Chuva

A minha cabeça estava cheia de chuva. Não sei sequer se o consigo dizer de outra forma, mas sentia-me encharcado até aos ossos. Lariam, chuva, chuva e mais chuva. No entanto Jon, agora meu companheiro de viagem, partilhava algumas destas aventuras comigo, o que ajudava um pouco a que tudo parecesse um pouco melhor.

Foi aqui que conheci por fim Marleen. Admito que gosto de conhecer pessoas que em vez de se darem a conhecer por um jorro de palavras, e coisas sem sentido, limitam-se a sorrir e a dizer apenas coisas que importam. O silêncio tem muito para dizer e poucos são os que percebem isso.

Quando decidimos ir para Vientiane, onde me iria encontrar novamente com Sarah, nunca esperaríamos a aventura que estava para chegar. O céu ficava cada vez mais negro e a chuva caía cada vez com mais intensidade sobre o telhado de zinco que cobria as nossas cabeças na humilde paragem de autocarro. Não pudemos deixar de rir quando vimos o nosso autocarro. Parecia uma discoteca com rodas, cheio de luzes néon e cores berrantes. O condutor, com pouco mais de 20 anos, parecia ansioso como e com a tempestade que crescia nas montanhas à nossa frente.

Os relâmpagos lá fora mostravam por breves momentos, o vazio que nos rodeava. Um vazio cheio de coisas e coisas cheias de montanhas e uma densa floresta que nos fazia agarrar à cadeira. Era impossível não admitir que estava assustado, mas os primeiros sinais do Lariam começavam a surgir e estranhos vultos surgiam perante mim quando fechava os olhos.

Foi então que parámos a primeira vez. Lama, chuva e detritos, construíam então uma pequena montanha à nossa frente. Foi então que percebi que o nosso jovem condutor, cheio de adrenalina, estupidez, e anfetaminas, como viria a saber mais tarde, decidira então atravessar aquela pequena montanha.

O autocarro balançava da esquerda para a direita como um barco atravessando uma tempestade em alto mar. Algumas pessoas entraram em pânico e começaram a abandonar o autocarro. A chuva lá fora e a lama, não impediam ninguém de ficar dentro do que se poderia tornar num desastre mais tarde ou mais cedo. Mal tinha acabado de impermeabilizar a minha mochila e as minhas coisas, vi ao longe uma rapariga que chorava e soluçava no meio da chuva. Corri então para ela, agarrando na pouca coragem que ainda tinha, e talvez um pouco afectado pelos medicamentos que tomava. A pouca maquilhagem que tinha, transformara-se agora num rio negro que lhe corria pela face.

Abri rápidamente a mochila, ofereci-lhe um dos rebuçados de emergencia que tinha guardados, e apressei-me a procurar todas as lanternas ou luzes de emergencia que tinha. Admito que me ri quando a vi enfeitada tal qual árvore de natal. No entanto a rapariga de quem nunca viria a saber o nome, sorria agora enquanto limpava as lágrimas da face.

As horas seguintes seriam passadas a esperar. E o que inicialmente seriam 4h de viagem, viriam a ser no entanto 22h alternadas entre esperas, o início das minhas alucinações e muita chuva.

No entanto em Vientiane iria dizer adeus a Jon, e iria dizer novamente olá a Sarah que me esperava de forma diferente e com um beijo nos lábios.

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