Aeroporto Fantasma

Ceder espaço ao imprevisto tem-me proporcionado algumas das melhores experiências de vida. E na vida. Seria maçudo elenca-las agora. Esta nota de rodapé apenas relembra esta atitude em viagem – e no dia-a-dia -, esta aversão ao “tudo organizadinho e planificado ao milímetro”. Não é para mim. Nunca foi. Jamais será.

Queremos ir a um mosteiro… ao qual podemos aceder através do maior teleférico do Mundo (palavras deles, não minhas). Cinco quilómetros a sobrevoar montanhas. Bem melhor do que o ziguezagueante caminho.

Comprar alguns mantimentos para o longo dia e metemo-nos a caminho. O GPS é tao bom que não reconhece o destino, como acontece em muitos dos lugares por onde andamos. Apenas temos a nossa localização… e assim nos vamos guiando. É assim que a saída de Goris tem uma “opção” rural. O vento leva-nos a explorar novos caminhos ao invés da estrada já conhecida.

A última rua da cidade é cenário de guerra. Tudo bem com as amigáveis casinhas, mas a subida íngreme está repleta de crateras. Um bom teste para o jipezinho que não se tem portado mal de todo. 

No meio do nada, já só entre verdes e floridas colinas, uma idosa. Paramos. Não resisto a cumprimenta-la. E regista-la em fotografia. Fico “in love”…

Vagabundeamos rumo ao mosteiro quando surge estranha indicação para o… aeroporto. Bom, estranha será demasiado. Digamos apenas invulgar. Surpreendente.

OB-VIA-MENTE pisca à esquerda e vamos explorar. Até porque a estrutura é percetível à distância do olhar.

Um monte de ruínas. Portão enferrujado e a cadeado. Tento transpô-lo, até que um militar espreita à janela. E desaparece. Antes que me barre a entrada, finjo não perceber que é propriedade do exército e avanço. Uma ou outra foto, não vá ser impedido de o fazer quando a companhia chegar.

Em um minuto já está junto a nós. Entretanto, todo o grupo já está no complexo. O soldado terá quarentas e muitos. E não fala inglês. Está desconfortável com a nossa presença. Confuso quanto à forma como correr connosco, explicando a natureza da infraestrutura.

Vamos comunicando por gestos. Tento que perceba que, mais do que lamentar a degradação do complexo, estou embeiçado pela sua beleza. Tem algo de poesia, este abandono.

Quando pensamos que não há alternativa e nos dirigimos à entrada, o nosso amigo solta um amigável “coffee”? Nem hesitamos! Oportunidade única de investigar o velho aeroporto por dentro.

Parece um filme futurista, pós apocalíptico. Fosse eu realizador e este cenário seria o protagonista. Neste caso, todo o filme rodaria em torno desta infraestrutura. Merece o esforço.

Percebemos que vive aqui. Sozinho. Numa pequena cama estilhaçada. Com uma tv minúscula e com imagem de má qualidade. Um poster de uma asiática em decente bikini é a sua única companhia. O café é feito numa resistência antiga. Tem de trocar os fios numa parede para a ligar.

Percebemos que tem dois filhos. E que a sua solitária missão ali tem anos. É complexo militar desativado. Funcionou essencialmente na guerra de Nagorno Karabakh, que terminou há… 20 anos. Está perto da fronteira com esse semi-país que deixou de integrar o Azerbaijão, mas que também não quer ser Arménia. E o Mundo ainda não se entendeu quanto ao seu reconhecimento internacional.

Tem um ar verdadeiramente amigável. E aprecia tanto a nossa companhia como nós nos deliciamos com a sua e esta experiência. Mais genuína, impossível. Isto não vem em qualquer roteiro de viagem.

O café transpira borra. Seria um sacrifício toma-lo, não fosse este estado de enfeitiçamento em que me sinto. São estas inesperadas e improváveis experiências que alimentam a minha paixão pelas viagens.

Faço uma vistoria ao lugar. Vigiado por um pequeno e ruidoso canino, que se esconde atabalhoadamente mal me dirijo a ele. Não tem pinta de herói. Mas é fofo. Há sala de embarque. Controlo de check in. Placas informativas em língua que não entendo.

Posará connosco para a eternidade. As despedidas são cordiais. E o seu braço acena no ar até que desaparecemos no horizonte…

 __
Rui Bar­bosa Batista relata no blo­gue Cor­rer Mundo a sua via­gem pela
Geórgia, Arménia e Nagorno Karabakh. No site www.bornfreee.com  pode ace­der a outros rela­tos e ima­gens sobre a viagem.

Esta entrada foi publicada em Sem categoria com os tópicos . Guarde o href="http://blogues.publico.pt/corrermundo/2014/06/07/3059/" title="Endereço para Aeroporto Fantasma" rel="bookmark">endereço permamente.

Deixar um comentário

O seu email nunca será publicado ou partilhado.Os campos obrigatórios estão assinalados *

Podes usar estas tags e atributos de HTML:
<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>