“Infiltrado” no KGB

Rebobinando o curto filme, parece-me que nenhum daqueles rostos era “normal”. Não por alguma deficiência física ou anomalia estética. Apenas pelos olhares com a invulgar capacidade de aliar uma aparência de ausência a uma perscrutação total do meu corpo e alma em ínfimos segundos.

A história começa com indicações que não são precisas. Cirando por portas erradas – incluindo um hotel de luxo – até que um polícia, surpreso, me confirma: “Sim, ali é a sede do KGB”. E reparo que me vai seguindo, com o olhar.

Percebo, pouco depois, que, afinal, nem é segredo. Há mapas turísticos em passagem subterrânea adjacente que mostram a precisa localização dos serviços secretos da Rússia. Imagino é que não seja comum perguntar pelos mesmos.

Antes que seja tarde, tiro foto ao austero edifício. E avanço, decidido. Tenho 50 metros para pensar num pretexto para entrar. O tempo não basta para imaginar como será o que encontrarei.

Ao aproximar-me da discreta porta, seis homens, trajando entre os anos 70 e 80, entram no edifício. Chegou cinco segundos depois. Abro a porta e logo sou “vítima” do seu “tal” olhar.

“É aqui o museu do KGB”?, questiono. Nenhum olhar é simpático. Muito menos amigável. Não sei se será pelo meu ar de turista: calçado de trekking, calções pelo joelho, t-shirt veraneante, bronzeado “qb”, barba por desfazer e sorriso de curioso perdido.

Respondem-me duro. E em russo. Finjo que não entendo. Estou é preocupado em ganhar uns segundos, repetindo, por isso, a inocente pergunta. “Museu. KGB. Museu. É aqui”? soletrando as palavras em cadência suave, enquanto lhes devolvo o mesmo “exame”.

O espaço de entrada não é muito maior do que o pequeno hall do meu apartamento. Não caberão mais de 10-15 pessoas. Nos segundos em que tudo decorre, percebo que, para entrar verdadeiramente no âmago do edifício, devem inserir um cartão numa máquina de controlo. E que, muito possivelmente, validarão a sua identidade com a resposta assertiva a uma pergunta. Pelo menos, ouvi uma voz feminina e a réplica de um dos elementos. Não deu para ver mais…

Já cá fora, comento a situação com Bill Sorridente, Diana e Isaura. Quando recomeço a caminhada, um dos elementos já está igualmente na rua. E o seu olhar para mim soa ainda mais estranho. Uns200 metros depois, já na passagem subterrânea, o mesmo elemento. Mira-me da mesma forma. Não sei como se antecipou. Na verdade, nem interessa.

Um dia, quando for velhinho, e exagerar nas histórias mirabolantes pelo Mundo, na tentativa de impressionar os netinhos com fábulas ao deitar, dir-lhes-ei, em tom heroico: “Aqui o vosso avô esteve na sede do KGB, foi examinado de cima a baixo por seis agentes e saiu sem que ninguém ousasse encostar-lhe um dedinho”.

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Rui Bar­bosa Batista relata no blo­gue Cor­rer Mundo a sua via­gem pela Rússia
. No site www.bornfreee.com  pode ace­der a outros rela­tos e ima­gens sobre a viagem.

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