USHGULI

Várias horas após estimulante, embora desconfortável viagem, eis que o nosso objetivo se anuncia na penumbra da chuva. Mais um par de curvas e o remoto povoado ganha novos contornos. Que em breve terão textura e todos os outros sentidos igualmente exacerbados.

Para o visitante, Ushguli tem algo de místico. De feito assinalável. Quem aqui chega, sente que conquista algo. Afinal, não há na ‘Europa’ lugar habitado (permanentemente) mais alto. Nada como juntar um marco destes a um lugar simplesmente idílico. Uma aldeia que se espraia na encosta de montanha com vários picos acima dos 4.000 metros. Mais do dobro da Serra da Estrela.

As condições de vida são um permanente desafio à condição humana. Os dias de sol não abundam. Calor é termo que mal conhecerão. Está a desafiadores 2.400 metros de altitude…
A personalidade desta gente é peculiar. Isto é outro reino. Com menor apetência para a afabilidade. E, infelizmente, os animais também o sentem. Tirar uma vaca do caminho com uma martelada no fundo as ‘costas’ não é algo que aprecie particularmente. Não gostei. Os cães não andam propriamente com o rabo a abanar, nem se estimulam ou ralham a estranhos. Aceitam uma festa. Primeiro, com dúvida e estranheza. Depois, já são os nossos melhores amigos. Aqui não haverá tanta predisposição para certos afetos.

A exploração segue por quelhos mal-amanhados. Casas incompletas, pobres, mas cheias de alma. As torres de vigia e defesa que vagueiam pela erosão são, agora, lugar de dormida para os animais. E zona para guardar mantimentos no longo e exigente inverno. Que demasiadas vezes privam estes resistentes do Mundo exterior.

O facto de ser um lugar tão remoto e de difícil acesso levou a que, em períodos de guerra, os maiores tesouros da Geórgia tenham sido transferidos e guardados nesta aldeia. Até por isso, estamos em lugar muito especial.
Almoçamos fiéis ao pecaminoso estilo que tem sido usual: experimentar tudo. E em doses que ultrapassam o bom senso. O vinho avinagrado – intragável, volta para trás – devolve-nos à realidade. Apreciamos a cadeira meticulosamente trabalhada na madeira. “Demorou-me seis meses a fazer”, atira o artista. Verdadeiro. Isto é um trono.

O regresso será igualmente exigente e sem luz solar apenas complicará. Não queremos partir, mas… Até um dia, Ushguli.

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Rui Bar­bosa Batista relata no blo­gue Cor­rer Mundo a sua via­gem pela
Geórgia, Arménia e Nagorno Karabakh. No site www.bornfreee.com  pode ace­der a outros rela­tos e ima­gens sobre a viagem.

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