Comboio noturno para Tbilisi

É uma simpática e muito bem cuidada avozinha de 42 anos (aos 43 não sou pai… nem para lá caminho) que me vende os bilhetes. Não fala inglês, mas entendemo-nos para o essencial. E até dá para saber que tem três filhos e dois netos.

Bom, deixamos as mochilas e malas nos arrumos de um pequeno bar na estação e vamos para o centro de Zugdidi em busca de alimento. A cidade não tem muito que ver, exceto a grande e arvorizada praça principal. As opções para prematuro jantar não abundam. Nada como um saudoso picante kepab para desenjoar da excelente comida com que temos punido a nossa saudinha. Amainamos a voracidade que ameaça fazer-se sentir severamente no peso.

Já na velha locomotiva, as donzelas ficam com o exclusivo de outrora luxuosa cabine de quatro lugares. Ao lado, eu e o Zé Luís partilhamo-la com um barrigudo russo com possante ressonar que se eternizaria pela noite. Um outro georgiano, de corpo ainda mais farto, completa o quarteto. A idade avançada e os quilos em demasia cedo o fazem perceber que nem com ajuda divina chegará ao beliche de cima. Vê-nos já em horizontal descanso, balbucia qualquer coisa em georgiano e desiste. Sem alternativa, vai em pé. A tagarelar junto à janela. Toda a santa noite. O melhor complemento ao irritante ressonar a parco metro dos meus sensíveis ouvidos.

O revisor não fala inglês. Nada de novo. Apenas é de esperar alguma simpatia, gentileza com as donzelas. A Isabel apanha um susto de “morte”. À falta de água na nossa, tenta ir lavar os dentes a uma outra carruagem. o zeloso funcionário de camisa engelhada fora das calças reage de forma bruta. Vocifera palavras incompreensíveis enquanto a trava no pescoço. Quando procuramos saber a que se deve o grito que ouvimos, vemo-la estupefacta em nossa direção, com o seu novo amiguinho atrás a levá-la ao wc da nossa carruagem, onde liga a água.

A locomotiva arrasta-se noite dentro. Mais do que avançar decidida, parece espreguiçar-se à espera que Tbilisi se chegue a si. Pára uma e outra vez na longa madrugada. Quem sai, fá-lo geralmente em silêncio. Quem entra, revela pouco respeito por quem dorme. Será assim em todo o lado. Diferenças culturais.

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Rui Bar­bosa Batista relata no blo­gue Cor­rer Mundo a sua via­gem pela
Geórgia, Arménia e Nagorno Karabakh. No site www.bornfreee.com  pode ace­der a outros rela­tos e ima­gens sobre a viagem.

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