GORIS

Goris. Esta é a altura de decidirmos. Daqui para a frente, não sobeja muita mais Arménia. É aqui que os viajantes descem para o Irão ou arriscam Nagorno Karabakh, que há 20 anos ficou tristemente célebre pela guerra. E atos de genocídio, um triste fado sempre em voga.

Mais do que um lugar de passagem para o próximo poiso, Goris é, em si mesmo, um destino. Vale a pena explora-lo. Não é lugar onde passar uma semana, mas a região onde se insere tem potencial para alguns dias. O povoado de uns 20.000 habitantes tem fama de ter sido a primeira cidade planeada da Arménia. As ruas exprimem-se em retas e paralelas. Temos civilização a régua e esquadro.

Está aconchegada entre montanhas. E bem espraiada. Felizmente, prédios não chegaram aqui. Nem parece que o venham a fazer no futuro. Gosto da sua arquitetura centenária. Há casas em pedra. E gente da mesma idade.

A praça central é ampla. Tem edifícios imponentes e carros antigos. Parece meio abandonada. Poderia estar melhor cuidada nas zonas verdes. É esse aparente desmazelo que lhe dá encanto. Que a situa claramente no espírito da Arménia.

O jantar é em bar com cativante esplanada. Tem vista para as montanhas. Um lago. E até uma ponte. Enquanto esperamos pelo repasto, divertimo-nos com fotos que verdadeiramente nos envergonham. Das que não ousaremos mostrar a alguém. E mais não digo…

Antes das especialidades regionais nos hipnotizarem, um cesto atraca na nossa mesa. Com cinco gelados. “É oferta dos senhores da mesa atrás da vossa”, diz a empregada, em inglês titubeante. A simpatia não é exclusivo da Geórgia. Os arménios também sabem receber. E de que forma. No dia seguinte, quando o gps avaria, vamos a oficina. E recusam-se, estoicamente, a receber o nosso dinheiro. Desejam-nos boa viagem e as contas ficam saldadas. Há atitudes e gestos de bem receber que chegam a ser comoventes…

O vinho também chega antes da comida. Mais experiências. O palato sente-se em permanente orgia. Como vai estranhar no regresso a casa…

A música ambiente é internacional. Está-se bem. Até porque a temperatura convida a estar na rua.

 As donzelas do grupo são as únicas neste espaço, que parece reservado a homens. Mais e menos novos. Os que bebem refrescos, os que apostam no álcool e os que fumam substâncias que deixam um certo aroma. Não estranha que as nossas meninas sejam mais do que “vistoriadas” pelo seu olhar: aos seus múltiplos encantos naturais, à leveza dos seus gestos e atitudes, junta-se o facto de terem a exclusividade feminina no local.

Abandonaremos o bar com a sua graciosidade sob o aplauso do olhar masculino. Ovação, diria. E eles sabem-no. Continua-se bem. Está é boa gente. Pacífica.

A noite termina cedo. A cidade não e suficientemente grande para aventuras, pensava eu. No regresso a “casa”, há um militar que gosta do elogio furtivo ao seu Lada. Não fala inglês, o que não o impede de nos convidar a entrar. Sílvia, por quem se encanta, a copiloto. Eu no banco de trás. Durante minutos, somos aceleras na noite de Goris. Ao som de diversas bandas sonoras que nos vais mostrando. Tudo para impressionar a bela portuguesa.

Quando o seu entusiasmo ameaça o descontrolo, convencemo-lo a deixar-nos no hotel. José Luís e Isabel esperam-nos à entrada. Em pose de preocupação. Aliviados quando nos vêm inteiros e divertidos. Sãos e salvos. Uma experiência sui generis

 Os quartos onde nos instalamos são amplos e modernos. Acordarei na manhã com música nas alturas. Saio ao corredor para reprimenda aos prevaricadores. Também tenho direito a despertar com humor menos soalheiro. No corredor o som quase desaparece. Regresso ao quarto. O José Luís está no chuveiro… um modelo xpto com rádio incorporado. Decidiu brindar toda a gente com música de gosto duvidoso, exprimida em decibéis bem acima do expectável. Ai ai…

 O pequeno-almoço abastece-nos para bom par de horas. As senhoras insistem em mostrar-me, novamente, a sua adega. E o jardim-esplanada onde podemos usufruir do sol. Agradeço-lhes. Digo que gosto muito. Não falam inglês, mas conseguem exprimir “booking.com”. Sossego-as. E cumprirei com a minha palavra, deixando boa recomendação.

Estamos de saída de Goris. E nem imaginávamos o que nos espera…

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Rui Bar­bosa Batista relata no blo­gue Cor­rer Mundo a sua via­gem pela
Geórgia, Arménia e Nagorno Karabakh. No site www.bornfreee.com  pode ace­der a outros rela­tos e ima­gens sobre a viagem.

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