A 10 dias do fim

Viajo agora de Picton na ilha sul da Nova Zelândia, para Wellington na ilha norte e apenas a 10 dias de regresso a uma suposta vida normal, questiono-me sobre como vai ser voltar à sociedade. Viajei por 8 países em 3 continentes e em dois dias apenas irei partir para o meu quarto continente, e nono país, a Argentina.

Nos últimos 167 dias, vivi da minha mochila, usei havaianas para tomar banho, guardei tudo em sacos individuais, disse adeus a 20 amigos que nunca irei esquecer, 3 dos quais ainda mantenho contacto, pedi Cathy em casamento, chorei inúmeras vezes em Starbucks entre outros cafés com saudades de casa e de uma vida que ficou para trás com Sarah, perdi todo o bom senso, e toda a noção de quem era com os medicamentos contra a malária, mas no fim disto tudo vivi e sobrevivi.

Alguém disse em tempos “Make no little plans, as they have no magic to stir man’s blood”. Nunca fiz planos pequenos na minha vida e todos os desafios que tive foram sempre em grande. Em muito superados graças a amigos, graças à minha mãe e ao meu pai, graças ao que aprendi com erros que cometi e com muitas outras coisas que fui perdendo ou ganhando pelo caminho.

Entra agora alguma luz pela janela do ferry onde sigo, e penso novamente em Cathy e no meu futuro na Bélgica. Não regresso a Portugal porque não gosto do meu país, mas sim porque gosto demasiado do meu país para ver o que se passa por lá. Gostava de ver uma luta constante, uma força dentro de cada um de nós. Aquela força que nos faz viajar, que nos faz lutar e ansiar por coisas maiores. Aquela força que nos faz voar e que me fez vender tudo o que tenho e deixar tudo para trás. Quem sabe se no final apenas quero mais um desafio até porque esta sede incansável de mais e mais parece que nunca me irá deixar o corpo cansado.

Irei apenas estar uma semana em Portugal e já custa pensar no que irei fazer durante todo esse tempo. Tudo parece pequeno, inconstante, sem adrenalina. Sinto medo de ficar, de me sentar e respirar. Sinto medo de nunca mais me mexer ou correr.

Isto é o que tiro deste país que é a Nova Zelândia. Um lugar mágico onde se fazem os sonhos, um lugar que muitos não conseguem compreender nem conseguem ver. Milford Sound, Queenstown, Glaciares, Nelson, Picton e agora Wellington. Paisagens indescriptiveis, onde guardo grandes caminhadas e grandes aventuras. Espero sim que com tempo e uma casa na Bélgica, irei por fim ter tempo para escrever todas as aventuras e com mais detalhe explicar muitos dos percursos que tenho feito.

Duas pessoas por quem guardo ainda muito carinho disseram-me em tempos que sou um rapaz de grandes e muitos amores, e que não sou Português. Sou um cidadão do mundo que se adapta ao que me rodeia. Admito que apenas agora percebi qual a verdade nisto, e apenas agora percebo que o mundo é um lugar pequeno. Grande é aquele quarto que guardamos na nossa mente, com todas as coisas que queremos guardar. Tal como Stephen King disse, é um quarto pequeno com monstros e fantasmas. Por vezes lutamos com eles, e muitas das vezes eles acabam por ganhar todas as batalhas que travamos. Mas um dia percebemos que esse quarto não é assim tão pequeno mas sim maior que o mundo. É um quarto feito de passados, com espelhos de prata pendurados nas paredes que ajudámos outrora a construir. É um quarto feito de lugares mágicos desde as florestas, montanhas e lagos na Nova Zelândia, a aventuras de mota pelo Laos. É um quarto feito de despedidas, lágrimas que soltamos por amigos acabados de conhecer. É um quarto feito de coisas boas e más, sonhos e pesadelos, é um quarto que guardamos em nós e onde viajamos quando nos sentimos sós.

Percebo agora que as viagens são necessárias para construir esse quarto. Mas no fim, esse é o lugar mágico que todos temos em nós, e onde tudo pode acontecer.

19 comentários a A 10 dias do fim

  1. Olá Filipe

    Só agora descobri o teu blog, mas já fiz uma bela noitada a ler todos os teus posts.
    Adorei cada um. Ri, chorei e revivi em muitos deles.

    Parabéns por ” fugires” aos ditos relatos de viagens, e acima de tudo por teres a coragem de abrir o teu coração e a mente.

    Obrigado pela partilha . Tudo de bom

    Beijo
    Mª Ceu

    Responder
  2. Boas Filipe.

    Deves estar neste preciso momento a regressar, ou pelo menos, a fazer as malas de regresso. Foi pena, para nós leitores, teres antecipado o teu regresso. Percebo os motivos, sem dúvida, imagino o que vai aí dentro. Bem, mas se nos habitaste com este teu diário (que de diário teve muito pouco, coff coff… xD ) espero que continues a comunicar connosco, adorei acompanhar-te nesta tua viagem.

