Greve

Ontem o meu hotel encheu de locais. Às três da manhã até deu direito a luta.

Estava tudo tão bêbado no jardim, tudo a gritar e a berrar. Acabei por me levantar e ir à recepção. Disse que podiam cobrar aquela minha noite no hotel àquele pessoal, que eu saía de manhã. Os cães começam às três e meia, os sinos do templo às cinco, as pessoas não têm hora. Às oito da manhã tinha feito o check in no Pilgrim’s Rest, que é mais no centro de Thamel, mas há menos trânsito, não há templo imediatamente ao lado, há corvos, mas não têm ninho no jardim. Morto de sono. Nem sei como vou arrastar a carcaça escadas acima do Bom Jesus dos Macacos Sindicalistas.

Achava eu que era mau subir o Bom Jesus dos Macacos Budistas. Há dias que há greve no Nepal, mas, hoje, domingo, levaram a coisa a peito com piquetes de greve por todo o lado. Quando fui ao sítio dos táxis, não havia nenhum. Nem carros, nem riquexó. Já tinha andado um terço dos 8 km quando encontrei um riquexó disposto a furar greve (a greve começou quinta-feira, mas não tem data de acabar, apenas um dia por semana em que afrouxa a vigilância). Levou-me outro terço do caminho até deparar, ao longe, com mais um piquete de greve. Portanto, ainda antes do Bom Jesus dos Macacos Grevistas, já eu tinha feito uns quilómetros de aquecimento.

Hoje acabei o workshop das taças tibetanas. O mestre lá me pôs uma mochila às costas com sete taças. Mochila com água e material fotográfico à frente, taças atrás, monte abaixo, monte acima, já eu tinha saudade do Bom Jesus quando enfrentava o próprio Calvário. A meio caminho lá encontrei um jovem de 15 anos que andava a ver se fazia uns dinheiros com o riquexó. Já tinha uma enorme ferida numa perna de vergastada que tinha levado num piquete. Paguei-lhe 4 vezes o que costumo pagar pelo percurso inteiro. Se não fosse ele, acho que teria ficado mais a minha cruz na primeira pensão que me aparecesse.

E depois das viagens, do workshop, das taças, sou um rico homem pobre e contente por tudo. Mesmo de costas desfeitas, só me apetece assobiar “Gracias a la vida”.

Deixar um comentário

O seu email nunca será publicado ou partilhado.Os campos obrigatórios estão assinalados *

Podes usar estas tags e atributos de HTML:
<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>