Do Machu Picchu a La Paz

9 Feve­reiro
O dia foi pas­sado em via­gem, de Lima em direc­ção a Cuzco, num “bus-cama” relativamente con­for­tá­vel — é nes­tas coi­sas que vale a pena gas­tar um bocado mais de dinheiro numa via­gem des­tas. Segui­mos pela costa, bas­tante desér­tica, até Nazca, de onde inflec­ti­mos para o inte­rior. Cai a noite, continuam os fil­mes dobra­dos em espa­nhol no ecrã do auto­carro, para­mos para jan­tar, e siga viagem.

10 Feve­reiro
À medida que nos íamos apro­xi­mando de Cuzco, a pai­sa­gem fica mais inte­res­sante — mon­ta­nhosa, ver­de­jante. Che­gá­mos pelo fim da manhã, e fomos direc­tos pro­cu­rar alo­ja­mento, que encon­tra­ría­mos, num sítio barato mas abso­lu­ta­mente medío­cre, um daque­les pré­dios com uma cons­tru­ção tão pre­cá­ria que sur­pre­ende como se aguen­tam em pé, mas que são a norma por esta parte do mundo. Depois de um almoço bem com­posto num ita­li­ano local, encontrámo-nos com a Rita e a Joana, uma delas amiga do Pedro e do Ricardo, tam­bém em mobi­li­dade em Bue­nos Aires, e a amiga dela, a viver em Flo­ri­a­nó­po­lis. Arqui­tec­tos cla­ra­mente em mai­o­ria neste dia! Pas­seá­mos pela cidade, tomá­mos café, tro­cá­mos his­tó­rias das res­pec­ti­vas via­gens, enfim, um dia bem pas­sado. O cen­tro de Cuzco é muito bonito, espe­ci­al­mente a Plaza de Armas, mas tam­bém a envol­vente natu­ral, que lhe aumenta a beleza, claro. Bons res­tau­ran­tes e cafés, mui­tas lojas e ope­ra­do­res turís­ti­cos tam­bém, e claro, uma con­cen­tra­ção maior de “mochi­lei­ros” do que nas nos­sas últi­mas paragens.

11 Feve­reiro
De manhã, tra­tar de fazer um ISIC para ter des­conto na entrada do Machu Pic­chu, com­prar as entra­das, e os bilhe­tes de com­boio. E aqui começa a saga “sugar turis­tas até ao tutano”, a que não dá para fugir, se se quer real­mente subir até à “mara­vi­lha do mundo” peru­ana. Os bilhe­tes, incluindo entrada e subida à Mon­taña Machu Pic­chu, cus­ta­ram 71 soles (cerca de 20€, o dobro sem ISIC), o com­boio — um mono­pó­lio ver­go­nhoso da Peru­Rail — ficou a 70 dóla­res ida e volta, o bilhete “eco­nó­mico” para uma via­gem de duas horas. Sim, por­que há um com­boio de luxo a 300 dóla­res. O pro­blema aqui é de facto a lógica de se ter uma país a per­mi­tir a explo­ra­ção de visi­tan­tes (sim, por­que peru­a­nos pagam infi­ni­ta­mente menos), atra­vés de con­ces­sões a empre­sas que pra­ti­cam os pre­ços que bem enten­dem com a des­culpa de pres­ta­rem um “luxury ser­vice”, fazendo lucros astro­nó­mi­cos com uma “atrac­ção turís­tica” que é clas­si­fi­cada patri­mó­nio cul­tu­ral da huma­ni­dade, e que como tal, deve­ria estar aces­sí­vel a todos, a pre­ços justos.

Durante a tarde, segui­mos em combi para Ollan­tay­tambo, a aldeia de onde parte o com­boio, algo des­con­for­tá­veis na via­gem, claro, mas com vis­tas incrí­veis pelo cami­nho. Um pas­seio e um exce­lente jan­tar depois, e apa­nha­mos o com­boio, já de noite, infe­liz­mente, tal como o regresso viria a ser. Aguas Cali­en­tes, a 8km do MP, é um sítio pito­resco, encai­xado nos vales das mon­ta­nhas que rodeiam a cidade sagrada, mas que está, como não podia dei­xar de ser, repleto de hos­tels, cafés, piz­za­rias, dis­co­te­cas de mau gosto, sou­ve­nir shops e afins. Cho­via, para variar, e segui­mos direc­tos a dormir.

