Bélgica e o grande porquê vs o começo da viagem

Hoje respondo às questões que algumas pessoas me colocaram sobre o porquê de vir para a Bélgica. Asterix, Tintim, batatas fritas, boa cerveja, miúdas bonitas. Bem podia dar-vos milhares de razões sem que nunca realmente explicasse o porquê de para cá vir.

Vim cá a primeira vez em Abril de 2011 para visitar Nele. Aquela linda rapariga de cabelo louro e olhos azuis acabara por me trazer a este país que apesar de tão perto e apesar de tão fascinante, raras foram as vezes que tomei sequer a liberdade de o tentar conhecer. Apaixonei-me desde o primeiro momento por Gent, a cidade onde vivo, e por Nele. Penso que o resto são apenas pequenas coisas que foram acontecendo, até porque pouco mais há que me tenha trazido cá. Vim sem emprego, sem sítio para ficar. Vim sem rumo e apenas com um destino e um objectivo em mente. O ficar em Gent pelo máximo de tempo que consiga e se possível para sempre.

Passei 7 anos inconstante, sempre a viajar, e sempre a correr de uma coisa para outra. Finalmente sinto-me em casa. Não sei se por Nathalie, sobre quem irei falar noutra altura. Se pela cidade em si.

Enquanto não ma roubarem,  levo a minha bicicleta para todo o lado e tal como uma criança, sorrio quando chove, ou tento apanhar flocos de neve com a língua. Foi isto que sempre procurei. Coisas sem serem complicadas, coisas que não me enchem de dúvidas e problemas que não existem, até porque no final, tudo tem uma solução e após viajar por tanto tempo, tenho a certeza de que tudo irá sempre correr bem, mesmo que no início não consigamos ver isso.

Por fim decido então começar a colocar aqui algumas das histórias que ficaram por contar enquanto viajei e que penso serem importantes para que se perceba o que passei durante estes 5 meses. Estes textos que irei tentar colocar aqui sempre que possível, fazem também parte do meu caderno de viagem que sempre me acompanhou durante os melhores e os piores momentos.

 

“A viagem que mudou o mundo em mim”

O meu nome é Filipe Teixeira. Fui pianista, arquitecto, neurocientista, e esta é a história em “cuecas”, com toda a verdade despida de preconceitos e outras histórias, do que foi uma viagem que mudou o mundo em mim.

Meço pouco mais do que 1m64 e sei que nasci num dia de chuva do dia 14 de Maio de 1984 em Almada. Por pouco que não sobrevivia mas talvez tenha sido isso que fez de mim um lutador. Nunca ambicionei grandes feitos ou conquistas. Mas desde cedo que algo cá dentro quis saír para este mundo que agora é tão pequeno para o que guardo cá dentro.

“E assim começou”

Comecei esta viagem em Abril de 2011 na Bélgica, numa pequena cidade chamada Ghent. Viajei para me encontrar com Nele que estive perto de amar, e acabei com Sarah por quem tanto desesperei. Não há muito mais que possa dizer sobre como começou esta viagem. Juntem uma lareira, boa música, uma rapariga linda de morrer e uma história de alguém que tal como eu acordava todos os dias sabendo que faltava algo na sua vida.

Nem apenas um mês depois, acabaria então por começar a namorar com Sarah, e acabaria então por ser convidado para viajar com ela à volta do mundo durante 6 meses. Os primeiros sinais de que algo não estaria bem, começaram ainda na Europa quando a visitei em Julho em Bruges. Ela já tinha iniciado a toma dos medicamentos contra a malária, e eu estava naquela linha ténue que separa saber que iria largar tudo por alguém que amava, com o medo do desconhecido.

Após uma semana em que ambos perdemos a cabeça algumas vezes, tudo terminou no que poderia ser tirado de um filme de Hollywood. Muitas lágrimas, beijos, um “muito meu amor”, fizeram dos minutos as últimas horas que iríamos ter.

Agosto foi um mês sem dúvida difícil para mim. Sem trabalho, a procurar vender o que conseguiria vender, e com a dúvida presente de não saber se Sarah me iria esperar em Chiang Mai no norte da Tailândia ou não. Foi aqui que entrou o medo. O medo que tanto nos destroi, que tanto nos constroi. Tal como Orpheus que olhou para trás em busca de Euridice, poucas foram as vezes que acreditei que Sarah lá iria estar para mim. Foi aqui também que começou um pesadelo chamado Lariam.

Antes de mais quero apenas focar que sempre soube dos possíveis efeitos secundários que por ignorância ou talvez arrogância, decidi ignorar.

“Portugal-Bélgica-Londres”

Após uma festa onde reuní todos os meus amigos, e onde libertei muitas lágrimas de saudades, tristeza, ou por não puder dizer coisas que sempre quis, lá me despedi da minha mãe por entre ainda mais lágrimas e fui então de encontro ao meu pai em Aveiro.

