América Central: Na fronteira…

Hábitos de “pendura”

Madrugar. Pequeno almoço ainda à luz artificial. Ao ar livre. “Até breve”. Caminhar com malas. Primeiro autocarro. Mudança de veículo. Literalmente, sair de um e entrar noutro já em andamento. Fronteira. Umas três horas de viagem.

Fim de linha em local ainda mais caótico do que o normal. Vários veículos, estilo riquexó, disponíveis para nos transportar. “São três quilómetros”, assegura um. “Não podem fazer seis quilómetros a pé”, garantia outro. Facilmente percebemos que a distância até cruzar as zonas migratórias não deveria passar dos 500 metros.

Saída pacífica da Nicarágua. Entrada menos prática nas Honduras. Funcionários da “emigracion” almoçavam. E as pessoas, acostumadas, iam fazendo fila. Num verdadeiro estaleiro. Nunca uma fronteira deve ter concentrado tantas obras e desorganização. Como habitual, os cambistas tentavam acumular ganhos com os incautos como nós.

Dia a complicar-se. Queremos ir para El Salvador, mas temos de passar por quase 100 quilómetros de território das Honduras. Duas fronteiras para nos atrasar.

Primeira cumprida. Mas já não há transporte directo para a próxima. Temos de fazer duas carreiras de autocarro, informam-nos os locais que ganhariam com essa nossa escolha. Entretanto alguém nos diz que, afinal, já há transporte directo. Pedem-nos exorbitância. Recusamos.

Esticamos a mão ao primeiro TIR. Rony pára. A nossa sorte continuou…

 

“Super” Rony

“Como?? Todos a rondar os 40 anos e ninguém casado?? E sem filhos??”, disparou um incrédulo Rony, minutos após estarmos confortavelmente instalados no seu TIR.

Contamos-lhe como funcionam as coisas em Portugal. Que muita gente está a tomar essa opção de vida. Que a sociedade mudou.

“Sabem quantos filhos tenho? Adivinhem!”, desafiou.

Três? Cinco? Sete?

“Nove! Tenho 42 anos e nove filhos! Sabem de quantas mulheres, sabem? De três mulheres diferentes”, disse, com um sorriso tão inchado quanto o seu orgulho.

Sem se deter: “Sim, estou casado com a primeira. Com quem tenho quatro filhos. Depois distrai-me e fiz três filhos a uma mulher e dois a uma nicaraguense”.

Ficamos sem reacção.

“Foram dois períodos em que trabalhei uns tempos fora de casa”, justificou. Como se a desculpa fosse perfeitamente plausível.

“Como te permite a tua mulher ter mais filhos fora do casamento…?”. Nem sabíamos bem o que perguntar.

“Não teve remédio. Amochou. Importante é que tenha comida na mesa para ela e os meus filhos. Mas ficou furiosa comigo, claro. É muito ciumenta”, contou.

Rony diz conhecer as mulheres como poucos. E é assim que vai levando a vida.

“Elas são muito vaidosas. Podem estar furiosas connosco, mas levamos-lhes uns brincos ou algo assim e tudo passa”.

O nosso motorista de ocasião diz, com estranha vaidade, que tentou furtar-se à pensão de alimentos aos filhos. Mas que não foi possível. Uma pena…

Rony parou no tempo. Vive num conceito de mundo que nunca deveria ter existido. Num modelo que apenas pode persistir em países (e mentes) sub-desenvolvidos.

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Rui Barbosa Batista relata no blogue Correr Mundo a sua viagem pela América Central ao longo de Novembro/Dezembro. No site www.bornfreee.com  pode aceder a outros rela­tos e ima­gens sobre a viagem.

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