Escravatura moderna

O termómetro está nos 40.º e o calor já está em queda. O máximo do dia terá atingido mais dois ou três graus, seguramente. Regressamos a Bagan. Estamos perto quando nos deparamos novamente com a tal obra, com mais de 100 formiguinhas (trabalhares birmaneses, entenda-se) em agitada labuta. Ao ritmo alucinante verificado de manhã.

Esta gente não para?? Impossível resistir. Paramos e avançamos. Misturo-me. Primeiro, até parecem estranhar a presença, mas agem como se nada fosse. Troco expressões de simpatia e, depois, opto por entrar na obra e subir ao andar superior. Registo o momento, em foto e vídeo. Ainda me é difícil adoçar a surpresa.

Nunca vi coisa assim: duas betoneiras (devidamente alimentadas) sempre a debitar cimento, dois cordões humanos a transportá-lo de mãos para mãos para o piso superior até chegar a dois especialistas em espalhá-lo no chão. Outros tantos, encarregam-se de o alisar. 

Mais do que preocupados, os dois alegados responsáveis da obra ficam, estranhamente, orgulhosos com o meu interesse. Fotografo e filmo e isso enche-os de satisfação.

“Estão aqui mais de 100 pessoas a trabalhar sob este calor… a um ritmo impressionante. Nunca vi coisa assim…”, digo, a um dos encarregados.

Confunde o meu lamento com elogio: “É gente pobre, que nada tem. Como é mão-de-obra muito barata, podemos ter aqui muita gente e assim concluir as casas em muito pouco tempo”, explica, como se me estivesse a dar a melhor notícia do Mundo. Ele pensa em economia de mercado, eu em escravatura.

Diz-me que um dia de sol a sol pode render-lhes o equivalente a quatro euros. O dia, não a hora. Em dois dias de sereno trabalho, com ar condicionado ou janelas abertas para frondosas árvores, ganho mais do que esta gente, sem folgas, empedernida pelo pó, a trabalhar sob sol sufocante.  E já nem falo de aspetos de (inexistente) de segurança.

Ainda assim, encontro sorrisos. Cansados, obviamente. Uma simpatia humilde. Também não entendem o que ali faço. Sinto-me esmagado. E não é pelo sol que aperta…

Testemunho o quão privilegiados somos, por termos nascido em Portugal. Independentemente de todos os outros fatores, o nosso país é um cantinho de sonho, no planeta.

É claro que não somos caso único no Mundo e esta gente também tem imbecis no poder (junta militar liderou a Birmânia até há bem pouco tempo, e ainda a controla), pelo que estamos em igualdade de circunstâncias a esse nível. E, como seres humanos, todos temos idênticas ambições, problemas e desafios na vida.

E quando a vida vai torta e jamais se endireita? Por cá, em solo lusitano, psicólogos e antidepressivos. Um interminável carpir de mágoas e um persistente adiamento de “ação” para mudar as coisas (obviamente, estou a generalizar, mas vocês entendem-me).  Por lá, este é ‘conceito’ desconhecido, uma necessidade certamente ainda incompreendida. E, pasme-se, mesmo com TUDO (e que não é pouco) o que têm de sofrer, ainda têm sorrisos para dar…

A nossa riqueza não se mede pelo que temos, mas pelo que podemos dar. E estes birmaneses são abastados no trato humano…

 Improvável beleza exótica

Dou sinal de paragem ao meu companheiro de charrua. A conversa está boa, porém, a este ritmo, não chegaremos tão cedo ao mercado de Bagan. O problema não é do ritmo do cavalo, mas do trânsito, verdadeiramente caótico. Mais avisado seguir a pé.

A estrada está em obras. Está explicado. Vamos comendo pó e calor até que, no meio do turvo cinzento, há uma longa saia, em tons verdes e laranjas que sobressai. Sim, é isso mesmo. É a minha “amiga” Miss Mundo. O mais belo rosto da Birmânia.

Quero registar o seu rosto. Obviamente, não fala inglês. Ainda assim, tento. É mais tímida do que eu já fui. Ainda sorri para mim… até eu pegar na máquina fotográfica. Má ideia. Ri – as amigas trocam comentários em bem-disposto birmanês – e foge. Insisto, porém já é complicado rever-lhe os dentes. Efémeros momentos de gato e rato. Até que desisto. O bom-senso aconselha a ficar por aqui.

Acabarei por me afastar, avisando-a das minhas intenções pacíficas. Quando sente que o ‘perigo’ passa, fixa-me e volta a sorrir. Com olhar malandro. O meu cérebro regista. A sua imagem ficou bem gravada. O que faz uma beleza exótica destas aqui?

Não, não é um conto romântico. Não sou dado a paixões súbitas. Ainda assim, esta ‘cena’ poderá, quiçá, servir de mote a um épico romance. Como aquele em que um bem-sucedido advogado nova-iorquino desaparece, sem deixar pistas. Até que um dia, uma das duas filhas descobre, nos seus pertences, uma carta de amor. Tem anos e é de uma birmanesa. Das montanhas, em Kalaw. O nosso próximo destino…

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Rui Bar­bosa Batista relata no blo­gue Cor­rer Mundo a sua via­gem pela China e Birmânia. No site www.bornfreee.com  pode ace­der a outros rela­tos e ima­gens sobre a viagem.

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