“Outra” Birmânia rumo ao Monte Popa

A primeira vez que contemplo aquele rosto, madrugava rumo ao Monte Popa. A mais bela que encontro na Birmânia, está coberta de pó. Uma peça de museu ambulante. Trabalha de sol a sol a carregar cascalho de um lado para outro, na construção de uma estrada.

O exotismo da sua beleza relaxada esvai-se da mente quando a jornada de uns 60 quilómetros entra no Mundo rural. E percebo, mais conscientemente, as agruras dos mais de 40.º que farão neste dia. Não é fácil resistir nesta altura do ano.

A minha atenção fixa-se numa obra em que há mais de 100 trabalhadores em cordão humano a fazer lembrar um formigueiro. A este ritmo, a casa estará pronta antes do anoitecer. Metaforicamente, claro.

Mais à frente há canas de açúcar e bambu. Entreajudam-se em cabanas mal-amanhadas. O luxo já não é o mesmo. Há uma espécie de barro que, dizem-me, acabará por formar um pequeno forno. Mesclo-me no meio dos trabalhos e o inevitável sorriso. Puro. Sincero. Desinteressado. Talvez apenas sem compreender o meu interesse neles. No seu trabalho.

Depois, a uns passos, há uma mó rudimentar, acionada por uma vaca. E três crianças encavalitadas numa trave que vai rodando com o animal. Abrem os braços como se estivessem na proa do Titanic. Voltas e mais voltas nesta brincadeira sem fim…

Metros à frente, há origamis feitos de folha de palma. Aqui, para captar um pouco de turismo. A chegada de um grupo, que se atropela no posicionamento de máquinas fotográficas, logo nos faz arrepiar caminho.

Há duas senhoras a arrecadar pequenos pedaços de madeira. Na verdade, ‘casca’ de árvores. Estão sentadas na berma da pouco segura estrada. Ao lado, um jovem em intensa azáfama, com vara a bater na copa de árvore. A ideia? Fazer cair folhas que as suas cabras devoram, sem pestanejar. Com a seca, os animais nada têm que comer. Há que improvisar. E não se olha à ementa…

Na aldeia seguinte cruzamo-nos com carros de bois a carregar pipas. Estranho. Não imagino a Birmânia produtora de vinho. E não é. Na verdade, até há fila. Os japoneses são amigos e construíram uma estação de captação de água. Faz lembrar uma bomba de gasolina rudimentar, mas o líquido é bem mais precioso, por estas paragens.

Por todo o caminho, vamos encontrando gente. Geralmente, abrigados na pouca sombra com que nos vamos cruzando. Voltamos a ver civilização. O Monte Popa aproxima-se…

 

O sagrado Monte Popa

É um dos principais locais de peregrinação da Birmânia, mas não é isso que nos move. Não sou adepto de “adorações”, mesmo que seja apreciador de todo o tipo de manifestações populares. Bom, longe de ser único, evidentemente. O comportamento humano, nas duas diversas formas (mais ou menos peculiares), é tema que a todos fascinará.

A ‘cidade’ é praticamente um cruzamento movimentado, com muito comércio, fruta, flores e restaurantes. Para o Monte Popa é preciso seguir mais um pouco. E não tardaremos a deparar-nos com o seu impacto na paisagem. É, de facto, singular. Imponente.   

Um grande e extinto vulcão plantado no horizonte. É essa a primeira ideia. O Popa é um enorme rochedo vulcânico que emerge do calor da paisagem e que se transformou num dos maiores centros de peregrinação e adoração do país.

Há 37 espíritos/deuses venerados. Verdadeiramente adorados e temidos. Depois de o apreciarmos em perspetiva, aproximamo-nos. Com este calor, não ajudam os 777 degraus até ao topo.

Vale que todo o percurso é coberto. E, na base, logo começa com o habitual comércio. Roupas, recordações, utensílios vários. A nossa demanda é testemunhada por alguns macacos, que entretêm na subida.

Primeiro, curiosos. Depois, mais confiantes, atacam o que puderem. Uma jovem protege a comida de um atrevido, mas logo vem outro, por trás, a reclamar vitória. São adoráveis. Ninguém se chateia verdadeiramente.

À medida que vamos subindo, a paisagem vai ganhando dimensão. O caminho é fértil em fiéis. Famílias inteiras surpreendem-nos. É dia de semana. Esta azáfama não nos faz ter noção da exigência física.

Lá em cima, sobram os locais onde nos convidam a fazer donativos. Com recibo. E placa para os mais desprendidos de bens do banco central de qualquer país. A coleta está bem organizada. O reconhecimento público dos bem-feitores já teve melhores dias. Não é que isso importe. Significa que muitos são os que têm sido generosos.   

Quando atingimos o topo, é magnânime a vista a 360º. Irrelevante não a poder apreciar de um só ponto. O desgaste da subida – calma, não é tarefa assim tão hercúlea – aconselha a recuperar energias.

Há pagodes por todo o lado. Como cogumelos selvagens. A aragem abafa o poder do sol. Não apaga a fome. Apreciado, com tempo, o cenário, não tardaremos a regressar, em demanda por alimento para o corpo, já que a alma tem estado mais do que saciada…

 

Rui Bar­bosa Batista relata no blo­gue Cor­rer Mundo a sua via­gem pela China e Birmânia. No site www.bornfreee.com  pode ace­der a outros rela­tos e ima­gens sobre a viagem.

 

 

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