primeira vez, o incómodo prevaleceu ao espanto. Nunca tinha visto um zoológico humano. Esta etnia fugia da perseguição de que era alvo pelo brutal regime militar birmanês e tinha-se instalado nas montanhas das zonas fronteiriças da vizinha Tailândia. Este turístico país rapidamente tornou estas mulheres num filão económico, explorando a sua desgraça.
Na verdade, não cumpre os regulamentos da ONU quanto a refugiados. E os Kayan (Padaung) são proibidos de sair das áreas demarcadas pelo governo, não podem trabalhar senão na sua ‘arte turística’ e está-lhe vedado o acesso à escola. Não estão legalizados, pelo que sair das pequenas aldeias às quais estão confinados dá direito a prisão. Total desrespeito dos direitos humanos.
“Os meus sonhos de vida? Conhecer o Mundo, aprender computadores e ter uma família calorosa”. Estas palavras de Maja, proferidas em 2007, com o mais inocente e belo dos sorrisos, ainda ecoam na minha mente. Ao longo de mais de meia hora, num surpreendente ‘arranhar’ do inglês, “aprendido com os turistas”, fico a conhecer a saga desta etnia perseguida no seu próprio país e escravizada nos vizinhos que a acolhem. Com a comunidade internacional mais empenhada em manter o circo do que em proporcionar-lhe as condições para uma vida digna.
DSC05992As aldeias não têm eletricidade ou água corrente. Elas dedicam-se à tecelagem, cultivam arroz, recolhem mel e vivem do turismo, preservando, na medida do possível, o seu modo de vida milenar. Juntamente com as crianças, vendem lembranças e deixam-se fotografar, cumprindo o desejo dos visitantes. Os homens estão no campo.
Sabia que encontraria mulheres-girafa no Lago Inle, porém estou bem frustrado pelo facto de nenhuma das três com quem vou lidar falar inglês. Tenho um milhão de perguntas para lhes colocar. E não quero saber delas através da versão de outros, que nada têm a ver com o seu sentir.
Duas jovens, sentadas num tear. Uma idosa, em trabalho mais leve. Espanta-me a imbecilidade dos visitantes chegam e logo lhes encostam a máquina ao rosto. Sem um sorriso, um esgar de testa ou uma aproximação gentil. Como se de um objeto se tratassem.
DSC05978Apenas consigo comunicar por gestos. E sinto que a frustração das duas jovens em não podermos dialogar não é menor do que a minha. Socorro-me da sensibilidade de Patrícia. Dá-me um dos muitos postais de Portugal que trouxe para a Birmânia, que vai deixando aqui e ali com mensagens apropriadas ao momento. Rabisco uma mensagem… que alguém lhes traduzirá. Se algum dia vierem a saber inglês e tiverem acesso online, quem sabe não me proporcionarão uma daquelas surpresas de uma vida?
Fico ali, sentado a seu lado, no alpendre anexo ao lugar onde trabalham. Aprecio o seu ar dócil, gentil. Na verdade, mal podem labutar. A cada segundo alguém chega e ‘exige’ um sorriso para a foto. Que não é negado. Sempre com serenidade exterior. Gostaria de ‘ver’ o que lhes vai por dentro. Não imagino pior vida do que esta…
DSC05985Pego na espiral de cobre com que vão presenteando o pescoço. Um peso que não desejaria carregar por um único dia. As peças chegam a pesar 10 quilos. Elas começam aos cinco anos, ganhando o primeiro aro com o qual ornamentam o pescoço. Depois vão juntando um atrás do outro até ao aspeto que lhes dá o nome pelo qual são conhecidas.
Na verdade, o pescoço não é alongado. Há, ao invés, ossos ‘afundados’ e, daí, a sensação. E não, não morrem se tirarem os aros. Apenas perdem o seu ganha-pão.
O que a nós custa, em forma de choque cultural, aqui é apenas o dia-a-dia. Não sei se há uma verdadeira frustração das limitações de vida. Se há essa consciência e até que ponto dói.
Abandono o lugar com a paz interior beliscada. O quotidiano vai tratando de a repor. Saio e o caudal do lago é menor. Há uma rapariga e dois jovens a jogar futebol. No canal, com água entre os tornozelos e os joelhos. A vida devolve-nos cenas de beleza…

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Rui Bar­bosa Batista relata no blo­gue Cor­rer Mundo a sua via­gem pela China e Bir­mâ­nia. No site www.bornfreee.com  pode ace­der a outros rela­tos e ima­gens sobre a viagem.

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