Do caribe colombiano a Bogotá

19 de Janeiro (cont.)
Chegados a Cartagena de Índias, fomos ao hostel pousar as coisas e descansar. Limpo e com bons quartos mas nada de especial, dada a miríade de bons hostels e excelentes hotéis em Cartagena, mas é o que o nosso budget vai permitindo. Almoçámos num sítio típico e barato, com uma bebida estupenda à base de limão e cana de açúcar, e seguimos a explorar a cidade. Cartagena é, sem dúvida, muito bonita, pelo menos a parte antiga da cidade muralhada, património da UNESCO. Pefeitamente preservada, junte-se aos edifícios coloniais e ruas estreitas, uma boa conta de hotéis, restaurantes com bom aspecto, e algumas coisas mais “típicas” – os vendedores ambulantes de sumos naturais, o artesanato, as padarias com pães recheados deliciosos e afins – e está criada a receita para a “meca” turística da Colômbia. Bonita, sem dúvida, mas nas palavras do Pedro, uma “Disneylândia”, uma cidade que sofreu um processo de gentrificação, necessariamente artificial portanto, para valorizar e “fechar” aquela parte da cidade, destinando-a a uma finalidade específica. Sinal disso é o nome oficial da cidade: Distrito Turístico e Cultural de Cartagena de Índias. A verdadeira Cartagena está nos subúrbios, visível a qualquer turista de mochila às costas: suja, caótica no trânsito, viva, enfim, uma normal cidade da Colômbia. Jantámos bem, num daqueles sítios que já inclui os 10% de gorjeta na conta, e pouco depois fui, finalmente, ter uma boa noite de sono.

20 de Janeiro
Depois de mais uma rápida volta pela cidade, para café e pequeno-almoço, fizemos as malas e seguimos para a marina, onde a Bea e Tom nos tinham dito para estarmos, ao meio dia, para receber os nossos passaportes, devidamente carimbados. Esperámos, com o resto da malta, até que alguém lhes liga. Tinham-se esquecido. Quase duas horas depois da hora combinada, temos finalmente os nossos passaportes, e apanhámos um táxi para o terminal de autocarros, terrivelmente afastado do centro. Golpe de sorte, havia um autocarro para Santa Marta a partir daí a 5 minutos – o seguinte era às 19h30. Depois de 3h30 para fazer 209km, incluindo uma paragem em Barranquilla, chegámos a Santa Marta, e seguimos de colectivo para o centro. Os colectivos são uns pequenos autocarros que levam quase sempre mais pessoas do que a sua capacidade, que deve ser de umas 20 pessoas sentadas. O mais engraçado neste meio de transporte, presente em todo o país, é que não há paragens determinadas – são todas a pedido, tipo táxi, e o preço é pago à saída.
Chegámos ao hostel, o “La Brisa Loca”, que recomendo, e saímos para jantar e passear pela cidade. Vimos o centro histórico, a mistura de edifícios coloniais e modernos, a marginal, junto ao porto, com os seus bares, restaurantes, e a movida da rua – as danças quentes, a animação popular em todo o seu esplendor. Sentámo-nos num dos bares do quarteirão mais animado, a ver as gentes passar, essencialmente. Mulheres bonitas e vistosas, homens penosamente feios – é generalização, claro, mas a mais pura das verdades que resultou da minha breve observação.
21 de Janeiro
De manhã, acordei tarde, e seguimos à pressa para apanhar o colectivo que nos levaria até El Zaíno, a entrada principal do Parque Tayrona, onde passaríamos o dia. Uns 30km depois, seriam 12h30, chegámos à entrada, pagámos os cerca de 4€ de admissão, e seguimos a pé até Cañaveral, primeiro sítio interessante, pela praia e os ecohabs, umas cabanas de luxo ao estilo da região, espraiadas na floresta, com vista para o mar. Continuámos pelos trilhos do parque até Arrecifes, outra praia, e parámos para comer os famosos pães recheados que se encontram em vários sítios do parque. Estávamos preocupados pelo pouco tempo que tínhamos para fazer o percurso completo, que implicava chegar a Cabo San Juan e depois subir para Pueblito, praticamente no topo do parque, uma aldeia com ruínas pré-hispânicas; e daí descer até à saída de Calabaza, para voltar a Santa Marta. Tínhamos chegado a Arrecifes eram já quase 4 da tarde, o que significava que tínhamos mais duas horas de luz, aproximadamente. Continuámos. Chegados a Cabo San Juan, uns 12km por trilhos de bosque depois, estava exausta e sabia que não era sensato continuar, mas também não queria voltar para trás. O Ricardo era da opinião que já devíamos ter voltado para trás em Arrecifes, e estava (justamente) chateado, e o Pedro apoiava qualquer opção – parar ou seguir em frente. Nenhuma era ideal, e fazer o resto do caminho de noite era demasiado arriscado, por isso sugeri ficarmos em Cabo a dormir, e seguir para Pueblito logo de manhãzinha. Resolvemos o dissidendo, enfim, ficando em hamacas lá no parque de campismo, com vista para o mar, a uns 12€ cada. Teria sido uma excelente ideia – o sítio era maravilhoso, as vistas e a água do mar também – caso tivéssemos vindo preparados. Assim, sem sacos cama, cobertores ou casacos sequer, morremos de frio por causa da forte brisa marítima, e dormi umas 3 horas, se tanto.

