Acidente

Jessa tinha insistido na recomendação: “Nunca, mas nunca mesmo arrancar em primeira. Levam um ‘coice’ do qual se arrependem. E não esquecem”.

Depois de nos deliciarmos duas horas em deserta cascata na montanha – todinha só para nós – perdemo-nos em caminhos que nos afastaram do asfalto e levaram para terrenos inóspitos em propriedade rural, privada.

Inverter caminho. Certamente, este baldio nas traseiras de um barraco na montanha não está no mapa de estradas de Siquijor. Estamos enganados.

Distraído (ou aselhice pura), o pé esquerdo engrena a primeira. O pulso direito acelera… e a moto “voa”. Não a largo. Sou arrastado com ela. Travado por uma árvore. Queda para lado esquerdo. Perna direita atingida com travão, que cola ao descanso.

Sacudo pó. Enfrento olhar incrédulo dos meus companheiros. “Está tudo bem”, assegurei. A perna direita não estava.

Em breve, entendo que não consigo travar convenientemente. Só o da frente funciona… e mal. Mais tarde, serei salvo por bamboo. Em segundos, travão descola do descanso e volta ao lugar. “Não é nada. Faça boa viagem”, diz-me o improvável mecânico que encontro na estrada.

Fim da tarde. Sensação de ombro solto. Incomoda, mas não dói. Após jantar, conversa com franceses. Cotovelo sai das costas da cadeira. Dor súbita, aguda. Que não vai parar durante três dias. Não consigo mover braço esquerdo. Nunca mais me lembrarei da perna direita, severamente marcada numa área semelhante à minha mão.

Noite em claro. Completamente. Dia seguinte, massagista local não consegue resolver nem atenuar o problema. Apenas garante que não é traumatismo ósseo. Não tem edema. Segunda noite, o cansaço vence, por momentos, a dor. Sono não é tranquilo. Cada movimento, gesto do braço esquerdo é doloroso.

Dia seguinte, fisioterapeuta francesa no JJ analisa, toca, mexe e garante que é ligamento. Que poderei mesmo ter de ser operado. Dá-me analgésico forte. Atenua dores. Dormirei melhor.

Siquijor tem hospital. Rudimentar. Sem capacidade para fazer qualquer tipo de análise. Ainda por cima, violento furação devasta a ilha nesses dias e muda todas as prioridades. Não há eletricidade. Siquijor está um caos. Há vítimas mortais.

Braço condiciona meus dias. Deitado, sentado ou em pé, não há conforto, tréguas. Rasga-me de dores quando, finalmente, ao abandonarmos a ilha, é vítima do permanente trepidar do tricyclo nos 45 sofridos minutos em via irregular até Lorena.

Sei que até Portugal não poderei ser convenientemente assistido. E que os próximos dias não serão de festa.

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Rui Barbosa Batista relata no blogue Correr Mundo a sua viagem pela Ásia ao longo de Novembro/Dezembro. No site www.bornfreee.com  pode aceder a outros rela­tos e ima­gens sobre a viagem.

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