A última ceia

Zoya marca mesa e leva-nos a um restaurante chique. Ela traja como uma rainha. Em pleno contraste comigo. Uma lástima, eu sei. Toru capricha, apesar da sua camisola ter borboto suficiente para aquecer toda a Sibéria durante longo inverno. 
A nossa anfitriã rejeita uma sala para nos acomodarmos e vamos para outra, em ambiente mais sereno, a média luz, junto a um piano. Não ouviremos o seu som, mas teremos direito a música. Quinteto de cordas e sopro anima a noite. 
Cordeiro e dois tipos de ensopado (um com frango, outro com porco) são as escolhas que partilhamos. Depois de faustosa salada com saborosos e coloridos queijos, a dar-lhe sabor no limiar do divino. 
Toru dispensa vinho. Nós não. O nosso amigo parte essa madrugada para Inglaterra e espera ter melhor sorte do que a Anna neste remoto país dos balcãs. Garantimos-lhe que sim. Repetidamente. Mas está ausente…
A conversa avança, serena. Para já,  ao ritmo de dengosas músicas. 
As estátuas da baixa voltam à baila. Zoya acha-as apenas mais um ato ‘intolerantemente machista’ das autoridades. Dezenas de estátuas e nem uma só mulher homenageada. Planeamos retaliar. Com vigor. E criatividade.
Um rápido ‘brain storming’ e conclusões firmes: pintar todas as estátuas com seios. E minissaias. Com tinta de grafite. 
Rapidamente fazemos as contas a toda a logística e temos números: cinco a seis donzelas fazem trabalho ‘limpo’, com moldes para os peitos (para ser mais rápido e uniforme) em cinco fugazes minutos. “Agora só tenho de encontrar quem alinhe comigo”, sorri Zoya. Brindamos ao ato de rebeldia. 
Quando chega a sobremesa, já há gente bem animada a ensaiar descoordenados passos da dança. E não seria do vinho nacional que, por sinal, desliza maravilhosamente.
Zoya não quer falar de política ou dos complicados conflitos históricos. “Parece que me estás a fazer entrevista”, queixa-se a donzela de 50 anos e com cerca de 1’90 metros.
Terminamos a noite na sua cozinha com chá de menta colhido no seu jardim. E despedimo-nos de Toru que às 03:00 caminhará pela escura noite de Skopje rumo ao autocarro que o levará ao aeroporto.
O japonês que há dois anos ciranda pelo Mundo a viver do trabalho voluntário para comer e dormir ficou de me visitar para iniciar do Porto o Caminho de Santiago. Zoya, que está a trabalhar num projeto de produção de trabalhos tv sobre a União Europeia, promete aparecer em setembro ou outubro…

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Rui Bar­bosa Batista relata no blo­gue Cor­rer Mundo a sua via­gem por Itá­lia, Mace­dó­nia, Kosovo, Albâ­nia e Gré­cia. No site www.bornfreee.com  pode ace­der a outros rela­tos e ima­gens sobre a viagem.

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