A distância do meu pai foi em muitas vezes mais aparente do que real. No entanto sei que tal como para mim, por vezes não lhe é fácil mostrar certas coisas que vão lá dentro. No entanto foi no aeroporto depois de um dia bem passado com João e Aneta, dois grandes amigos por quem sempre senti saudades, que o quarto pequenino que o meu pai guarda dentro dele, se mostrou. Foi num abraço que me despedi de alguém que nunca pensei que se iria despedir de mim assim.

Mas era tempo de seguir para Bruxelas onde iria ter Malle à minha espera.

Conheci-a aquando a minha ida à Bélgica em Abril, e desde o início que aquela personagem frágil, pálida de grandes olhos azuis e cabelo quase branco, se tornou mais do que importante para mim. Foi uma amiga que amei e por quem desesperei também.

Malle é uma personagem perdida nos seus próprios cabelos e medos que não consegue controlar. Medos que crescem dentro dela como cabelos despenteados num dia de vento forte, mas que me fizeram sempre querer estar lá para a ajudar.

Quando cheguei a Bruxelas a Malle que sempre conheci e amei, estava mais caótica do que nunca. Era aquela solidão de que também eu iria sofrer, que senti de imediato nos seus olhos cansados. Mas o tempo não iria custar a passar e ela iria estar ausente no dia em que parti.

Chiang Mai estava perto e o meu coração batia mais forte. Agarrava-me a Sarah com tudo o que tinha. Os carros passavam e gritavam Sarah. As pessoas, o comboio, o avião, tudo o que me rodeava, cantava e pintava Sarah por quem tanto esperei. Não consigo explicar bem o que vi naquela rapariga de cabelos despenteados e com pouco cuidado no que vestia. Sei que vi alguém com um coração grande que tanto me ajudou nesta viagem tanto psicológicamente como monetáriamente.

Chego ao aeroporto cansado ou talvez simplesmente mais do que ansioso pelo que estava prestes a fazer. O meu peito parecia querer explodir e mesmo sem alcool sentia-me como que embriagado.

“Bom dia” – disse.

“Bom dia”, “Posso ver os seus bilhetes?” – perguntou o assistente da British Airways.

Foi aqui que senti logo alguma hostilidade no check in da British Airways. Não seria a primeira vez que me iriam tratar como sendo terrorista, talvez pelo meu aspecto árabe, ou talvez por outra razão qualquer.

“Se não se importar, vou ter que fazer uma chamada por si”. Aqui admito que entrei em pânico e honestamente o facto de saber algum alemão e daí entender algum holandês, não ajudou muito a que ficasse mais calmo, após entender as palavras “possível”, “ameaça”.

Lá estava eu. Prestes a iníciar a minha viagem e nem apenas 5m depois de chegar ao aeroporto já era considerado uma ameaça terrorista em Bruxelas. No entanto após 20m de longa espera, com o meu passaporte confiscado nos costumes, lá fui “libertado” e autorizado a prosseguir viagem.

A viagem Bruxelas-Londres-Bangkok decorreu sem grandes problemas. À parte de ter um ar condicionado sempre a funcionar, vendo-me forçado a vestir um casaco, um caschecol e a usar dois cobertores, cheguei então a BKK, no dia seguinte, cansado mas cada vez mais ansioso por ver Sarah.

2 comentários a Bélgica e o grande porquê vs o começo da viagem

  1. Olá Filipe, sou uma portuguesa que viveu em Gent de 2006 a 2010. Gent é de facto a cidade mais porreira da Bélgica e uma das mais porreiras da Europa, mas Portugal é para mim o país mais fantástico deste continente maldito em que vivemos. O primeiro mês de regresso a PT foi um pouco difícil, mas depressa me habituei (não é difícil gostar deste cantinho à beia-mar, com luz que cega) e agora já não me imagino a voltar a viver na Europa mais a norte. Adorei a Bélgica e os belgas, apaixonei-me pelo Neerlandês, língua que adoro e considero como a minha segunda língua, mas não viveria em Gent para sempre, apesar de por vezes chorar de saudades, e olha que um dia poderás tb sentir isso. Mas felicidades enquanto estiveres por aí! PS: desculpa, mas as portuguesas são mto mais bonitas do que as “incolores” belgas!

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    • Boas, Sílvia.
      Quatro anos numa cidade dá e sobra para a conhecer por dentro e por fora. Por isso, a palavra “porreira” merece uma explicação da Sílvia até porque vou em Junho rever Bruxellas, Amsterdam entre outras cidades. Por isso, Sílvia seja generosa e dê-me umas dicas. Termino dizendo-lhe que estou de acordo quanto às portuguesas. Neste aspecto temos “matéria prima” de elevado quilate……que não precisa de ser lapidado por neerlandeses.
      Saudações Sílvia
      J~L

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