Feliz Natal

Hoje decidi fazer algo, que por sinal já tenho feito em anos passados mas sobre o qual nunca contei a ninguém. No entanto penso que aqui talvez possa motivar alguém a fazer o mesmo.

Comecei o dia por preparar o pequeno almoço (Nutella e o meu sempre presente café), e segui para Sydney. Como sempre apanhei o ferry para o centro da cidade e comecei então a pensar o que poderia fazer então este ano para trazer apenas alguma esperança ou calor para o coração de alguém.

Sentei-me no parque, bebi um café, entrei numa loja de pianos onde passei perto de 1h a tocar, e cheio de vontade e com energias renovadas lá decidi deambular pela cidade.

Foi então que vi pelas ruas da cidade algo que me deixou sem palavras e que por mais cruel que pareça, fez-me puxar da máquina fotográfica. A vida corre tão rápido em cidades como esta, que por vezes nem vemos os rostos presentes nos corpos que se amontoam nos passeios. Dezenas de sem abrigo, com barretes de pai natal, enchiam as cidades, com uns “blues” natalícios que me trouxeram a esta história.

Muitos foram os que encontrei e a quem apenas tirei uma foto, sem que qualquer palavra fosse trocada. Até que conheci chamemos-lhe “Adam”. Rosto caído no passeio, e sem me deixar perceber se a minha presença era notada ou não, lá me deixou tirar algumas fotos.

Atirei algumas moedas para a caixa que tinha à sua frente, quando dois grandes olhos azuis surgiram por detrás de uma face suja e envelhecida pelo sol, e me agradeceram e desejaram feliz natal, com uma voz doce e meiga.

Desliguei a máquina fotográfica, coloquei um joelho no chão para que o pudesse olhar nos olhos e disse – “Este natal o que é que te poderia fazer feliz? Não pode ser muito caro, e tem que ser algo simples”. De imediato pensei que iria ser comida ou algo do género, mas foi então que me surpreendeu apontando para o livro que eu carregava numa das mãos, e me disse que gostaria de ter um livro para ler já que o dinheiro que tinha gastava em comida e raramente em cigarros.

Sei que muita gente pensa já que todo o dinheiro que ele ganha vai para drogas ou algo do género, mas a verdade é que desta vez nem sequer queria pensar nisso.

Corri para a livraria mais próxima, e lá escolhi então o livro que achei ser essencial para tal pessoa. “The Catcher in the Rye” de J.D. Salinger foi então a minha escolha. Corri para a rua onde “Adam” se encontrava e lá lhe entreguei o livro. Foi então que o vi rasgar o embrulho com o prazer de uma criança que abre uma prenda de Natal após a longa espera da véspera. Algumas lágrimas começaram então a correr-lhe pela face, pelo que tudo o que lhe conseguiu sair da voz trémula pela emoção, foi um ténue “Thank you. Merry Christmas and God bless you. Thank you so much”. Este simples obrigado e que Deus me abençoe, caiu em mim de uma forma que não esperava enquanto “Adam” olhava para o livro com um sorriso na cara.

Estou longe de casa, longe da minha família, e pela primeira vez nem sequer uma simples prenda irei ter. Não pelo prazer material, mas pelo carinho que um presente por vezes pode ter. Mas a melhor prenda que podia ter neste natal não veio embrulhada em papel colorido, nem veio sequer com um recibo para trocar mais tarde caso queira.

A melhor prenda veio com aquelas palavras, por alguém que me pediu mais tarde para não usar o seu nome verdadeiro, e para apenas publicar a foto que deixo de seguida. Este sim foi o meu natal. No dia 23 de Dezembro, perto das 17h locais, numa cidade cheia de gente que apressada pelo frenesim das compras, não foi sequer capaz de assistir a um pequeno milagre de natal.

Aproveito então para desejar um feliz natal para todos os que têm seguido os artigos que escrevo e mais uma vez muito obrigado. Apago agora a luz, e continuo a ouvir “I can’t make you love me” de Bon Iver.

Amanhã é um novo dia.

 

20 comentários a Feliz Natal

  1. Olá Filipe,

    Sou mais um leitor que um comentador mas, não sei bem porquê, este post fez-me querer escrever alguma coisa, numa tentativa de tirar o chapéu à tua decisão de largar tudo e ir; agradecer as histórias, os relatos, as partilhas, as fotos. E porque este teu gesto me tocou bem fundo.