12 Feve­reiro
Bem cedi­nho, acor­dá­mos para ir apa­nhar o auto­carro que nos leva­ria, final­mente, ao topo. 20m a 9 dóla­res o bilhete. Sem sur­presa aqui tam­bém. Che­ga­dos à entrada, um hotel de luxo e um res­tau­rante, e as ruí­nas, final­mente. Tive­mos sorte com o tempo na maior parte do dia, feliz­mente, e o pri­meiro con­tacto com o MP foi com o sol a bri­lhar. A visão é do outro mundo, truth be told, pro­va­vel­mente das coi­sas mais boni­tas que já vi — a envol­vente natu­ral das ruí­nas é espec­ta­cu­lar, a mon­ta­nha rode­ada pelo rio bem lá em baixo, a mon­ta­nha Wayna Pic­chu por trás, o modo de cons­tru­ção das casas, a des­cer até onde foi pos­sí­vel. A atmos­fera é mágica, de facto. Era ainda melhor sem os japo­ne­ses e as máqui­nas foto­grá­fi­cas em dis­pa­ros non-stop, mas ainda assim, ins­pira um sem número de super­la­ti­vos. Subi­mos à mon­ta­nha Machu Pic­chu, de onde se tem vis­tas espec­ta­cu­la­res, até onde as nuvens per­mi­tem, e onde a falta de oxi­gé­nio se faz sen­tir a cada degrau.

Em baixo, visi­tá­mos as ruí­nas com algum por­me­nor, que em si não têm nada de dis­tinto de outras da mesma época, a não ser a crua dimen­são. Ao iní­cio da tarde, depois de espe­rar­mos que uma chu­vada pas­sasse, ini­ciá­mos a des­cida até Aguas Cali­en­tes, desta vez a pé, pelos tri­lhos de esca­das. Cus­tou, mas valeu a pena, e depois tive tempo para recu­pe­rar, até apa­nhar­mos o com­boio de regresso a Ollanta, e o auto­carro para Cuzco.

13 Feve­reiro
A nossa ideia ini­cial de iti­ne­rá­rio era irmos de Cuzco para Are­quipa, no sul, de onde segui­ría­mos para Puno. Infe­liz­mente, só havia auto­car­ros para Are­quipa de noite, e então deci­di­mos cor­tar cami­nho, e seguir logo nessa manha para Puno, junto ao Titi­caca. 8 horas depois, che­gá­mos, já de noite, e des­co­bri­mos que se fes­te­java por toda a cidade em honra das cele­bra­ções da “Vir­gem de La Can­de­la­ria”. Ruas cor­ta­das, des­fi­les ao estilo car­na­va­lesco, muita con­fu­são, e claro, hos­tels lota­dos. Depois de muito pro­cu­rar, aca­bá­mos por ficar num hotel mais caro do que o nosso bug­det tem per­mi­tido — uns vinte euros pela noite — mas era a única hipó­tese. A cidade de Puno, em si, não tem abso­lu­ta­mente nada de espe­cial, é algo turís­tica, de média-dimensão, e seme­lhante a mui­tas outras, mas nes­tes dois dias rebenta em ter­mos de capa­ci­dade e na ale­gria dos fes­te­jos. Por algum tempo foi inte­res­sante, mas às duas da manha os des­fi­les con­ti­nu­a­vam, e eu já só que­ria dormir.

14 Feve­reiro
Este dia foi dedi­cado a uma rápida visita de barco, pelo Lago, até às ilhas de Uros, umas pecu­li­a­res deze­nas de ilhas arti­fi­ci­ais flu­tu­an­tes, cons­truí­das pela popu­la­ção a par­tir de “totora”, uma planta escura e húmida, sobre a qual assen­tam vários mon­tes de totora seca, que é usada para o solo, os tec­tos das casas, os bar­cos tra­di­ci­o­nais, etc. Exis­tem ilhas com popu­la­ção nativa, escola e infra-estruturas bási­cas, mas nós fomos, claro, con­du­zi­dos para um con­junto delas que estão espe­ci­al­mente voca­ci­o­na­das para rece­ber turis­tas, com peque­nas ban­cas de arte­sa­nato e res­tau­ran­tes de pejer­rey, cara­chi e tru­cha, os pei­xes típi­cos do lago. Cedo regres­sa­mos a Puno, onde o resto do dia se pas­sou em cafés, a ler, a pas­sear, e no hos­tel, a enviar algu­mas can­di­da­tu­ras e a fazer pes­qui­sas na net sobre poten­ci­ais está­gios, tarefa a que me tenho dedi­cado aos solu­ços durante esta via­gem, mas que não posso negligenciar.

15 Feve­reiro
De manha cedo, par­ti­mos para Copa­ca­bana, na Bolí­via, aqui tam­bém, sem pro­ble­mas na fron­teira. Che­ga­dos a Copa, pro­cu­rá­mos hos­tel, e segui­mos quase direc­tos para o pequeno porto, de onde par­tem as visi­tas à Isla del Sol, no Titi­caca, do lado boli­vi­ano. A via­gem de barco — duas horas — foi agra­dá­vel, pese embora a chuva oca­si­o­nal, mas as vis­tas do lago de facto são boni­tas, até per­der de vista. A ilha é inte­res­sante, com pou­cas cons­tru­ções, as que exis­tem voca­ci­o­na­das para o turismo, e algu­mas ruí­nas, de pouco inte­resse. Subi­mos até ao topo, apreciou-se as vis­tas, e vol­tá­mos a des­cer para fazer a via­gem de regresso, a maior parte da qual foi pas­sada a ouvir as his­tó­rias de um ani­mado refor­mado ale­mão em pas­seio pela Bolí­via e pelo Bra­sil. É curi­oso como não temos encon­trado por­tu­gue­ses de mochila às cos­tas durante a via­gem, mas mui­tas as outras naci­o­na­li­da­des abun­dam, espe­ci­al­mente ame­ri­ca­nos, aus­tra­li­a­nos, ale­mães, argen­ti­nos, alguns bra­si­lei­ros… Pode ser que ainda nos cru­ze­mos com alguns. Regres­sa­dos, mais uma busca por um inter­net café, e depois jan­tá­mos num sítio bas­tante sim­pá­tico e barato q.b. Come­ca­ría­mos aqui o nosso “splurge” pela Bolí­via, onde tudo é impen­sa­vel­mente barato, mas onde aca­bá­mos por pou­par pouco em com­pa­ra­ção com os outros paí­ses, por irmos a sítios bem melhores!

