Aventura proibida

A ideia era ousada. Atacar longa caminhada proibida pelas autoridades. Descer, a pé, de Yangdi até Xingping.

Hora e meia depois de sairmos de Yangshuo, evitávamos, em Yangdi, os entediantes vendedores (pelo facto da cena se repetir em todo o lado) que cirandam em torno de turistas e procurávamos quem nos ajudasse no primeiro desafio: atravessar o Rio Li. Uns 50 metros demasiado vigiados e que significavam o início de um sonho que, completo, implicava atravessar o rio várias vezes.

A polícia está espalhada por todo o lado. Vigilante e nada cooperante. Intimida os locais e ninguém se atreve a ajudar-nos a cumprir o nosso, aparentemente simples desejo. As autoridades controlam o chorudo negócio, pois os donos dos barcos de bamboo apenas podem descer o rio com “matrícula” oficial, após o pagamento de bilhete para a descida. São espiados ao longo de todo o percurso.

Depois de várias negas, alguém oferece a solução: por uns 25 euros, fazem a curta travessia. Sentimo-nos ultrajados. Esticando os braços, quase parece atingirmos a outra margem.

Procuramos alternativa. Subimos e descemos o cais inúmeras vezes. Em vão. Vemos cruzeiros a passar. Tal como o tempo…

Impacientamos. Nós (Jonathan continua connosco) e um viajante francês que tinha a mesma ideia de aventura. Desiste e vai tentar a travessia inversa, começando em Xingping.

Forçados a ceder. Contrariados e com cada vez menos tempo, rendemo-nos. Não temos mesmo alternativa.

Pedem-nos 120 yuan para descermos de “bamboo boat” até Nine Horses, uns dois terços do caminho idealizado. Ainda assim, aceitamos uma “manigância” que finta, parcialmente, as autoridades. Locais compram-nos os bilhetes por 80 (cerca de 10 euros). Tarifa para chineses.

Nada a fazer. Agora é olvidar a confusão. É hora do mais puro deleite.

Lentamente, navegamos entre imagens-poema. Deslizamos em cristalinas águas afagadas por imponentes montanhas cársicas, que nos indicam o caminho do paraíso. Duvidamos estar ali.

O cenário é dos mais belos e procurados em toda a China. Daí algum excesso de barcos bamboo. Os cruzeiros, felizmente, mais parcimoniosos.

Almoçamos numa das margens. Esticamos as pernas. Dois dedos de conversa ininteligível.

Em Nine Horses termina a aventura de barco. Agora, a pé, vamos seguir o curso do rio, na sua margem esquerda. Pouco mais de uma hora até Xingping.

Com as notas de 20 yuan na mão, descobrimos a paisagem eternizada no dinheiro chinês.

Visitamos a aldeia. Já devotada ao turismo. Regressamos a Yangshuo. Provavelmente gratos à polícia por, na sua incompreensível atitude, nos ter permitido usufruir do cenário da mais bela das formas: deslizando lentamente pelo rio…

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Rui Barbosa Batista relata no blogue Correr Mundo a sua viagem pela Ásia ao longo de Novembro/Dezembro. No site www.bornfreee.com  pode aceder a outros rela­tos e ima­gens sobre a viagem.

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