    Eu também passei o Natal longe de casa e longe dos meus, porque estou na Áustria a participar num projecto SVE (deves lembrar-te de ter dito isto numa mensagem que trocámos no fb), e pensei que tinha tido um Natal realmente diferente, mas depois de ler a tua história já não tenho tanta certeza.

    Continuação de boa viagem! :)

    Abraço,
    Paulo

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  2. Hum… mágico, Filipe! Tão simples, mas tão profundo e duplamente reconfortante…
    Apesar de acompanhar o teu blog que me encanta e me faz viajar, n esperava comentá-lo, talvez por n querer impor-me como desconhecido. Confesso q o teu gesto me tirou deste confortável refúgio, por me ter sensibilizado muito.
    Um abraço e aproveita a tua Viagem
    joão

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  3. Olá primo :)

    fazes cá falta sua “ovelha desgarrada”… Já disse à tua mãe que agora és do mundo, mas ela não quer acreditar em mim… Fico contente que estejas a gostar desta tua aventura, fico satisfeita que alguém na família tenha tido a coragem de fazê-lo.
    Não te conhecia este dom da escrita, consegues transportar-nos para o acontecimento de uma forma tão real que parece que estamos lá no momento.
    Espero que continues a ter experiências únicas e enriquecedoras e a partilhá-las com todos.

    Beijinhos da família (avó, Pedro, Aline, da tua mãe e meus… também da Lyra, Sam e Eoyin)

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  4. Filipe!
    Obrigado por esta partilha, realmente isto sim faz-nos pensar num real sentido de um Natal.
    Resta-me apenas desejar-te um Feliz Natal para ti, e espero que tudo corra bem neste dia!
    Abraço,
    Ricardo Oliveira

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  5. Olá Filipe,

    É verdade que tão pouco te conheço e muito menos pensei algum dia comentar algo do género. Mas pela primeira vez também senti necessidade de o fazer, talvez pela quadra natalicia ou talvez não…o teu gesto e as tuas palavras tocaram o meu intimo. Porque grande parte das vezes caminhamos pela rua e apenas utilizamos a visão para distinguir formas e cores e raramente olhamos para o que realmente se passa à nossa volta…Creio que foi isso que te aconteceu, não ficaste pelos olhos azuis, nem pelo rosto envelhecido…olhaste!!!
    Desejo-te um Feliz Natal e aguardo novos artigos.
    Beijinho

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    • Olá Ana,

      desde já muito obrigado. Tenho a certeza que muitas mais histórias irão acontecer e espero continuar a transmitir boas energias a quem lê estes artigos.
      Beijinho e feliz natal.

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  6. Viva Filipe,

    Obrigado por mais esta bela história que me emocionou bastante (não devia ler estas coisas no local de trabalho!). Espero que tenhas um óptimo natal (em 2006 passei o Natal a trabalhar, fora do meu país, sei o que custa). Sei que por vezes não é possível, mas devias fazer deste teu espaço um diário [um post por dia! :) ] contemplando-nos com mais histórias, fotos de locais e passeios.

    Um abraço! JF (Porto)

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    • Olá João,

      como sempre muito obrigado pelo teu comentário. Vou tentar escrever com mais frequência, e agora que irei em breve para a nova zelandia, espero dar um insight do que aconteceu em Christchurch. Vou andar por lá uns dias, e falar com algumas pessoas e no fim espero ter historias emocionantes para contar.
      Muito obrigado por tudo.

