Natal em Manly

Como já tinha escrito há alguns artigos atrás, de momento encontro-me com uma família para quem trabalho 2h por dia em troco de alojamento.

Estando o dia de Natal prestes a terminar, decidi então explicar tudo da forma mais simples possível, colocando aqui uma espécie de “timeline”, com o que foi o meu natal.

Aproveito para dizer que aqui ninguém festeja a véspera de natal, pelo que tive que improvisar umas boas batatas cozidas, e um bom peixinho cozido, à falta de bacalhau.

Dia 24

20h – percebo que a noite de natal não irá ser festejada, e decido improvisar uns pasteis de nata, batatas cozidas com peixe cozido, e uns brownies só porque até tinha aqui algum chocolate para usar.

20.30 – começo a organizar as “tropas”. Somos 5 pessoas a trabalhar para esta família. 2 franceses, 1 suíço e uma americana. Uns cortam batatas, outros preparam o peixe, outros correm para trazer alguma música de natal.

A cozinha corre num movimento demasiado rápido para o que estou habituado. A comida voa pelos nossos olhos e pelo chão da cozinha, pratos, facas, garfos entre outras coisas são trocadas a uma velocidade impressionante, quase como se de uma cozinha profissional se tratasse. Tudo com uma boa dose de espanto e satisfação.

21.30 – a comida está finalmente pronta e a mesa preparada. Simples mas eficaz, é assim que lhes explico o natal em Portugal.

23h – finalmente todos estamos satisfeitos e poucos são os que ficam para a meia noite passo alguns momentos a reflectir sobre a minha vida e sobre as coisas que fizeram este ano. Terminei o curso, trabalhei num laboratório, vendi o carro, corri já parte do mundo e cá estou eu agora já a mais de metade da minha viagem.

00h – começa a ser difícil passar isto sozinho. As coisas com Cathy não correram como eu esperava pelo que viajo novamente sozinho.  Penso sobre casa, penso sobre a vida, penso sobre tudo.

01h – olho para o ecrã do meu computador, e sinto-me cada vez mais sozinho. Por enquanto zero mensagens de amigos ou conhecidos a desejar feliz natal. Sinto-me esquecido pelos que deixei ficar em Portugal. No entanto apago esta imagem de mártir e decido tentar dormir.

02h – olho novamente para o relógio e percebo que a noite vai ser mais longa do que pensava. Penso em decisões que tenho que tomar, entre outras coisas.

Dia 25

07h – percebo que acordei 1h mais tarde do que suposto para falar com o meu pai e a minha avó. Ligo-lhe, desejo feliz natal e volto a tentar dormir.

9h – começamos o dia da melhor forma possível. Chardonay, panquecas, queijo Brie e “blue cheese”. Só este luxo acaba por ajudar mais a começar o dia.

10h – praia. É a primeira vez na vida que dou um mergulho no dia de Natal. O sol queima e as ondas ainda têm alguma dimensão. No entanto a praia está apinhada de gente que festeja o dia de natal de uma forma muito diferente do que estamos habituados.

Aqui é importante convidar amigos, e a família tem um papel não tão importante.

12h – começamos o almoço de natal. Um “pássaro” de 11kg, sai do forno e enfeita agora a mesa.

12h10 – Joe, o anfitrião decide brindar a todos nós e aos que não podem estar presentes. Por estarem longe, ou por não estarem aqui connosco. Mas mesmo os que já nos deixaram, estão algures a olhar para nós e a sorrir sabendo que pelo menos hoje estamos felizes. Penso em Sophie que nos deixou há mais de um ano e que tanto amei, e solto uma lágrima.

15h – praia novamente e assim se faz este dia.

Foi um bom dia e a gentileza de Joe e da sua família fez-me aguentar o dia. Por entre estas horas que aqui coloquei ainda tive tempo de falar com a minha mãe e alguma família, ligar a amigos e sentir-me um pouco triste. Sinto-me um adolescente com 27 anos e no fim, bem, penso que apenas começo a tomar noção do mundo que me espera. No fim não quero crescer pois o mundo é tudo o que me rodeia.

Novamente um feliz natal.

6 comentários a Natal em Manly

  1. É engraçado como às vezes somos mesmo todos diferentes, mas ainda assim todos iguais. Já explico porquê :)

    Quando vim para a Áustria já sabia que ia passar o Natal longe de casa, mas o meu lado mais frio disse-me “Pá…é só mais um dia como os outros, e o teu Natal em Portugal não costuma ser assim tão espectacular, por isso não há-de ser nada”. E realmente passei o dia de forma bastante animada. Dividimo-nos em equipas e cada equipa tratou de uma tarefa para a noite de consoada: jantar, sobremesas, aperitivos, decoração da sala de jantar, música, etc. Eu passei a tarde enfiado na cozinha a ajudar a equipa do jantar e deu-me um gozo brutal! :)

    Quando tudo estava preparado fui aperaltar-me para o jantar, peguei no telemóvel, vi que não tinha nenhuma chamada não atendida, não tinha nenhuma mensagem nem de amigos nem de família e fiquei triste porque, como tu, senti-me esquecido. E apesar de estar a ter um dia mais animado do que costumo ter em Portugal, o facto de ninguém me ter dito nada deixou-me meio abalado.

    Depois do jantar acabei por falar com quem queria, houve uma troca de presentes entre os 30 cá de casa, festa pela noite dentro, e no fim o balanço da festa foi bem positivo! :)

    Um abraço,
    Paulo

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  2. Bela “timeline” =) Não tinha ideia que na Austrália o natal não era vivido com a mesma intensidade (como não se festeja a véspera?!). Talvez isso seja explicado pelo calor que se faz. O frio, só por si, atrai as pessoas para dentro de casa, para o aconchego de uma lareira!

    Abraço, JF (Porto)

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  3. Como eu te compreendo… Só hoje celebrei o Natal com o meu colega de casa pois ele ontem estava a voar… Então decidimos encomendar um franguito de churrasco com batata frita e arroz! Não foi bem o o nosso bacalhau mas foi em boa companhia… A consoada passei-a sozinha mas com a minha gente no pensamento! E é assim que damos mais valor ainda a pequenas coisas das quais sentimos falta agora mas que damos quase como garantidas quando estamos em casa! Ainda só li este post mas compreendo-te… E em tons natalícios desejo-te felicidades na tua vida e espero ver o meu blog a chegar à fugas também!
    Feliz Natal em português :)

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