Os dias que passam

Tenho tentado falar sobre viagens e acabo sempre por falar apenas do que é viajar. Antes de começar esta viagem há 108 dias atrás, raros foram os momentos em que estive totalmente sozinho. Contava com amigos, família, dinheiro na conta e um carro para me deslocar.

Agora conto apenas comigo mesmo e pouco mais. Antes de partir, decidi reunir grande parte dos meus amigos e lá me despedi de grande maioria, com o que foi talvez demasiada cerveja, bom vinho do porto, pizzas e os maravilhosos brownies com que normalmente presenteio os meus convidados. Agora resta pouco mais do que um conjunto de fotos, e muitas mensagens que me deixaram num pequeno bloco de notas que guardo para os meus couchsurfers. As mensagens tornaram-se ainda mais escassas com o tempo, e sei que não se deve a me terem esquecido, mas porque todos têm uma vida bastante distante da que vivo agora. Separam-me de Portugal 11h de diferença e 24h de voo até Lisboa.

No fim pouco mudou lá longe no meu país e no que deixei para trás. Apenas mantenho contacto com o meu fiel amigo Ricardo e Nuno gémeo (como os amigos o chamam), e com a sempre presente Inês. Os restantes guardo-os no coração e claro lá longe noutros países existirá sempre Amanda, grande amiga e a minha alma gémea. São estas as coisas que deixei para trás e de que sinto falta.

Lá longe nada mudou. A minha mãe continua a passear a nossa cadela Lira, e a aturar os nossos gatos Sam e Eowin. Em Aveiro, o meu pai continua a adormecer no sofá, depois de jantar, enquanto vê séries na televisão. Lá longe, distante do que ficou para trás, este é o quadro que pinto para um dia que passo sozinho no meio de 50000 pessoas. Estou agora em Sydney num festival de canções de Natal. Não conheço ninguém, estou cansado, e sinto aquela rigidez no maxilar, característica em tantos mochileiros que viajam sozinhos.

Depois de me despedir de Catherine, tudo ficou cinza. O tempo, as horas, as palavras que deixo no meu caderno.

Eram 4 da manhã quando acordei para a levar ao aeroporto em Melbourne. Apressadamente, dou-lhe um beijo inesperadamente aceite, visto qualquer coisa, esquecendo o frio e a chuva lá fora e sigo com ela pelas ruas de uma cidade ainda a dormir. Pela frente estão 4km a pé, no que foram os 45m da minha vida, em que me senti mais miserável. Corpo gelado, perto de entrar em hipotermia, seguido de uma viagem de autocarro complicada o suficiente, até que um sorriso e um beijo curaram todas as maleitas de que sofria.

E assim a deixei. Sem saber se a voltaria a ver, aguardando por um dia em que a irei esperar novamente ao aeroporto sem sequer saber se ela lá irá estar, desta vez com Sydney como cenário.

Após estes dias, decidi então alugar um carro e parti com mais duas mochileiras que conheci pelo caminho, para Sydney. Esperavam-me 2000km de estrada e muitas aventuras. Infelizmente percebi que com uma delas pouco iria conseguir aproveitar da viagem, mas pelo que já vi, certas pessoas não foram feitas para viajar. A viagem pela costa tem pouco para ser dito. Praias imensas, cangurus, Koalas e tantos outros animais que constroem uma Austrália que se perde em si mesma.

É um país imenso com pessoas extremamente simpáticas e no fim é difícil querer partir. Todos tentam fazer com que nos sintamos em casa e isso é o que tem feito os meus dias. Agora é tempo de fechar o meu caderno e começar então a aproveitar o concerto que vejo no parque “The Domain” em Sydney.

Amanhã será mais um dia sem ela, mas mais um dia em mim.

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12 comentários a Os dias que passam

  1. Olá Filipe.

    Certamente terás muitas histórias para nos contar, pois sei que cada detalhe tem um sentido especial em tudo o que tu fazes e sentes.

    Podia alongar-me e dizer onde estávamos há um ano atrás e para o que nos preparávamos mas tu sabes bem. A tua vida será sempre levada pela paixão mesmo que seja pelas coisas mais simples.

    Um ditado “Australiano”: O boomerang vai…, por vezes pensamos que pode não voltar…, mas só temos de esperar pacientemente pelo seu retorno. Nada acontece instantaneamente.

    A determinação e perseverança vencerá.

