Lost in translation

Numa das três noites que passámos em Lhasa, ao voltar do jantar com os franceses, encontrei o grupo dos jovens que ia sair. Perguntaram se eu queria ir e eu disse que sim. O australiano vestia uma farpela da Disney em azul-bebé, de corpo inteiro e quando enfiado na cabeça tinha também a cabeça dum bicho. Acabámos num beco de Lhasa que funciona como o Bairro Alto lá do sítio, com um bar porta sim, porta sim. A Nina, a mocinha indiana-inglesa, entrava em cada bar, fazia toda a gente calar-se e perguntava se tinham visto a Maggie. Depois saía do bar e dizia “they love me”. Os bares são pequenos, a recordar os barzitos dos anos 70 em Lisboa. Entrámos num onde se cantava. Temi que fosse karaoke, mas era uma variação. Havia um livro de canções, ou um ai-que-tudo com a letra ou sabiam a canção de cor. E cantavam a capela.

O tipo que cantava quando entrámos parecia uma versão do Johnny Hallyday em mais feio e moreno. Aliás, as semelhanças ficavam pela figura, estrelicado e com roupa vistosa muito justa ao corpo, a camisa imitava leopardo, os jeans esfarrapados e justos e havia umas botas prateadas a completar o figurino.

Fomos convidados a entrar e, como não havia mesa, fomos sentando pelos lugares que havia nas mesas com bancos corridos para seis pessoas. Acabei numa mesa com quatro tibetanos acordados e um bêbado que dormia sobre a mesa. Por sinal, o único que falava inglês.

Os tibetanos fazem a festa mandando vir umas embalagens de latas de cerveja, que ficam a aquecer na mesa, mais uns jarros com bebidas locais como o vinho de arroz. Sabe tudo a cerveja quente, de qualquer maneira. O cantor fez o empregado explicar-me em inglês que era o dono do boteco e mandou vir umas taças que encheu com vinho de qualquer coisa, grandes brindes e grandes bota-abaixo. Este gesto foi sendo repetido várias vezes pela noite dentro. Dois dos mocinhos que estavam na mesa usavam uns lenços brancos ao pescoço que significam “best wishes”. Assim me explicou o mais bêbado, uma das vezes em que levantou a cabeça da mesa.

Eles perguntaram-me de onde era e eu, que não aprecio futebol nem nunca me lembro do Ronaldo, lá fui dizendo Portugal com todas as entoações que consegui. Pelos vistos não passei pelo correctamente entoado PO-TU-Á. O Ronaldo teria sido o caminho mais curto, eu, como sempre, segui pela “scenic route”. Spain? Tambem não. Mãos encostadas à cabeça, a fazer um par de cornos, mais uma investida no ar e Espanha estava identificada. Duas cervejas, uma identificada como Espanha, a outra que ia sendo repetidamente pousada ao lado da primeira acompanhada de uma das entoações de Portugal. Até que, finalmente, um disse PO-TU-Á e todos repetiram PO-TU-Á e um deles lá disse Ronaldo, para meu desconsolo. Os mocinhos do lenço branco despediram-se, que iam no dia seguinte para a China. Grandes abraços de despedida que também me calharam.

Quando saímos, em nenhuma das mesas por onde estávamos distribuídos permitiram que deixássemos dinheiro para participar na despesa. A mim, tudo o que me disseram foi “welcome to Tibet”. Não tem nada a ver com os chineses mesmo.

Na rua, toda a gente diz Hello e Goodbye e distribuem grandes sorrisos. Eu, uma espécie de homem macaco, tinha sempre os putos, e não só, a puxar-me os pêlos dos braços e a rir.

Os chineses dividiram os tibetanos importando gente de todo o lado. Há o grupo dos muçulmanos, uns que usam chapeleta de palha, militares (com o ar mais miserável e infeliz do mundo) e polícias. Os tibetanos são bonitos, com rostos altivos, orgulhosos, dignos e muito simpáticos.

Ambos os sexos usam muitos ornamentos no cabelo. Ambos usam trança. Elas enfeitam as tranças com jóias de turquesa e outras pedras. Eles enfiam a trança numa argola de jade, enrolam-na com uma fita vermelha com franjinhas. O guia diz que no campo ainda se continua a honrar o festival do banho que ocorre em Setembro. O banho anual. As mulheres continuam a casar-se com os irmãos todos. Têm vários maridos, mas têm de ser irmãos entre eles. Os homens compram entusiasticamente nas ruas uma lagarta/cogumelo que parece ser o viagra local.

 

O jet lag parece resolvido. Tenho sono quando me deito. Mas, às cinco da manhã, os cães deixam de ladrar de vez em quando para haver concerto organizado, e começam os corvos, os carros e as pessoas. Mesmo tendo mudado de quarto, o barulho chega lá. Hoje mudei de quarto pela terceira vez. Se resultar, tudo bem, se não, quando sair das taças [curso de taças tibetanas], vou à procura de alternativa. Cansado de, às seis da manhã, estar de barba feita, banho tomado, a ler no terraço, porque só há pequeno-almoço às sete e não há luz para aceder à net.

Há greve no Nepal. Coisa séria, com altifalante, palavras de ordem e bandeirinhas vermelhas. E muita polícia, claro. Nada daquelas contestações à Saraiva.

Amanhã começo o curso da taças. Devo ter que fazer uns km até ao templo dos macacos, porque a greve também afecta os táxis. E os fura-greves fazem-se pagar fortunas. Para a semana devo ir até Pokhara, que já não há paciência para Katmandu. Hoje fiz uma terapia de som. Segundo o especialista, tenho o chakra da garganta e o base avariados. Só o do coração é que está em grande. Claro que a taça grande que comprei, logo me tinha fugido a chinela para mais uma taça a fazer vibrar o chakra do coração.

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