Fernanda & Pedro Martinez

No meio da multidão mestiça, pele branca, olhos verdes e cabelo claro chamam a atenção. Tal como o seu olhar a percorrer avidamente cada janela do autocarro. Tardou mais do que nós a perceber que o seu calvário tinha terminado.

“Olá Rui, tudo bem?”, disse Fernanda, com as expressões do rosto aliviadas. Apresentei-lhe os meus amigos logo ali, na amálgama de gente a tentar resgatar a mala.
Esperava-nos há duas horas na fronteira. Também tinha chegado de véspera, mas para Libéria. A norte. Depois de vários dias em Nova Iorque. Adiantou serviço e guiou-nos à emigração.

Fernanda ainda não sabia. Mesmo que involuntariamente, fez-nos quebrar uma regra de ouro. Lá chegaremos… Uma conversa fortuita e esta palmelense residente em Lisboa juntou-se ao trio que há uma década viaja junto. Depois de madrugarmos (05:30), seis horas de sauna em semi-moderno autocarro terminaram na fronteira do seu sorriso. Que se transformou em indignação minutos depois. Na véspera, uma alemã disse-lhe ter pago oito dólares para entrar na Nicarágua. E quatro para sair. De uma só vez, levaram-nos os 12. E prometerem atacar de novo ao sairmos do país.

Ao trocarmos de via na fronteira, para rumarmos a Norte, exigiam-nos um dólar de “imposto municipal”. Mal tínhamos deixado 12 em circunstâncias duvidosas, já queriam mais um. Não está em causa o montante, mas o princípio.
“Na minha terra chama-se extorsão. Um roubo”, disse, ao grupo organizado e de ar pouco confiável. Os “cobradores” não estavam identificados, apenas davam uma “rifa” em troca. E com a policia local a tentar convencer-nos, não a impor. Aos locais nada pediam.
Plano B. Virar costas, caminhar contra o sentido do trânsito que abandona a Nicarágua até terminara fronteira. Ultima vistoria aos passaportes e lá volta a historinha do dólar. Impávidos e sempre serenos, continuamos a andar.
Antes, pediram-nos 10 dólares por pessoa para viagem de trinta e tal quilómetros de táxi até Rivas/San Jorge. Baixariam para os cinco. Depois já eram 10 pelo transporte dos quatro.Já tínhamos abandonado a fronteira e seguíamos sós 200/300 metros a frente pela pan-americana. Já com poucas alternativas, acedemos a negociar com um dos taxistas. Ate que surgiu Pedro Martinez.

“Para onde vão? Rivas? Subam, levo-vos lá”, desafiou, ao alto do seu TIR. Em menos de dois minutos, malas, mochilas e o novo quarteto já avançava no imponente veículo.
Era guatemalteco e cruzava toda a América Central três vezes por mês. “Não gosto da forma como em todas as fronteiras se tentam aproveitar dos turistas. Por isso parei”, justificou.
Com apenas 38 anos, já com três filhos. Vinte, sete e três anos, respectivamente. 43, 41, 40 e 37 são as nossas idades. Nenhum casado. Sem descendência. Pedro surpreso.
Avisa-nos dos perigos. Aconselha-nos locais a visitar. Terminamos em restaurante de vão de estrada. A partilhar uma cerveja. Trocamos contactos. Ficou a saber que protagonizara o primeiro episódio estimulante da nossa viagem que agora começa.

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Rui Barbosa Batista relata no blogue Correr Mundo a sua viagem pela América Central ao longo de Novembro/Dezembro. No site www.bornfreee.com  pode aceder a outros rela­tos e ima­gens sobre a viagem.

 

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