    Percebi que reconheço em ti muito do que vejo em mim (sou um jovem de 26 anos com a paixão pelo conhecimento, pelo mundo e pelas viagens… com muitas já feitas e com outras tantas por concretizar). Foi este sentimento que me fez seguir-te diariamente (sim… porque apesar de não escreveres diariamente, eu abri todos os dias este link na expectativa de ter um novo post teu) e por isso espero que não fiques por aqui!

    Ficarei a aguardar pelo teu (último?) próximo post!

    Grande abraço. JF @ Porto

    Responder
    • Olá João. Admito que é com muita emoção que leio este comentário. Quanto ao meu regresso antecipado eu não o vejo assim. Se o Público me permitir irei continuar a escrever até porque houve muito que deixei por contar. Em tanto por falta de tempo ou de energias. Quanto a último post isso não será tão cedo, até porque gostaria também de escrever um pouco sobre como é a minha nova viagem para a Bélgica que será novamente uma grande aventura.
      E tenho que dizer que me sinto orgulhoso por saber que há mais pessoas que tal como eu querem viajar pelo mundo, e que cedo perceberam o quão pequeno ele é :).

      Grande abraço

      Fil

      Responder
  3. A 10 dias do fim ou a 10 dias do início?
    Tenho a certeza que muitos gostavam de fazer o que fizeste Teixeira ou algo parecido, viajar pelo mundo, mas o receio pelo desconhecido pode bloquear muitas vezes o desejo pela aventura, além de que é necessário renunciar a muita coisa para voar assim.
    O teu mérito é demonstrar que não é impossível realizar esse sonho e que ao tornares esse sonho realidade és uma fonte de inspiração para todos.
    Pela compreensão de uma responsabilidade primordial da nossa existência neste mundo, a de querer explorar, descobrir, desfrutar, rir e partilhar.
    Um bem hajas,
    abraço

    Responder
  4. Olá Filipe, não sabe quanto estou grata pelo seu comentário!!Tenho a noção,e até muita vontade em realizar alguns sonhos….estes de cariz humanitário!É meu lema de vida neste que é já grande percurso, (ganhos e perdas)!!Já comentei que tenho dois filhos, um por sinal é também Filipe….o mais velho Ricardo,e tinha estado em Sidney, no fim de ano….quando o Filipe, já preparava sua despedida,para realizar estas novas viagens, que continuo acompanhar com muita carinho!!Fico aguardar com ansiedade mais noticias, ás vezes com a ideia, que estou acompanhar um filho…. nesta já longa, mas com muito ((conteúdo valioso)),que lhe ficará para a vida tenho a certeza!

    Beijinhos.

    Responder
    • Olá novamente Ana,

      compreendo perfeitamente o que diz e ainda gosto mais de ouvir e saber que há alguém que compreende isto que sinto quando viajo. A minha mãe penso que sente por mim o que sente pelos seus filhos quando eles viajaram para tão longe. Viajar é sempre necessário, e em breve irei ter muito mais novidades até porque este blog não irá acabar tão cedo. Muitas foram as vezes que deixei coisas por contar ou porque estive muito doente ou porque me faltava o tempo.

      Beijo

      Responder
  5. Olá Filipe!
    Apanhei este blog também já no final… Final por enquanto, pois sei que irás continuar. Tens alma não só de cidadão do mundo mas também alma de um grande pássaro com asas que nenhuma supostamente “descansada” estabilidade poderão conter.

    Neste momento escrevo-te na secretária do meu trabalho estável e o orgulho da minha família, mas que, precisamente por ser estável, não me dá o tal conforto que encontro com uma mochila às costas e um mapa na mão, numa cidade nova a prontinha a explorar, onde tudo pode acontecer. Não sei até quando aguentarei estar por aqui, e cada contrato que me renovam é para mim uma prisão, apenas me consola o fato de poder juntar mais algum dinheiro para viajar nos claustrofóbicos 24 dias úteis de férias. Dizer isto a quem quer que seja que me rodeie é passar um atestado de incompetência e de irresponsabilidade (talvez ingratidão até), ainda para mais nos tempos que correm, e por isso mesmo o digo a muito poucas pessoas.

    Continua, abre essas asas e dá a volta ao mundo com elas (qualquer dia ganho coragem e digo isso a mim própria).

    Um forte, forte abraço,
    Dora

    Responder
    • Olá Dora,

      sei perfeitamente do que fala quando fala numa prisão que por vezes é o trabalho. Daí decidi arriscar e sair. Perdi muito e agora sei que vou ter dificuldades. Mas no fundo é como Fernando Pessoa disse, “(…)as pedras no caminho guardo-as num bolso. Um dia irei construir um castelo”.
      E este blog se me deixarem não irá acabar tão cedo. Ainda tenho muitas histórias que ficaram por contar e muitas mais que irão voltar com a minha nova viagem agora pela Bélgica e pelo regresso à normalidade.

