MANDALAY

A segunda maior cidade do país, depois de Yangon, com 1,250 milhões de habitantes. Na margem norte do Rio Irrawaddy, é o centro cultural da Birmânia e o grande pulmão económico do norte, também impulsionado pela forte imigração chinesa, que já constitui cerca de um terço da população. É, também, uma cidade multiétnica, incluindo elementos de tribos relacionadas com a Tailândia, Laos, Nepal e India.

A cidade é recente – criada apenas em 1857, como nova capital do reino Ava – e acabou por ser vaidoso exemplo do colonialismo inglês, até ser destruída com os bombardeamentos da II Guerra Mundial.

As magníficas estruturas que subsistem são reconstruções modernas supervisionadas pela junta militar e com recurso a trabalho forçado.

Esperam-nos grandes avenidas pejadas de bicicletas e motos. E muitos monges, pois mais de metade do país residem em Mandalay e seus arredores.

 

Impressionante Shwe In Bin Kyaung

Um dos maiores dilemas de uma mochila leve é o que lá colocar. Com o passar dos anos e a rotina de viagem, tudo mais fácil. A grande dúvida? A barba…

Sim, não uso gillette. Prefiro a máquina de cortar (na verdade, rapar) cabelo que me deixa a barba como se dois dias tivesse. É o tamanho mínimo decente para quem não gosta de se ver… “lavadinho” de rosto.

Vinte e cinco dias fora é muito tempo… mas acredito que atacar este “mal” em duas ocasiões pode ser suficiente. É, assim, que a ocasião se proporciona. A caminhada matinal rumo ao mais estimulante dos mosteiros (lá iremos) faz-nos atravessar um mercado atabalhoado até esbarramos num salão de cabeleireiro/barbeiro.

A minha proposta é justa: emprestam-me a máquina e eu próprio faço o trabalho. Pagando o mesmo. É esse o meu ‘modus faciendi’. Que, no entanto, e somente desta vez, fica na gaveta. A idade da senhora de origem chinesa faz-me duvidar do acerto da sua mão. Arrisco.

Preferia a sua filha. Bem mais bela e fluente em inglês. prepara um penteado artístico para um casamento. Uma verdadeira obra de arte. Bom, a verdade é que a “avozinha” não se safa mal de todo. No fim do seu trabalho, “apenas” tenho de perder uns 15 minutos nos acertos finais.

Com as mesmas mãos sábias, Daniel deixa lá barba e cabelo. Literalmente. Só lamento não ter lavado o cabelo, já que o meu amigo teve direito a massagem facial. Até ao interior das narinas…

É com esta frustração que sigo caminho. E, sob um sol que já ameaça os 40º, caminhamos mais do que o esperado. Acabamos por entrar em rua secundária até descobrir o impressionante Shwe In Bin Kyaung.

Do que se trata? Provavelmente o mais belo – esculpido em teca – e um dos mais tranquilos mosteiros para meditar. Com cativantes detalhes em balaustradas, paredes e cornijas. Ideia de mercadores chineses abastados, no fim do século XIX. E continua em excelente estado de conservação.

Não sabia o que esperar, pelo que a surpresa não podia ser melhor, pela sua elegância e ricos detalhes. Cirando sem testemunhas. Aprecio a serenidade e tranquilidade do lugar. Os monges estão na sua pacata rotina e sento-me no chão a contemplá-los. Imagino que gostava de experienciar a sua vida por uma semana. Ou duas…

Este é um mosteiro “vivo”, pois alberga mais de 30 monges. Respeito o seu espaço. Saboreio o local. Até que é hora de partir…

 

Mercado & Futebol

O caminho para o principal mercado de Mandalay não tem nada que enganar. A Ana está com bolhas nos pés, algo mal tratados, mas insiste em fazê-lo a pé. Demoraremos uns 30 minutos desde o Shwe In Bin Kyaung.

