Casa

Estou finalmente em Portugal. No entanto sinto-me um estranho por onde quer que ande. Não um estranho no meu país, mas um estranho no que faço, no que digo, no ar que respiro e no chão que piso. Sinto aquele nervosismo do rapaz de 10 anos que tem o seu primeiro dia de escola.

As conversas parecem diferentes, os amigos parecem distantes. Quero-me isolar como um animal que chegou agora da floresta. Nem tudo é mau. Tive tempo para rever amigos, a minha mãe e amanhã o meu pai. Tive tempo para saborear o que foi a minha vida em tempos. No entanto regressar não é mesmo o que pensava. Faz-se de dias que passam a correr e quando percebo lá passou uma semana em que quase nada aconteceu. Não tenho mais fins de tarde numa praia paradisíaca, não tenho mais aventuras fantásticas ou histórias para contar. As minhas palavras saem como que numa língua diferente que ninguém consegue compreender, mas o pior… O pior foi saber que me tornei bom a dizer adeus. Tornei-me como que um profissional a dizer adeus a pessoas que amo. Sem sentimentos, rápido e indolor. Abraço forte, segurar a mão da outra pessoa, dizer palavras que tão cedo não irão esquecer, e por fim virar costas sem olhar para trás.

Sinto-me estranho por não ter mais medo do que tinha anteriormente. Visto o meu casaco comprido e sigo em frente. Sinto-me tal como agente secreto num país estranho, tentando-me infiltrar imitando costumes e formas que fazem a cidade.

Viajar mudou quem sou e hoje percebi ao falar com Marleen, com quem viajei no início, que tudo mudou para ela também. Partilhamos agora este segredo que tão poucos sabem e poucos conseguem saber do que falo. Partilhamos este segredo que é tão só nosso e nos faz sentir sozinhos.

Mas algo sabemos e algo ambos temos a certeza.

Esta viagem não acabou e ainda há muito que ficou por contar e muito que ficou por dizer aqui.

Fiquem atentos que muitas histórias da minha viagem, e do regresso à vida normal irão continuar a surgir aqui.

4 comentários a Casa

  1. Filipe, é mesmo isso.
    Cheguei faz uma semana vinda de bastantes meses pelas américas.
    Agora uma solidão apoderou-se de mim, uma estranheza e desconsolo inexplicáveis, que ainda que já estivesse estado fora por alguns meses noutras alturas, desta custou-me mais do que sempre.
    Já não há mais encaixe como dantes.
    Todos dizem que parece que ainda ontem fui. Mas não, eu fui há muito tempo. E ainda que por cá tudo esteja na mesma, comigo não está. Vivi momentos inesquecíveis, vi paisagens inexplicáveis, e conheci pessoas encantadoras.
    Como assimilar tudo isso num novo contexto? Tão familiar mas tão distante agora daquilo que eu sou.
    Anseio por novas oportunidades como a que tive, onde se leve ao limite as palavras viver, conhecer e experienciar.

    Sem duvida que a quem regressa o que sente é transversal, mas o que cada um viu…. Enfim, só nós sabemos…
    Só nova no blog, vou tentar ver por onde andaste.

    Parabéns pela participação.

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  2. Como eu compreendo o que está a sentir…
    Adoro viajar e, embora saia sempre por pequenos períodos de tempo (o dinheiro não dá para mais…), quando regresso tenho sempre essa sensação de aterrar num lugar quase estranho.
    Mas depois, “regresso” à realidade e restam-me as lembranças dos bons momentos, das pessoas que conheci e as fotografias para recordar.
    Estou a gostar de “viajar” por aqui.
    Bjs

    Responder

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