Efeitos da greve

Dormi bem no hotel seguinte. O gerente não lhe dá para rezar e dar à sineta antes das 8h30, o que para mim está mais que bom. Há uma tip box num canto da recepção, em cima da qual está um altar com uma estátua e flores, uma velinha e a sineta. Depois da reza, que é, em simultâneo, à estátua e à caixa das gorjetas, há um concerto de sineta.

Deram-me o jornal de Katmandu em inglês ao pequeno-almoço. Afinal, a greve de ontem foi convocada pela associação étnica do Nepal, a anterior pelo sindicato de qualquer coisa. A seguinte por outra organização qualquer.

Hoje vou procurar o turismo. Se não posso sair de Katmandu, vou ver se mudo a passagem. Isto não é exactamente bonito. Sem o pitoresco das lojas menos ainda. Há algumas que abrem à noite, depois de os piquetes desmobilizarem. Mas é um desconsolo. Eu também já fiz aquilo a que vinha. A semaninha extra era bónus, mas parece que não tenho direito.

A ver como vai.

 

Corri a cidade a pé à procura da minha companhia aérea.

Katmandu é uma cidade tristemente pedestre. Bandos de jovens e menos jovens circulam por toda a parte com paus e com ameaças fazem desmontar das bicicletas quem nelas se desloca, incendeiam motas e apedrejam carros. As lojas são todas iguais, fechadas, com os estores de metal corridos. Os miúdos jogam críquete nas ruas desertas, muita gente sentada à sombra sem saber que fazer, nem como ganhar a vida, algumas mulheres passeiam com as suas sombrinhas de sol, homens passeiam de mão dada, a polícia ocupa as esquinas que pode em traje de motim completo que, imagino, os faça morrer de calor.

Em Durbar Square, sem cobradores de ingresso, sem vendedores, sem turistas, algumas mulheres vendem de mão em mão uns saquinhos de pano a metade do preço do costume. Os agricultores não conseguem fazer escoar os seus produtos e estes começam a faltar na cidade. Esperei mais de meia hora no hotel por um prato, até que finalmente me informaram que não conseguiam encontrar galinha em nenhum dos seus fornecedores, de porta fechada. Ofereceram-me bife como alternativa. Mas, sagradas ou não sagradas, facto é que não se vêem muitas vacas por aqui. E o que comem as poucas que existem não é muito recomendável.

No turismo disseram-me que a greve deve durar até ao dia 27. E também que havia autocarro com escolta policial para o aeroporto. Vou tentar perceber se em Pokhara o clima é o mesmo e se posso ir até lá. Se não puder, ou se for uma espécie de Katmandu, antecipo o regresso.

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