SHANGRI-LA, da apreensão ao encantamento

Confesso: quando percebo que “aquilo” já é Shangri-La, tremo. De terror. Julgo tratar-se de um engano. Pesadelo em forma de mal-entendido. Aqueles edifícios de fria monumentalidade, desprovidos de alma e sem pessoas nas ruas, faz-me temer o pior. O cinzento do céu apenas piora o negro cenário.

De facto, a entrada de Shangri-La é a antítese do que espero nesta aventura. A cidade cresceu desmesuradamente. E não o fez de forma pacífica ou harmoniosa com a imagem internacional que a eleva a um dos destinos mais sonhados por aventureiros de todo o planeta.

Apeado do autocarro, ainda combalido pela primeira imagem, logo apanhamos um táxi para o hotel, em plena cidade velha.

“Sim, tudo isto ardeu. Agora é esta rua e pouco mais”, diz-me, em titubeante inglês, a rececionista do cativante Bodhi Inn, o boutique hotel onde nos mimamos. Felizmente, em minutos percebo o exagero. É um facto que 90 por cento da zona antiga ficou reduzida a cinzas há um ano, mas ainda há recantos por explorar. E para sentir o “elan” de Shangri-La. Na verdade, cedo entendo que o espírito deste paraíso está longe de se resumir à cidade velha…

O museu da antiga rota do chá, a cavalo, vale a visita. A aventura que era levar esta iguaria até Lasa é aqui retratada ao detalhe. Lamenta-se a ausência de grandes referências em inglês, mas as fotos são sugestivas. E, recordo, temos a Jinyu Xie que veste, na perfeição, o papel de guia-tradutora. Pela forma desenvolta como domina português e mandarim e pela energética curiosidade que a veste.

Esta arquitetura nada tem a ver com a China tradicional. Isto é puro Tibete, que este gigante alienou – à revelia do direito internacional – com o pretexto de o libertar. Um dos legados de Mao Tsé-Tung.

Dói pensar na história. E em que como tudo isto poderia ser diferente. Menos adulterado. Abstraio-me destes pensamentos, pois a neve começa a cair. E o frio aperta. Entramos em estabelecimento tipicamente tibetano para apreciar inédita iguaria: chá de gordura de iaque, um gigante herbívoro (parecido com os bois) de pelagem longa encontrado na região do Himalaia, no Planalto do Tibete, até à Mongólia. Confesso que vacilo entre a repulsa e o prazer. Será a altitude (estamos a mais de 3.300 metros) a fazer-me associar o sabor a… amendoim.

A música chama a nossa atenção e chegamos a uma central praça onde dezenas cumprem o ritual de dança habitual nestas paragens. A luz já vai desmaiando quando nos juntamos à animada roda, que gira durante surpreendente par de horas.

A lua finta as agruras da intempérie e faz aparição luminosa. Quando subo ao pagoda, no topo de íngreme colina, as minhas ex-colegas de dança persistem na sua demanda. O ritmo tomou-lhes conta do corpo e, como que maquinalmente, vão-se libertando em coreografias perfeitamente conhecidas por todos.

Também aqui, há figuras singulares. Não sei se gentis sem-abrigo ou apenas indivíduos tomados por uma realidade paralela, na qual vivem. Em etéreo sorriso.

Há uma atmosfera especial. E não é apenas pelas velas que zelam por este lugar sagrado. Shangri-La rapidamente dá a volta às minhas preocupadas primeiras impressões.

Não sou místico. Muito menos religioso. Ainda assim, progressivamente, sou tomado por “algo” que me faz levitar. Um sentimento de singular e oposta grandeza e humidade que torna todo o pensamento, cada sensação uma experiência diferente. Não tenho dúvidas que Shangri-La já começou a tatuar-me a alma…

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Rui Bar­bosa Batista relata no blo­gue Cor­rer Mundo a sua via­gem pela China e Birmânia. No site www.bornfreee.com  pode ace­der a outros rela­tos e ima­gens sobre a viagem.

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