América Central: Éden em Semuc Champey

Longa jornada até ao paraíso de Semuc Champey

Repetir caminhos não agrada. Mesmo que seja para optimizar o dia. A jornada. Foi por isso que a opção rumo ao sonhado Semuc Champey recaiu no caminho mais improvável. Mais longo e difícil. O que nos obrigaria a um dia completo de viagem. Desconhecendo se teríamos as ligações desejadas. Seguiríamos por caminhos ainda mais remotos. Sem certeza de êxito.

Às 08:00 já a caminho de Huehuetenango. A norte. Primeiro, à larga. Depois, novamente entalados. Nada como o conforto do calor humano. Que na Guatemala é imenso.

Sem sabermos, prendiam aqui, neste dia, a sobrinha da ex-primeira dama do país. Acusação de tráfico de influências. Parece que, por cá, no dito terceiro mundo, esse crime existe. E que a justiça vai fazendo algumas coisas para o punir…

Em Huehuetenango, apenas tempo de comprar fruta. A partir daqui, já não haveria autocarros. Apenas os “colectivos” de 10 lugares. Que regularmente levam mais do dobro das pessoas. Quantas delas contorcidas. Verdadeiras malabaristas. Para piorar o cenário, em estradas nem sempre asfaltadas. E com demasiados troços vitimas de derrocadas. Algumas montanhas exibiam vincadas cicatrizes no dorso.

Aguacatán e Sacapulas foram as mudanças seguintes. Sempre a bom ritmo. Sair de um veículo e entrar noutro. E um xixi de fugida. Mesmo em locais esquecidos pela civilização, os transportes funcionam na perfeição. Fernanda diz que nos veio da sorte. Ainda não sabia que ela, sim, era a bafejada pelos deuses. Em Uspatán, em nova mudança, começamos a perceber que não iríamos cumprir o objectivo do dia.

Chegamos para rumar a Coban. O motorista faz uns acertos quanto aos lugares dos passageiros. Instala-nos aos quatro no último banco. Há quem se queixe. Reclame. Pelo tratamento alegadamente preferencial que nos deram. Quando pagamos o mesmo. Ao condutor, voluntariamo-nos para a solução que desejarem. Dono do veículo diz que nada será mudado. Há quem persista nos desabafos. Até ao momento em que notam que percebemos e falamos a sua língua.

Em Coban a noite já é cerrada. E, também isso, deixou de haver transporte para Lanquin. Era oficial: há que esperar pela manhã seguinte. Seriam mais duas horas e meia até ao local desejado. Mais uma vez, improvisar estadia.

Semuc Champey: Turquesa celestial em alta montanha

Tinham-nos garantido que às 06:00 o transporte era directo até Semuc Champey. Madrugamos. Novamente. As indicações quanto ao local para apanhar o autocarro não eram precisas. E não havia a quem perguntar na rua. Os donos de um colectivo garantem-nos que ninguém faz o serviço directo. Que eles são os melhores. Até Lanquin. São 06:00. Tudo deserto. Não temos alternativa…

Cedo percebemos que vamos parar em todo o lugar onde houvesse cliente. À pinha, com gente contorcida em pé, avançamos lentamente para Lanquin. Os últimos 11 quilómetros sem asfalto, acidentados e sinuosos. Iam ser duros. Penosos. E foram.

Pareceu um tiro. Mas foi apenas um pneu que rebentou. Uma eternidade para o mudar. Prontos para partir. Nem um quilómetro percorrido, novo estrondo. Paramos. Mais uma roda para substituir. Decidimos seguir a pé e ser apanhados mais à frente.

Minutos depois, o ruído de uma pic up. Levantamos o braço. Chegamos a Lanquin com o vento a moldar-nos o rosto. Brilho nos olhos. Sorrisos mudos. Fantásticas paisagens desfilavam perante a nossa admiração.

Festa à nossa espera. Sem o sabermos, chegamos no mais importante dia do ano. As festas de San Lanquin. Hoje é dia de festival etnográfico. Danças milenares com trajes de tempos remotos. Surpresa, apenas por não vermos mais viajantes. Por não vermos turistas. Já deveriam ter subido para Semuc Champey.

Uma hora depois, partimos para o Parque Nacional famoso pelas suas piscinas naturais do mais turquesa dos azuis. Começámos por exigente e íngreme subida. Primeiro queríamos ver a fotografia do cenário. Dirigimo-nos ao miradouro.

O Rio Cahabón mergulha nas rochas, em fúria desaparece da nossa vista, e à tona fica o paraíso. De vários tons turquesa.

Com olhos rasgados de sorrisos, vamos de piscina em piscina. Sentados,  deixamos os peixinhos beijar-nos os pés. Alimentar-se da pele cansada. Purificam-nos. Relaxam-nos.

Boiamos. Apenas o som difuso de pássaros. Igualmente submersa em prazer, a audição capta ainda o som da cristalina agua a chegar, a partir em cascatas de algodão.

O sol esgueira-se entre a folhagem. Flashes de luz que não chegam a ‘cegar’. Apenas a acariciar-nos o rosto.

Tudo é fresco. Vivo. Sereno e poderoso. Um local de eleição.

Cada minuto de sono perdido, todas as horas de ‘sofrimento’ em transportes apinhados, a privação do conforto do estaticismo foram devidamente recompensados por uma tarde que também marcará esta estimulante jornada pela América Central.

No regresso a Lanquin, ficamos a perceber que tínhamos falhado o último transporte. Sílvia, uma cativante viúva de 45 anos, perdida neste ermo, aprecia a nossa simpatia e gentileza desinteressada. Minutos mais tarde, quando todos percebemos que estávamos em sarilhos, providencia uma solução. Liga a este e aquele. Parece que há um grupo ainda a visitar as grutas das redondezas. Chama um tuc tuc. Chegamos a tempo. prontos para mais uma viagem que, desta vez, as memórias frescas não deixariam que fosse tão penosa.

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Rui Barbosa Batista relata no blogue Correr Mundo a sua viagem pela América Central ao longo de Novembro/Dezembro. No site www.bornfreee.com  pode aceder a outros rela­tos e ima­gens sobre a viagem.

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