      Beijo

      Responder
  6. Olá Filipe :) apesar de estares quase a terminar esta tua viagem, só agora descobri o teu blog (vale mais tarde do que nunca). Do que já pude ler ADOREI, acho que deve ser uma experiencia fantástica e inesquecivel para ti. Estou a pensar dazer +/- uma “coisa” parecida, mas todas as pessoas mais chegadas a quem digo, dizem que sou maluca, porque tenho uma vida mais ou menos estavel(…), mas lá no fundo não me sinto realizada, pois este é m sonho que quero concretizar, posso vir a perder algumas coisas, mas nas viagens ganhamos e aprendemos muitas coisas, como ver o MUNDO com outros olhos. PARABENS pelo teu magnifico blog, faz qualquer leitor que goste de viagens sonhar. Desejo-te tudo de bom e continuação de uma boa viagem :)

    Responder
    • Olá Alexandra. Muito obrigado pelas tuas palavras. Sim é dificil quando os outros pensam que somos doidos por viajar. No entanto vejo isso como falta de sonhos e falta de coragem. Segue mesmo em frente com isso e se precisares de dicas cá estarei para isso.
      E digo-te uma coisa para terminar. Vida estável não existe. Tive tudo em tempos, inclusive uma rapariga com quem quase me casei, e perdi-a num instante. Mais vale a pena vivermos enquanto podemos para um dia podermos dizer que tivemos uma boa vida.

      Beijinho

      Responder
    • Muito obrigado Mário. São palavras assim que me dão força a cada dia e agora que estou prestes a regressar ainda mais.
      Grande grande abraço e espero que em breve possas também seguir viagem.

      Responder
  7. Confesso que acabei de tropeçar na tua história, nas tuas viagens..e senti inveja de tudo o que viste, viveste e sentiste!! Estou a ler cada post cheia de sede por mais e com pena de já saber que está prestes a terminar.. Anseio sentir essa sensação de partida/chegada e tudo que isso acarreta! Boa sorte com todos os teus sonhos!!

    Responder
  8. É Filipe!, como diz Ricardo, ao ler alguns dos seus posts, ficasse sem dúvida um palpitar de emoções….quase direi que embora este meu coração, já não seja tão jovem… quase me sinto a partilhar essas vivências!!Quando refere, que ao voltar a Portugal, para ficar por uns dias…direi que este que chamava mos,de ( paraíso à beira mar plantado)),e que nos fez sonhar e acreditar!Presentemente é mesquinho, intolerante,desumanizado…até direi um navio à deriva,só alguns piratas lá chegam para o acabar derrubar!!! Mas vamos pensar que este sol… que nos brinda sem ainda pagar imposto….nos vai aquecer, e fazer lutar!!Boa sorte, e grata por me ter feito viajar até locais… penso jamais os poderei concretizar!!

    Bom regresso!
    Ana Jorge

    Responder
    • Querida Ana. Nunca é tarde para realizar os nossos sonhos. Eu tinha tudo o que muita gente queria ter e mesmo assim larguei o que tinha para concretizar este sonho. Agora tudo vai ser difícil, pois preciso de uma casa, de um trabalho, entre outras coisas. No entanto assim sei que vivi. Perdi já muitas coisas nos últimos anos. Desde uma rapariga com quem quase casei antes desta viagem, outra durante esta viagem, e mesmo assim penso seguir em frente.
      O mundo é um lugar pequeno e todos fazemos parte dele :).

      Beijinho

      Responder
  9. Filipe tenho te acompanhado religiosamente nestes últimos meses, e realmente ao ler este post não posso deixar de ficar já nostálgico e saudoso. Inevitavelmente sentirei saudades da “adrenalina” que acabava por ter sempre que clicava neste blogue e lia um post novo, e nostálgico por tudo aquilo que me fazia sentir, crescer quiçá mudar… Aguardo com grande expectativa estes teus “últimos” posts em contexto de viagem, e por agora só me resta… agradecer-te por proporcionares-me todos estes momentos de leitura de qualidade.

    Abraço e boa sorte!
    Ricardo Oliveira

    Responder
    • Caro Ricardo. Sinto-me imensamente feliz e concretizado quando leio comentários assim. É por razões como esta que continuo a escrever e irei continuar a contar o que fiz durante estas viagens. Muitas das coisas não contei aqui, mas em breve, gostaria de compilar muitas das histórias para que todos as pudessem ler. Nem sequer falo de algo pago como um livro, até porque me dá mais prazer partilhar as histórias do que ganhar dinheiro com elas. Mas qualquer coisa irá sair concerteza.

      Abraço

      Responder

Responder a Alexandra Carreira Cancelar resposta

O seu email nunca será publicado ou partilhado.Os campos obrigatórios estão assinalados *

Podes usar estas tags e atributos de HTML:
<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>