América Central: Colonial Granada

GRANADA

Foi bela e altiva. Esplendorosa. Rica como nenhuma, na América Central. Viveu séculos de apogeu. A loucura de um aventureiro americano quase a reduziu a cinzas. Não a podendo manter sob o seu jugo, preferiu mandá-la queimar. Estávamos no século XIX.

O tempo correu. Lentamente. Mais de um século se passou. Sem pressas. Limparam-se cinzas, ficaram cicatrizes. Pouco se reconstruiu. Agora, Granada está a ser reencontrada. Libertadas as suas cores…

Em La Calzada, sobram sinais de um futuro que não se quer assim. Eu não quero, embora isso nada importe. A mais turística, cativante e “limpa” das ruas, tem demasiado dedo “gringo”. Ou seja, pouco de original. Cada vez menos de genuíno.

Muitos estrangeiros a investir em restaurantes. E bares. Promovem a cidade não pelo que é, pelo que tem de melhor e original, mas dando-lhe um cunho mais internacional e sofisticado na pobre América Central.

A caótica cidade está polvilhada de interessantes vestígios coloniais. E sobra-lhe vida. Cor. Na arquitectura. Nas lendas. Nos vendedores de rua…

 

Presidencial Esfinge

Não poderíamos ter escolhido melhor a estadia em Granada. “Luxos” presidenciais. A Esfinge, que agora alberga turistas, já foi casa presidencial. Foi mandada construir pelo general Terencio Sierra, antiga figura mais importante das… Honduras.

Fugiu do país. Trouxe muito, muito ouro. Mandou construir a casa. Nela morreu. Foi comprada por Andres Murillo, vice-presidente do General Somosa, que foi presidente da Nicarágua.

Célia e seu marido são agora os proprietários. Ele 80. Ela 73. A herança de família – a mãe dele era irmã de Murillo –  bafejou-os com este magnífico edifício colonial, erigido em 1903.

“Um tesouro destes chega-nos às mãos e agora não o poderemos manter na família”, revela Célia, em lamento resignado.

A filha casou com um chinês. Foi viver para Hong Kong. O filho varão está nos Estados Unidos. “E de lá não sai”, acrescenta, com ar ainda mais desalentado.

A placa “vende-se” no exterior do orgulhoso edifício amarelo não mostra a beleza de tudo o que encerra. Nem conta as inúmeras histórias vividas neste espaço privilegiado. Uma doce conspiração. Mesmo em frente ao histórico e caótico mercado.

“Diz-se que o antigo presidente enterrou aqui muito ouro. Mas preferimos nem saber. Já cá vieram várias empresas que queriam fazer testes, mas não deixamos. Se encontrarem ouro, vai todo para o Estado. Se não encontrarem, ficamos com a casa toda esburacada”, justifica Célia.

Agora a casa esta a venda por cerca de 500 000 euros. O edifício, os jardins com estátuas precolumbinas, o espaço, a localização fazem com que este negócio seja uma “pechincha”.

 

Imagine

Não sabemos o seu nome. Apenas que se fartou da agitada vida que levava. Há dois anos disse “Bye Bye” à sua New York. Trocou a azáfama da cidade que nunca dorme pela pacatez de Granada.

É um entre dezenas de estrangeiros que descobriram esta pérola colonial nas margens do lago Nicarágua. Percebeu rapidamente o seu potencial.

Recuperou e exponenciou a beleza do espaço com traços históricos. Polvilhou as paredes com sóbrias referências aos Beatles. Inspirou-se neles e assim nasceu o Imagine, um dos bares mais charmosos que encontramos.

Durante a tarde prometeu-nos música ao vivo. À noite, após faustoso jantar, formos confirmar.

Ambiente intimista. Bebidas ‘especiais’ da casa. Além de músico, é ‘chef’ de cozinha. Gerente, músico e cozinheiro. E um ar invejavelmente feliz.

A sua viola acompanhada de um baixo. Apenas. E bastou. Os sons dançaram em coreografias de magia. Em versões muito pessoais – e surpreendentes – de músicas conhecidas. A noite desfilou sem tempo…

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Rui Barbosa Batista relata no blogue Correr Mundo a sua viagem pela América Central ao longo de Novembro/Dezembro. No site www.bornfreee.com  pode aceder a outros rela­tos e ima­gens sobre a viagem.

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