Uma Marylin que veio da Ásia e outros apontamentos

Uma das atracções de Pokhara é Sarangkot. Coisa simples, o cume de um dos montes que circunda a cidade onde se vê primeiro o nascer do sol sobre as montanhas dos Himalaias. A primeira luz, muito ainda antes de o sol aparecer, revela os picos das montanhas mais longínquas, porque estão cobertas de neve que reflectem uma luz cuja fonte ainda só se adivinha. À medida que o sol se vai aproximando da linha do horizonte, aquilo que parecia uma única linha de montanhas revela afinal uma sucessão de montanhas.

Levantei-me às quatro e picos para ver nascer o sol um pouco antes das seis. Claro que cobram bilhete ao turista na subida e ao motorista na descida. Atrás de mim, um japonês cheio de acne disparava rajadas de fotos ao nascer do sol. Não sei para que quer ele tantas fotos que só se distinguem umas da outras com microscópio electrónico.

A meu lado, um casal de japoneses alternava entre modelo e fotógrafo com sol ao fundo.

Eu penso que há uma relação directa entre a feiura da japonesa e o tamanho da máquina fotográfica do marido. Quanto mais feia a japonesa, mais eu especulo se o Spielberg usa de tantos meios para produzir obra-prima. Também há relação directa entre a feiura e a travessura do modelo.

Na Durbar Square de Katmandu (uma espécie de paços do concelho, que cada terra tem os seus), há imensos pombos que arruínam peças escultóricas de madeira interessantíssimas e, como em todo o lado, em vez de se livrarem da praga, vendem grão de cereal para alimentar os bichos.

Dois garotos entretinham-se a espantar os pombos que outros chamavam com alimento.

Chegou o casalinho japonês. Ele com uma máquina hollywoodesca, ela feiíssima e muito mexida. Ele disparava fotos em rajadas de cinco, como se numa das cinco por milagre a pobre fosse sair bonita, ela rodopiava, o vestido rodopiava e a sombrinha rodopiava. Os putos, que tinham sido “upstaged” pela estrela nipónica, ainda esperaram pacientemente alguns minutos para ver se a coisa acabava e podiam voltar à sua brincadeira, mas, quando viram que a coisa não ia terminar tão depressa, corriam à frente da Marylin que veio da Ásia.

Os nepaleses têm imensa vontade de vender qualquer coisa, normalmente serviços.

Na “portagem” e na saída do táxi em Sarangkot, queriam por força ser meus guias.

Venho eu para ver nascer o sol e precisava dum gajo para me explicar o acontecimento.

Pareceria futebol na televisão, em que um gajo qualquer chuta a bola e um especialista pago para o efeito diz em off que um gajo qualquer chutou a bola.

Hoje de manhã um taxista passou por mim e perguntou-me se eu queria táxi.

Eu disse que não. Ele resmungou que era a terceira vez que me oferecia os seus serviços. Também acho que está na altura de ele me deixar em paz.

Aluguei uma scooter para dar uma volta e apanhei um escaldão tremendo nos braços. Aguardo que passe a caloraça para voltar à estrada com protector.

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