VLADIMIR‏

A mochila volta às costas. Abandono Moscovo, ciente de que regressarei. Vladimir é o próximo destino. Uma das mais populares cidades do cativante “anel dourado, no qual se destacam oito cidades a nordeste da capital. Preserva alguns dos mais vistosos monumentos, em pedra branca de medieval arquitetura.

A melhor alternativa de transporte é o comboio. Indicam-me a estação errada, sou obrigado a gincana para me dirigir à que efetivamente tem ligação a Vladimir. E Moscovo não é propriamente uma cidade pequena, com tudo à “mão”.

No sítio certo, nenhuma das donzelas da caixa fala inglês. E todas revelam desinteresse em vender o necessário bilhete. Até que uma alma fura o “bloqueio” e me despacha. Bill Sorridente mantém os dentinhos de fora. Sabe que, quando juntos, estes stresses terminam sempre bem. E quando não é assim, normalmente derivam numa excelente história. O que até é melhor.

Fazemos o início do percurso do mítico Transiberiano. Não os mais de9.000 quilómetros. Apenas a introdução. Pouco mais de 200. Este comboio não tem lugares “sentados”. É tudo beliches. E é assim que temos de seguir.

A “fast-food” não é boa ideia em lado algum. A versão russa, ainda pior. O adiantado da hora justificava algo rápido… ficou a lição.

O melhor mesmo é atacar Vladimir, donzela de 1000 anos. A sua catedral da Assunção e o Portão de Ouro são Património Mundial da UNESCO. A primeira é uma das mais importantes no mundo ortodoxo do país. O segundo era a entrada privilegiada para a cidade amuralhada, com quarto outros portões. Não há exemplo igual em fortificações antigas. Ambos os monumentos remontam ao século XII, quando foi capital da Rússia. Depois foi vítima da invasão mongol. Recuperou, mas perdeu influência política e cultural.

Na verdade, o que mais gosto em Vladimir são as pequenas casas em madeira, de aspeto rural e com as suas janelas rendilhadas tão peculiares. Verdadeiras obras de arte. Percorro ruas menos concorridas e sobram exemplares que embalam a minha imaginação, transportando-a para outros tempos. As igrejas em diversificado estilo ajudam a compor um postal que serena, num meio claramente menos urbano do que Moscovo e S. Petersburgo.

A prometida vingança de almoço indigesto é feita num “bunker”, igualmente em madeira. O restaurante até fica no rés-do-chão, mas não tem janelas. Melhor, até as tem, mas as portadas estão fechadas, permanentemente. A única coisa que o cliente pode ver é uma paisagem distinta. Imóvel. Pintada na parede.

Estou eu e Bill Sorridente. E dois empregados que não sabem uma palavra de inglês. Nem há menu além do russo. Arriscamos. Mímica. Sorrisos e seja o que o pretenso Criador quiser.

Temos a companhia de uma família. Uns 20 elementos. Há um aniversário. E três gerações em mesa farta (no fim, não houve tupperware’s suficientes para aproveitar a comida que sobrou). E roda animada na dança. A avó, matriarca e a quem todos devotam claro respeito, é a verdadeira Dancing Queen. Enérgica. Entusiasta. No centro das atenções.

A neta, a roçar a maioridade, mais entretida a sorrir e analisar os dois estranhos. E a tirar selfies nas quais nos inclui. Faço uma careta simpática e desfaz-se em sorrisos… Denuncia-se.

Um brinde e preparamo-nos para o Dia D: um dos locais mais desejados deste périplo russo está a meia hora de autocarro. Na  manhã seguinte.

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Rui Bar­bosa Batista relata no blo­gue Cor­rer Mundo a sua via­gem pela Rússia
. No site www.bornfreee.com  pode ace­der a outros rela­tos e ima­gens sobre a viagem.

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