Há mais monges na rua. Novos e outros nem por isso. Vamo-nos diluído na confusão de Mandalay, com a expectativa de chegar a um mercado famoso por vender todas as grandes exportações do país.

Na verdade, o que encontramos é mais do mesmo: delicioso caos, garrido e poeirento, como todo o país. Não podia ser de outra forma. Há uma parte organizada em amplo edifício de dois andares, longe da “piada” do amontoado de vendedores sob o tórrido sol. É na trituradora confusão que me sinto bem. 

Há quem durma junto à fruta que vende. Com ar de quem espera para se atendida num qualquer serviço público, também há quem amamente em velha cadeira de rodas, não por ter qualquer deficiência. Um casal repousa em cima da banca ambulante, com uma criança equilibrada entre ambos. No meio de motos, bicicletas, carroças, há carnes expostas ao ambiente. Moscas e outros insetos agradecem o banquete diário.

Os sorrisos de tanaka – pó de madeira que protege e embeleza a pele, usado por mulheres e crianças, no mais típico sinal cultural birmanês – oferecem-nos fruta e todo o tipo de vegetais. A comida reina ao ar livre, as roupas e tecnologias no tal edifício.

Há um tasco com pinta que recolhe a nossa preferência para almoçar. O inglês não é língua comum, porém, com alguma paciência e linguagem gestual, conseguimos formular um pedido. E correu na perfeição, para todos.

Enquanto esperamos, chama a atenção uma novela birmanesa. Um diabo de quinta categoria e uma pecadora de qualidade inferior. Vê-se que, em vida, cometeu os pecados mais básicos. O A, B, C dos humanos. As imagens são surreais, de tão más e primárias. Um grupo de crianças de bairro pareceria mais credível na representação. No fim, quando esperamos ver a hilariante figura em violento churrasco diabólico, eis que acorda, com três preocupados cavalheiros em seu redor, empenhados em livra-la de todo o mal. Uma pena a comida ter chegado…

Arriscaremos um café (ou amostra, solúvel) no maior pardieiro da zona menos “católica” do mercado. Valeu. Just in case, apostamos num gelado para compor. Bingo! Dificilmente haveria melhor opção. Experimentamos as várias cores do arco-íris e todas elas agradam ao palato. 

Vamos caminhando e interagindo com os comunicativos locais. Sempre com um sorriso pronto a disparar, com a maior das inocências e simplicidade.

Daniel vê um joguinho de rua do futebol asiático (o tal com as bolas minúsculas, em sucessivos toques com qualquer parte do corpo, sem deixar cair o esférico) que o deixa desesperado por um jogo a sério. Os deuses estão com ele, pois minutos depois deparamo-nos com um torneio de futebol de sete.

Negocia a sua participação e logo convence um dos semi-finalistas da prova. Com a camisola do FC Porto, Daniel impõe respeito. Acabará por integrar uma equipa mista de admiradores de vários outros grandes da Europa.

O dia está a findar e a luz desmaia a velocidade estonteante. O jogo acaba prematuramente, por falta de condições logísticas: visibilidade O resultado? 2-0. Quem marcou? Há dúvidas?? Daniel reforça na Birmânia o prestígio do futebol português. A federação que ponha os olhinhos nestes verdadeiros embaixadores do país…

As muralhas do enorme complexo do palácio real estão iluminadas e o seu reflexo está estático nas águas do largo canal que o rodeia. As fotos são de belo efeito. E testamos os vários aparelhos de manutenção física, virados para uma das joias da cidade.

O dia seguinte vai ser duro e longo. Jantaremos em aconselhado e movimentado restaurante indiano. Miraculosamente – já vi restaurantes com bem melhor aspeto – não houve sequelas…

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Rui Bar­bosa Batista relata no blo­gue Cor­rer Mundo a sua via­gem pela China e Birmânia. No site www.bornfreee.com  pode ace­der a outros rela­tos e ima­gens sobre a viagem.

 

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