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  2. Ola Filipe!
    Tudo bem? Então já decidiste onde vais passar o ano novo? Vai ser em sidney? 😛 Se precisares que te mande as passas e o bacalhau avisa lol
    Leio e apercebo-me com bastante satisfação de uma grande diferença dos teus posts na mudança de continentes… é caso para dizer que a austrália está te a fazer bem. Continua por favor a manter-nos informado das tuas aventuras. Um abraço.

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    • Olá Ricardo, desde já obrigado por leres o meu blog. O fim de ano sim vai ser em Sydney e sem passas até porque sou alérgico e sem bacalhau já que por cá não há nada disso. Sinto-me feliz aqui se bem que o facto de ser tão caro não ajuda muito. Já agora um feliz natal e um bom ano novo e publicidade à parte continua a seguir o blog que vou ter algumas novidades muito em breve :).

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      • Olá Filipe!
        Comecei a ler hoje o teu blog e estou encantada.
        Admiro a tua coragem e força de vontade para fazeres esta viagem!
        Em relação ao bacalhau, como disse o Claudio, podes sempre ir a um clube português que eles saberão indicar, no entanto morei em Sydney alguns anos quando era mais nova, e lembro-me dos meus pais o comprarem num talho português em Petersham (juntamente com o nestum lol ).
        As praias que mais gostava eram a de Coogee (Randwick) pois era a mais próxima de casa e onde iamos mais. Mas a de Bondi também é muito boa e conhecida pelos surfistas. A praia de Bronte era conhecida na altura pela praia dos portugueses, pois juntam-se muito lá. Não sei se ainda é assim, pois já lá vão quase 20 anos desde que nos viemos embora.
        Tive a sorte de sair por uns anos de Portugal e ganhei uma outra perspectiva de vida, outra maneira de estar. Aprendi coisas novas na Austrália, custumes diferentes. São um povo tão diferente do Português, que anda sempre stressado de um lado para o outro. Lembro-me que o tempo aí passava mais lentamente, tinha tempo para fazer tudo. Lembro-me da simpatia das pessoas, da sua vontade de ajudar.
        Voltei para Portugal mas deixei lá grandes amizades que hoje, graças à internet, ainda mantenho.
        Lendo os teus posts, ainda mais os de Australia, dá-me vontade de lá voltar… reviver tudo novamente, desta vez como adulta!
        Aproveitar ao máximo o que tem para dar!
        Obrigada por partilhares as tuas experiências!

        Espero que o resto da viagem te corra bem!
        Boa sorte e um bom Ano Novo!

        PS – O fogo de artifício visto de Sydney Harbour custuma ser “breath taking”!

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  3. Podes crer que não te esquecemos, tens aqui um leitor atento das tuas publicações! Olha, e parabéns pelas fotos, estão excelentes!
    Aguardo por mais relatos teus, grande abraço

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    • Grande amigo Coelho. Muito muito obrigado por seguires o blog. Como sempre conto contigo para o melhor e para o pior, mas fico contente que estejas a seguir esta grande viagem que estou a fazer.
      Abraço.

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  4. Meu querido Filipe,

    sendo eu ou não a Inês a quem te referes, não me canso de te dizer o quão orgulhoso me deixas pela tua ousadia. Gostava de ser como tu. De sair da tua zona de conforto e de percorrer imensidões até então desconhecidas.
    A Catherine deixou-te, mas encontra-se algures por aí. Tens tempo para a encontrar. Até lá, apaixona-te pelas memórias que ela te deixou :)

    beijinho grande

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    • Ohhhh a minha querida Inês.
      Todos podemos mudar e tu sabes isso. Zona de conforto nunca tive aí em Portugal. A única coisa que fiz foi ser parvo ao ponto de começar a viajar, mas ganhei muito com isto. Infelizmente não conta para o meu CV.
      Beijinho grande e vamos todos torcer para que a Catherine lá no fim fique comigo :).

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  5. É bom estar apaixonado. Mas o amor também pode envenenar se não tomado em doses controladas. Este texto está fora desta prescrição e pode-se tomar em qualquer dose, não por falta de amor, nem de paixão, mas porque tem coração.
    Alberto Teixeira

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    • O problema é que o amor vem sempre em doses excessivas. No entanto tudo o que faço na vida faço com paixão. Dou tudo de mim pelo que faço graças a alguém que sempre me ensinou que tudo tem que ser feito assim. Tal como tu, sempre dei o meu melhor e sempre com paixão.
      Beijo

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  6. Percorremos kilómetros de estrada e kilómetros de tempo. No final, trocávamos tudo por mais um momento com aquela pessoa…Já nada parece fazer sentido, já tudo parece uma ilusão, um sonho…a cada instante desejamos acordar e sentir novamente o mundo a desaparecer por entre um olhar!

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