O quase-abraço entre Patrimónios Mundiais

Em linha reta, Berat e Gjirokastra rivalizam a uns 100 quilómetros. O encorpado relevo montanhoso não as deixa abraçar, obrigando a trabalho redobrado dos viajantes, traduzido em 200. Em todo o tipo de estradas. Literalmente.

A derradeira exploração de Berat não me deixa partir a hora própria. Quando, finalmente, estou pronto, percebo que tenho de esperar duas horas e meia. Impossível. Fuga para a frente. Mesmo andando um pouco para trás, apanho transporte imediato para Fier onde é suposto haver mais opções para completar o trajeto.

O piso é do pior que tenho encontrado por este mundo. Mais valia terra batida. Não obrigava velocidade quantas vezes  abaixo dos 20 km/hora. Estrada impraticável. Nas retas, uma dança estranha de carros em paciente fuga às crateras naquilo a que chamam via.

Finalmente em Fier, logo encontro transporte. Que apenas parte em uma hora. Dá tempo para almoçar.

Estômago serenado. A carrinha de 12 lugares não enche e o dono do transporte transfere-nos para outro veículo, mais pequeno. Apenas oito assentos disponíveis.

Avançamos a bom ritmo até que em 20 minutos somos parados pela polícia. Não tem autorização para transportar passageiros. É multado. O seu semblante não voltará a ser o mesmo. Já deve estar habituado.

Esqueço-o e concentro-me nas paisagens cada vez mais sumptuosos. Surpreendentemente, sem poluição. Parece outro país, mas estou na mesma Albânia. Aqui a natureza é respeitada de outra forma. E quanta diferença…

A autoestrada continua, porém saímos para as montanhas. Deixamos o rumo da costa e exploramos o interior. Voltam cursos de água em azuis-turquesa. Cristalinos. Puros. E os verdes que proliferam nas encostas, suaves ou abruptas.

No meio de poeirento nada, o trânsito bloqueia. Muita gente na estrada. Ultrapassagem mal calculada e autocarro e carrinha de transportes trocam tinta. A discussão quanto ao culpado persiste. E promete durar, embora já lá esteja a polícia a tentar serenar os ânimos. Os passageiros com ar de profunda impaciência. Devem estar ali há séculos. Alguns procuram seguir viagem em transporte alternativo. A resolução do conflito não parece para breve.

Seguimos em suaves esses que vão trazendo novas e cada vez mais cativantes panoramas.

Seguimos destemidos, a bom ritmo, até que os meus revoltos intestinos me forçam a parar o grupo. A uns meros 30 quilómetros da meta. “Não dá mesmo para aguentar”, asseguro. Expressões imutáveis.

Gjirokastra apresenta-se. Ficamos no cruzamento da nacional com a imensa reta central, a subir, que anuncia o coração da cidade. No seu fim, começa a zona histórica.

Está um dia soalheiro. Dos que nos fazem invariavelmente felizes, leves. Caminho. Despreocupadamente, começo a habitual procura de estadia. Em menos de 20 minutos já as minhas vistas perscrutam a cidade que viu nascer o ditador Ever Hoxha.

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Rui Bar­bosa Batista relata no blo­gue Cor­rer Mundo a sua via­gem por Itá­lia, Mace­dó­nia, Kosovo, Albâ­nia e Gré­cia. No site www.bornfreee.com  pode ace­der a outros rela­tos e ima­gens sobre a viagem.

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