16 Feve­reiro
Depois de ter­mos de ir a três sítios dife­ren­tes para tomar o pequeno-almoço — inva­ri­a­vel­mente dada a incom­pe­tên­cia do ser­viço e os lar­gos tem­pos de espera nos cafés e res­tau­ran­tes, espe­ci­al­mente peru­a­nos e boli­vi­a­nos — fomos apa­nhar o auto­carro para La Paz. Três horas de pai­sa­gens áridas de mon­ta­nha, e a última hora, quase, para entrar na capi­tal, rode­ada de subúr­bios deso­la­do­res e casas de tijolo, ruas por asfal­tar, o trân­sito sem regras do cos­tume, claro, mas se há sítio onde se sente que aca­ba­mos de ingres­sar no país mais pobre da Amé­rica do Sul, é em El Alto, La Paz. Che­ga­dos ao hos­tel, mesmo a tempo do jogo do nosso Porto — sim, pela pri­meira vez na vida vejo-me obri­gada a seguir o calen­dá­rio das par­ti­das e a ouvir quase dia­ri­a­mente o hino do FCP, mas tem sido cons­tru­tivo — e dige­rida a der­rota, segui­mos para comer qual­quer coisa e ter um pri­meiro con­tacto com a cidade. Nesse dia, jan­tá­mos no Res­tau­rante Vienna, um dos melho­res de La Paz, daque­les com pia­nista à entrada e carta de mais de dez pági­nas — sin­gani de ape­ri­tivo, entra­das, pra­tos, vinho e sobre­mesa, e a coisa não pas­sou dos 15€.

17 e 18 Feve­reiro
Os dois dias seguin­tes foram pas­sa­dos em La Paz, em ritmo de des­con­tra­ção, por­que só tínha­mos com­boio de Oruro para Uyuni às Segundas-feiras, e não podía­mos ficar a dor­mir em Oruro, por­que a cidade por altura do Car­na­val transforma-se numa autên­tica feira — infla­ci­o­nada — e che­gá­mos à con­clu­são que dor­mir lá não ia ficar por menos de 100 dóla­res. Apro­vei­tá­mos, por isso, os pre­ços da res­tau­ra­ção da capi­tal boli­vi­ana, e puse­mos vários assun­tos em dia, no com­pu­ta­dor do hos­tel, que tam­bém se reco­menda: Resi­den­cial Latina. Fomos a um con­certo de Car­na­val no Museu Naci­o­nal de Arte, que foi uma espé­cie de visita gui­ada pelos rit­mos popu­la­res latino-americanos, e fui tam­bém a uma ses­são da Cine­ma­teca Boli­vi­ana, um pouco deso­la­dora pelo cariz lar­ga­mente comer­cial da pro­gra­ma­ção, por se pres­ta­rem a pas­sar fil­mes em DVD e ainda por cima selec­ci­o­na­rem a lín­gua errada para pas­sar o filme. Mas bom, haver uma Cine­ma­teca com 4 salas, já é um começo. De resto, sen­ti­mos a ani­ma­ção das ruas em fim de semana pro­lon­gado, pas­seá­mos, e pouco mais fica de uma cidade inte­res­sante, mas pouco memorável.

4 comentários a Do Machu Picchu a La Paz

  1. Há de facto for­mas bara­tas de che­gar a Machu Pic­chu, mas exige um pouco de resis­tên­cia física, tempo dis­po­ní­vel e alguma nego­ci­a­ção com locais — sobre­tudo che­gar a Aguas Cali­en­tes pela noite den­tro, após horas de cami­nhada e chuva tor­ren­cial andando pelo car­ril (des­ses ladrões que refere!) foi ines­que­cí­vel :)

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  2. Como é bom rever estes cami­nhos tam­bém por mim já per­cor­ri­dos :) tan­tas as his­tó­rias que sal­tam à memó­ria…
    No meu caso subi ao Machu Pic­chu a pé pelo tri­lho desde Aguas Cali­en­tes e vol­tei de bus (que roubo ao turista!!). Foi uma subida can­sa­tiva, mas ver o sol nas­cer ao longo do per­curso foi das expe­ri­ên­cias mais fas­ci­nan­tes que já vivi..

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