      Abraço

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  7. Olá Filipe

    Não tenho comentado mas de vez em quando lá venho eu aqui ler os últimos posts ou rever os que eventualmente li mais à pressa da última vez.
    Antes de mais parabéns pela coragem de largar tudo, ir à deriva pelo desconhecido e descobrir a essência do resto do mundo (e aqui se incluem tanto as más como as boas experiências, porque o mundo é uma mistura de tudo e mais alguma coisa). Da minha ignorância sobre a realidade (e do que já falaste sobre o assunto), digo que deve ser de facto uma descoberta mais em ti do que no mundo. E olha que explorares a si o teu eu-mesmo e ao mesmo tempo o mundo que nos rodeia tem de ser algo super enriquecedor… e assustador.. assoberbante!
    E pelo que tens dito, a viagem mudou-te de facto… “vejo-te” menos perdido, menos revoltado (repito, é uma noção que vem do que tens escrito), mais em paz contigo mesmo. E gosto disso.
    Não deixes de descrever aqui as tuas aventuras e opiniões e visões que tens tido, é muito bom poder acompanhar-te (mesmo que seja muito ao de leve, como imagino) nesta tua jornada. Continua a inspirar-nos e a despertar-nos do nosso mundo habitual (acessos ilimitados à informação, à prisão da tecnologia, trabalhos das 9h as 19h, tomando tudo por garantido quando na realidade tudo é tão fugaz como um último sopro de vida).

    E agora sobre este último post… adorei! Foi uma prenda maravilhosa a que deste. Deste algo a quem precisava realmente desse algo e recebeste um sorriso. É de facto viver o Natal na sua essência (e acho que nunca me tinha apercebido que os sem-abrigo podiam querer livros… é um novo despertar!). Parabéns de novo pela atitude =)

    Desejo-te um feliz Natal (com calor, que aqui está um frio enorme :P) e espero que todas as descobertas que fizeste e vais fazer nesta viagem te tornem cada vez mais feliz em ti.

    Beijinhos***

    PS: Segundo os meus tios e primas que moram na Austrália, há certas coisas nos supermercados (como os cereais, se não me engano) que são praticamente o mesmo preço que cá em Portugal… pode ser que consigas descobrir coisas a preços menos “caros” 😉

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    • Muito obrigado pelas palavras Andreia.
      As coisas estão a mudar e esta viagem foi o suficiente para isso acontecer. Vamos lá ver qual será o meu próximo passo e se tudo correr bem vou ter novidades em breve.

      Muito obrigado por tudo.

      Beijinhos

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  8. Lendo seu texto lembro de um trecho do texto que escrevi para postar em meu blog na noite natalina. O trecho diz mais ou menos o seguinte:

    “O consumismo desenfreado e a extrema valorização do “ter” em relação ao “ser” estão aniquilando de vez uma das poucas verdades natalinas, ou seja, sua magia. E enquanto acreditarmos que os presentes mais valiosos estarão sob uma árvore de natal, nós estaremos sempre condenados a viver como se fossemos uma simples mercadoria.”

    Bom texto e belo gesto. Parabéns Filipe!

    Grande abraço e tudo de bom nessa sua jornada.

    Rafael

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    • Grande amigo Rafael :),

      Esse texto que colocaste aqui é simplesmente perfeito para o que aconteceu. O meu gesto, pouco mais foi do que tentar dar algo bom a alguém.

      Mais uma vez obrigado e um grande abraço.

      Fil

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  9. É verdade…os verdadeiros presentes não se vêem, sentem-se. E por isso é que aqui sempre se diz que o Natal já não é o que era. As pessoas discutem, não se entendem, são egoístas, esforçam-se demasiado para agradar ou desagradar. Há um sem fim de incompreensão, paciência, a partilha não existe, a comunicação é pobre. Fico triste por um lado por estares aí tão sozinho, sei o que sentes, mas também entendo perfeitamente essa felicidade interior, porque estás a crescer e a entender o mundo de uma forma que te mudará para sempre. Que te fará voltar e dar de ti genuinamente e te fará ser um exemplo para quem estará ao teu lado no futuro.
    Não estás sozinho porque estás preenchido, e acredita, mesmo apenas num blog, estás a partilhar isso que sentes e a registar para a eternidade, até mesmo para ti num dia mais tarde que te venhas a esquecer com o tempo e a rotina mundana.
    Obrigada por dares este bocadinho de ti. Fiquei emocionada e feliz por ti (ok também com alguma inveja por estares a viajar) mas também me sinto a valorizar mais o que tenho…

    Beijinhos, Um Feliz Natal muiiitooo cheio de surpresas boas e abraços calorosos! :)***

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    • Olá Lia,

      felizmente são comentários assim que me fazem perceber que não estou sozinho aqui. Neste natal irei pelo menos estar com uma família e até me proporcionaram uma manhã com champanhe e muitas musicas de natal.
      É bom saber que algumas pessoas aproveitam este natal de forma diferente.

      Beijinho

      Responder

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