LETÍCIA

Impossível não voltar ao castelo de Berat. Impraticável resistir a voltar a um lugar pleno de história e magia. Inaceitável não querer saber mais, misturar-me com a alma daquela gente e burgo tão peculiares.

Saborear convenientemente o cenário exige primeiro saciar os apetites matinais, que tão maltratados andam. As madrugadoras viagens têm-me privado de pequenos-almoços tranquilos. Não seria o caso de hoje. Tranquilamente, sacio todos os meus devaneios enquanto sinto o sol acarinhar-me serenamente o rosto.

Berat desperta lentamente e subo enquanto o astro-rei não torna essa aventura um quase martírio.

Deambulo pelos mesmos locais da véspera em busca de outras perspetivas em distinta luz. Vagueio pelo casco velho até que uma jovem me aborda.

“De onde vêm? Estão a gostar do castelo?”, interroga Letícia. A estudante de medicina na capital, de 20 anos, está em casa a preparar-se para os exames. Transpira vontade de conversa e eu também.

Está sentada na soleira da porta e eu apodero-me de um degrau no caminho estreito que passa na sua entrada. Ela contempla o tempo a passar e eu venho com ele.

Começamos a falar em inglês, mas depois pergunta-me se falo outras línguas. Digo-lhe que estou apto a conversar em várias e ela opta pela de Cervantes. “Desde miúda que vejo na televisão telenovelas sul-americanas. O espanhol é uma língua que gosto muito. Também entendo um pouco de português, pelas novelas que vejo do Brasil”, esclarece-me.

Letícia está com o seu pai. Um ar alegremente gasto, não fala qualquer língua além do albanês. Tal como a sua mãe, a quem pede, com apreciável doçura, que prepare um café para mim e outro para Anna.

A jovem vai buscar uma toalha e insiste que me sente nela em vez do chão. O pai faz o mesmo com a minha amiga.

Diz-me que tem irmãos gémeos, mais novos, e que o rapaz tem um pitbull. Assegura-me que é muito meigo e o pai persiste em busca-lo. Anna não tem vontade de privar com ele, muito menos depois do pai lhe pegar na mão e querer mete-la na boca do canídeo. Face à sua recusa, é ele quem afia os próprios dedos nos dentes de Alex, com tenros seis meses. O cão é paciente e mais fiel do que a guarda suíça que protege o Vaticano.

A minha súbita “amiga” queixa-se da vida em Berat. “Não há emprego. Os jovens são forçados a sair daqui. O turismo tem crescido de ano para ano, principalmente após a recomendação de várias revistas internacionais, mas ainda assim não há muitas ofertas de trabalho”.

A conversa flui sem rédeas. Depois de acariciar, novamente, o sorridente rosto do progenitor, lamenta que o pai seja “viciado em bebida”.

“Não pensa noutra coisa. Não ajuda muito a minha mãe em casa e do pouco dinheiro que temos, vai gastando em álcool. Mas é meu pai e amo-o muito”.

O seu olhar e expressões faciais dão toda a consistência a palavras sempre serenas, positivas e afáveis.

O futuro teima em rapidamente fazer-se presente e devemos continuar caminho. Insiste que não gosta que lhe tirem fotos, resigno-me. A despedida é longa e sentida. Trocamos palavras de felicidade pelo encontro. Letícia vai traduzindo para os progetinores. Nesta viagem, ainda não encontrei humildade, coração aberto e bondade como esta. Fizeram-me sentir mais do que em casa.

“Espero que gostes de Berat e leves a Albânia no teu coração”, atira, quando já cruzo a esquina que vai separar os nossos olhares para sempre. Letícia não sabe que as suas palavras traduzem fielmente a realidade.

O resto da despreocupada caminhada é feita de contrastes entre a secular pedra talhada e flores vermelhas, lilases, amarelas, rosas e brancas a brotar dos sítios mais improváveis.

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Rui Bar­bosa Batista relata no blo­gue Cor­rer Mundo a sua via­gem por Itá­lia, Mace­dó­nia, Kosovo, Albâ­nia e Gré­cia. No site www.bornfreee.com  pode ace­der a outros rela­tos e ima­gens sobre a viagem.

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