Tortuoso regresso à Arménia

Passamos a fronteira. Com inesperada facilidade. O único motivo de receio era mesmo o de a encontrar fechada. Irrelevante. Estamos atrasados bastantes horas e a luz solar já não abunda. A manter o tipo de estrada, estaremos em sarilhos é com a estadia. Pela hora que indiquei, já lá deveríamos estar…

O regresso à Arménia continua surpreendentemente belo. As montanhas são imponentes. Tal como os rasgos no seu ventre. É assim que se constrói uma via. Será a tentativa de dar futuro à região. De resgatar economicamente o norte de Nagorno-Karabakh e estimular esta zona arménia.

O céu cinzento é o melhor contraste às colinas verdes. Um tapete que regala os olhos. As tonalidades da terra esventrada são a única cambiante na paisagem.

Subimos. Subimos e subimos. Sempre a trepar. Aos esses. Juro que chegarei ao céu. Quando estou perto, o cenário inverte-se. Descemos. Não o suficiente para nos depararmos com o inferno.

Adoro esta paisagem desértica. Esta ausência humana. Não há um carro. Uma pessoa perdida. Uma aldeia. É uma vastidão de nada. Apetece correr. Gritar. Saltar. Testo os meus pulmões. Não tenho eco, mas não interessa. Este ar enche-me o peito. Tanto quando a alma.

Há um lada e três homens. Uma pequena “casota” no meio de lugar nenhum. Admirados por nos ver. Sorriem e cumprimentam. E seguem-nos com o olhar. É recíproco.

Há troços em lama. Sem tração, estaríamos em sarilhos. E há uma montanha de cascalho. Dividimo-nos na teoria. Há quem jure que é natural. E os que asseguram que tem dedo do Homem. Aqui?? Mas para quê??

Encontramos o primeiro autocarro. Vazio. Em 20 minutos veríamos mais três. Com os mesmos lugares desertos. Em muitos quilómetros, somente uma fábrica. Onde nem Judas se aventuraria…

Largas dezenas de ovelhas em relaxada procissão ocupam toda a via. Será sinal de que não tardaremos a encontrar civilização. A linha de comboio diz-nos o mesmo. E assim é. Estamos a chegar ao Lago Sevan. E encontramos Vardenis.

O lusco-fusco tolhe-nos as opções. O bom-senso (e o pavimento) aconselha-nos a ir pela parte inferior do lago. Seguiremos, decididos, pelo lado oposto. Nada que nos pudéssemos arrepender mais.

Uma dúzia de quilómetros depois principia o nosso pesadelo. Saudades da terra batida de Nagorno-Karabakh. O alcatrão apenas existe em vestígios. São CRATERAS sucessivas que nos limitam a velocidade. A menos de 20 km/hora. A este ritmo, não chegaremos a lado algum. São infindáveis esses que deixam os meus companheiros de viagem perto do desespero. Se conduzir nestas condições é terrível, quem vai atrás sofre bem mais.

A noite já impera e as crateras persistem. São rainhas deste Mundo. Imparáveis. Ao primeiro pensamento, não recordo de, em toda a vida, conduzir em estrada assim. Um tortuoso pesadelo.

Quando o lago fica para trás, já não estamos muito longe de Dilijan. Agora, o desafio será encontrar o… Casanova.

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Rui Bar­bosa Batista relata no blo­gue Cor­rer Mundo a sua via­gem pela
Geórgia, Arménia e Nagorno Karabakh. No site www.bornfreee.com  pode ace­der a outros rela­tos e ima­gens sobre a viagem.

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