Chiang Mai e Um pesadelo chamado Lariam

Chi­ang Mai”

Fal­tava ape­nas um vôo para Chi­ang Mai, e em breve iria então ter o que espe­rava, ou quem espe­rava. O ar era pesado como que se fosse pos­sí­vel cor­tar às fatias. Não espe­rava que tal clima exis­tisse, e nunca sequer pen­sei que fosse pos­sí­vel alguem sobre­vi­ver a tal. Era como que ten­tar res­pi­rar den­tro de água. No entanto Sarah lá estava à minha espera. Seguido de um beijo e um abraço que pare­ceu durar uma eter­ni­dade, lá tive então a minha pri­meira expe­ri­ên­cia numa Tuk tuk. Por vezes parece que pude­mos resu­mir a Tai­lân­dia a Tuk Tuks. Aliás todos os dias se fazem des­sas peque­nas motos com uma caixa atre­lada. A via­gem até à Le mai­son verte dura­ria pouco mais do que 10m. Can­sado e deso­ri­en­tado, agar­rava a mão de Sarah como que se fosse a última vez que a iria ver.

Tirei os sapa­tos para entrar no hos­tel e subi os dois lan­ces de esca­das até ao último andar. Era um quarto rela­ti­va­mente decente e limpo. Muito dife­rente no entanto do que estava habi­tu­ado em ter­mos Euro­peus. Tinha ape­nas uma cama tal como tinha pedido a Sarah alguns dias antes, e ape­sar das minhas ten­ta­ti­vas, rece­be­ria pouco mais do que um beijo. Dizia-me que que­ria ver pri­meiro como eu era sem qual­quer coisa física que nos pudesse influ­en­ciar, mas a noite iria ditar algo diferente.

Os pri­mei­ros dias em Chi­ang Mai foram mais do que mag­ni­fi­cen­tes. Era­mos dois tolos apai­xo­na­dos, por entre via­gens de sco­o­ter, bei­jos, quar­tos sua­dos, e pai­sa­gens fan­tás­ti­cas. Vive­mos dias que nunca tive­mos antes, tal­vez por estar­mos des­pi­dos de tan­tas outras coi­sas, ou tal­vez ape­nas por estar­mos por fim a expe­ri­ên­ciar algo que sem­pre quisemos.

A via­gem para Huax Hay, Laos, na fron­teira com a Tai­lân­dia, seria no entanto mar­cada pelos pri­mei­ros sinais dum pesa­delo cha­mado Lariam. Sentia-me ner­voso, ansi­oso, para­noico por vezes e sem saber o que fazer. Esta­ria à nossa espera a “Guib­bon Expe­ri­ence”. Dois dias e uma noite a des­li­zar por cabos de 700 metros pela flo­resta do Laos.

Um pesa­delo cha­mado Lariam”

Foi aqui que tudo aca­bou e que um novo período da minha via­gem come­çou. Sarah pare­cia dis­tante, incons­tante. Dizia que nada con­se­guia ver em mim, nem sequer um beijo me podia dar. No entanto o pior esta­ria para chegar.

A noite em ques­tão ainda cons­ti­tui para mim um grande bor­rão. Pouco é o que me recordo, entre Sarah ter­mi­nar a nossa rela­ção e dizer que me iria ter que dei­xar sozi­nho no Laos, e eu gri­tar com ela como nunca tinha feito antes ou até mesmo uma carta em pon­de­ra­ria tomar a minha vida, que não me recordo sequer de escre­ver. Pas­sei já por mui­tas coi­sas na minha vida, e sei que cresci muito tam­bém depois da morte de Sophie com quem estive pres­tes a casar. No entanto, sei tam­bém que difí­cil­mente iria que­rer por fim à minha vida, muito menos agora mesmo com tudo o que se estava a passar.

Os dias seguin­tes foram incons­tan­tes. Cheios de altos e bai­xos, gri­tos, dis­cus­sões, lágri­mas, pala­vras que nunca qui­se­mos tro­car. No entanto tudo iria mor­rer ali sem que hou­vesse qual­quer chance de sal­var o que nos tinha alí levado.

Luang Namtha teria pouco para con­tar. Sarah estava já mais longe do que alguma vez pode­ria estar, e pouco res­tava para sal­var. Tudo na minha cabeça era um tur­bi­lhão de coi­sas per­di­das, como res­tos de cotão e moe­das que guar­da­mos nos bolsos.

Segui­ría­mos então para Luang Pra­bang, onde iria conhe­cer Jon e Mar­leen, e onde iria dei­xar Sarah durante alguns dias. Os efei­tos da medi­ca­ção eram cada vez pio­res de dia para dia, e os pri­mei­ros sonhos vívi­dos come­ça­vam então a manifestar-se. Sarah tinha-se per­dido em si mesma, e eu come­çava a fugir para um lugar escuro que quase me tomou a vida.

No entanto tudo era incons­tante. Tan­tos eram os dias e horas que apro­vei­tei, como os momen­tos em que come­cei a viver o pesa­delo de que tanto falo.

Jon e Mar­leen iriam fazer então os dias que pas­sa­vam. Ambos holan­de­ses, tornaram-se no que viria con­si­de­rar como bons ami­gos, em ape­nas alguns dias.

Um comentário a Chiang Mai e Um pesadelo chamado Lariam

  1. Gos­tei do teu texto de ter­ras que não conheço.
    Conheço sim os efei­tos de medi­ca­men­tos como o Larian sobre ami­gos.´
    Por vezes é pre­ciso dar a conhe­cer his­tó­rias que alguns não têm cora­gem de contar.

    Responder

Deixar um comentário

O seu email nunca será publicado ou partilhado.Os campos obrigatórios estão assinalados *

Podes usar estas tags e atributos de HTML:
<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>