22 de Janeiro
7 da manhã, arrumar as trouxas e umas bolachas de água e sal depois, partimos em direcção a Pueblito, tendo chegado umas 2 horas depois. Foi um daqueles casos em que a jornada é infinitamente mais interessante que o destino em si. Os trilhos serpenteavam por entre rios, pedras gigantescas, árvores lindíssimas, e alguns espécimes de fauna interessantes, especialmente borboletas e lagartos. Em Pueblito, as ruínas eram interessantes, mas parcas, e tentámos encontrar o trilho para a saída, em Calabaza. Perguntamos à família de indígenas, única que lá vivia, e indicaram-nos por alto, um “é por ali”. Seguimos, e uma meia hora de caminho depois, percebemos que estávamos a descer, mas na direcção do mar, ou seja, a voltar ao ponto de partida.

 Havia, pelos vistos, dois trilhos diferentes até Cabo San Juan, e sinais do caminho para Calabaza e a saída do parque, nem vê-lo. Estava preocupada por não termos ainda bilhete de autocarro para Bogotá – queríamos partir nesse dia – e as minhas pernas começavam a dar sinais de não aguentar muito mais. O Pedro e o Ricardo também estavam cansados, mas bem mais resistentes que eu, decidiram que voltariam a pé, todo o percurso do dia anterior. Era meio dia. Dividindo tarefas, decidi que faria o percurso de regresso de cavalo, e iria directa ao terminal de autocarros para comprar os bilhetes. Negociei até aos 10€ com os tratadores, e segui pelos trilhos bem mais depressa, infinitamente mais satisfeita por dar descanso às pernas. Na saída, apanhei logo o autocarro de regresso, e depois uma mota até ao terminal. As motas aqui funcionam como uma espécie de táxi – é só mandar parar, pôr o capacete, e subir para o lugar traseiro.  No terminal, havia bilhetes ainda para o das 20h30, e depois de ser aldrabada por um multibanco que cobra pela utilização mas não dá dinheiro, de procurar o mais próximo (tudo de mota), e de finalmente os ter comprados, regressei ao hostel. Descansei, tomei banho, aliviada, e uma hora depois, chegaram eles. Tinham feito o caminho bem mais rápido do que no dia anterior, sem mim a atrasá-los, e ficámos no hostel até à altura de ir apanhar o autocarro.

23 de Janeiro
18 horas de viagem, e um frio tremendo, do ar condicionado, mas ainda assim consegui dormir, aos soluços. Apenas uma paragem de manhã, para comermos, e chegámos a Bogotá pelas 3 da tarde. Sentia-me pisada; odeio viagens longas, por mais confortável que o autocarro seja. E perdi o telemóvel na viagem, durante o sono, não sei bem como, mas provavelmente caiu ao chão e alguém o apanhou, porque no fim, nem sinal dele. É nestas alturas que agradeço só comprar telemóveis baratuchos, distraída como sou.
Apanhámos logo um colectivo para La Candelaria, onde fica o hostel, o Colonial La Quinta, que se revelou uma surpresa espectacular – tranquilo, com chá, café e pequeno-almoço incluído, água quente, um quarto só para nós e um dono que havia vivido 6 anos em Lisboa. Saímos para comer e para uma volta pelo centro – o histórico, a cidade é gigante e tem vários “centros”. Muito bonito, parámos na Praça Bolívar, onde um historiador/poeta discorreu, tipo cassete, pelos factos históricos mais importantes que marcavam os edifícios vizinhos. Personagem interessante, demos-lhe uns trocos, e continuámos, passando por uma parede onde curiosamente, se encontrava gravada a esfera armilar e o escudo português, com a legenda “Convento de Cristo, Tomar, 1998”, e um painel de azulejos de Lisboa antiga, em baixo. E nem sequer era a embaixada portuguesa, ou algo do género. Totalmente por explicar. Era cedo, mas quis regressar ao hostel – estava maldisposta desde que chegámos, mas começou a agudizar-se, e passei a noite terrivelmente, entre idas à casa de banho constantes, e vomitar o jantar, a água que bebia, enfim, gastroentrite clara. Das porcarias que fui comendo, ou provavelmente das águas de torneira, dos rios de Tayrona, sei lá eu.
24 de Janeiro
Depois da noite que tinha tido, e não me sentindo melhor, fiquei no hostel, e eles saíram. Passei o dia a água, Imodium, e mais para a tarde, algum chá, que já tolerava. A fraqueza muscular era dolorosa, e a fome apertava. Espantei-me com a eficácia da entrega de medicamentos ao domicílio – foi só falar na recepção, dizer que queria Omeprazol, e cinco minutos depois estava o estafeta a chegar, cobrando apenas uns cinquenta cêntimos pela entrega. Pelas quatro da tarde, o Pedro e o Ricardo chegaram, e pela hora de jantar, já me sentindo um pouco melhor, saímos para um breve passeio. Amanhã espero já estar melhor, para ver alguma coisa da cidade, e depois partimos rumo a sul.
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2 comentários a Do caribe colombiano a Bogotá

  1. Eu trouxe, só não o tínhamos levado connosco nesse dia para o parque porque pensávamos que conseguíamos fazer tudo num dia e voltar !! :p