Nagorno-Karabakh

O Google maps diz que o trajeto ideal para Dilijan, já na Arménia, é de apenas 270 quilómetros. O GPS tem versão diferente. Dá uma distância bem maior, aconselhando a voltar à capital e regressarmos pela mesma estrada que tínhamos descido na Arménia. Fora de questão, evidentemente. Não só porque não gosto de repetir caminhos, como “vivo” essencialmente para a exploração. Do risco e excitação de abraçar o desconhecido. Nada melhor, em viagem.

Dirigimo-nos a norte a uma cidadezinha que praticamente só existe à volta de um cruzamento. Perguntamos a direção para fronteira. Serão uns 100 quilómetros. Ninguém fala inglês. Entre o mapa muito genérico que temos na região e o GPS que nada reconhece, excetuando o local onde estamos, havemos de nos safar.

Hesitamos entre duas estradas. Optamos e avançamos. Quando vemos o estado caótico em que a mesma está, duvidamos da escolha. Perguntamos. Uma e outra vez. Resultado imutável: ninguém compreende Shakespeare.

Quando entramos em beco, o melhor é mesmo regressar. Encontramos um grupo de anciãos que nos ajuda. Sem uma palavra de inglês. Em guardanapo, alguém rabisca as terriolas que teremos de passar. E é assim que um par de quilómetros depois enfrentamos, novamente, a primeira aldeia.

O primeiro homem, manda-nos em frente. No fim da mesma aldeia, asseguram-nos que é para trás. Perceberemos, mais tarde, que essa é a primeira referência nas indicações. Um lugar aparentemente muito pequeno para estar nas cinco localidades indicadas, mas suficiente “grande” para nos perdermos.

Avançamos por estrada que alterna entre a terra batida, o alcatrão arrancado e algumas crateras. Sucessivas curvas de emoção, no nosso jipinho de ar soviético.

Entraremos numa das fases mais belas da viagem. Escassíssima presença humana. As poucas casas estão bastante degradadas. A meus olhos, de forma quase poética.

Vamos encontrando tanques de guerra abandonados… e, a seu lado, fotos das vítimas. De quem estava “dentro”.

Quem entra em Nagorno por esta inimaginável estrada, sofre um impacto bem maior sobre o que esta gente sofreu. Neste caso, será a última imagem que levamos do país.

Chegaremos a um lago enorme. Potencial fantástico para uns tranquilos dias de relaxe. Em todo o trajeto, encontramos apenas uma unidade “hoteleira”. E duvido que tenha clientes. Talvez alguém encalhado. Surpreendido, como nós, das dificuldades em avançar. Galgar terreno.

Ainda não chegamos à fronteira, um terço do caminho para hoje, e já esgotamos o tempo planeado para a jornada completa. Tememos encontrar a fronteira fechada. Encalhados no meio de nada e a arriscar falharmos o avião…

Acompanhamos um rio furioso a tempo inteiro. Quilómetros e quilómetros de águas bravas. Os meus amigos da canoagem deviam estar aqui, para curtir a valer.

O caminho passa por desfiladeiros. Entala entre rochedos e a fronteira, inesperada, chega por fim. Com pena. Nossa. Somente uma pequena cancela. Levantada e presa por uma corda. Temos de apitar e chamar o guarda. Está completamente desinteressado em nós, mas queremos que saiba que vamos sair. De onde? Pensará ele. Na verdade, não saímos de Nagorno-Karabakh, nem entramos na Arménia. Para nós, é tudo o mesmo. Para eles, depende do “lado”.

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Rui Bar­bosa Batista relata no blo­gue Cor­rer Mundo a sua via­gem pela
Geórgia, Arménia e Nagorno Karabakh. No site www.bornfreee.com  pode ace­der a outros rela­tos e ima­gens sobre a viagem.

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