E de súbito, em Cabo Verde, solta-se o grito: Santo Antão é lindo

Porto Novo – Ilha de Santo Antão, poucos minutos passam das oito horas da manhã quando eu e a minha colega de viagem, Sónia, chegamos a uma das ilhas que mais curiosidade nos tem suscitado ao longo dos anos. Por outro lado, Correia, um pacato sexagenário nascido na ilha de Santiago, por força do trabalho, visita regularmente todas as vilas e ribeiras de Santo Antão. Firmina, apesar de residir no Mindelo, foi professora numa pequena vila do interior de Santo Antão. Por fim, o incrivelmente bem-disposto Mota, que me mostrava fotos de uma caminhada que havia realizado no fim-de-semana anterior na zona de Ribeira Grande – mas, quando lhe formulei o convite, mesmo tendo lá estado no fim de semana anterior, não hesitou em aceitar.

Cova do Paúl

Cova do Paúl

A primeira amarra é lançada para terra e a porta traseira prepara-se para abrir. Por momentos, confesso que me senti bem perto de casa – qualquer semelhança com o Cais das Colunas em plena hora de ponta, não é coincidência, mas sim a realidade.

Numa saída um tanto ou quanto atribulada, a correria dos que chegam mistura-se com a dos que partem, mas são os que entram e não pretendem embarcar, os verdadeiros causadores do caos que por momentos se instala: “Ponta do Sol Senhor?”, “Ribeira do Paul, alguém”, “Mi tem serviço di táxi!”. Todas as tentativas são válidas na angariação de novos clientes, até mesmo sermos empurrados literalmente para dentro de uma “Hiace” (nome dado a todos os veículos de transporte com 9 lugares em Cabo Verde). Com algum esforço e sempre com o “Não, obrigado” na ponta da língua, aceleramos o passo e conseguimos deixar o Porto.

Primeira paragem: Pequeno-almoço e escolha dos locais a visitar. A parte nutricional é de extrema importância! Afinal saí da cama por volta das cinco da manhã e optei por manter o estômago vazio, numa tentativa quase frustrada de dificultar a tarefa ao enjoo. Atento às necessidades energéticas do longo dia que me esperava e a já notória falta de nutrientes, forrei o estômago com uma farta cachupa pobre (feijão, milho e chouriço) e um enorme “balde” de café da Ilha do Fogo.

Estrada da Corda

Estrada da Corda

Relativamente ao locais a visitar, a tarefa não se revela complicada tendo em conta que a zona nordeste concentra grande parte das povoações e ribeiras, algo facilmente explicável por ser a única zona verde e húmida, que contrasta com o resto da ilha, marcadamente castanha e árida. Optámos pelo percurso pela “Estrada da Corda”, uma estrada empedrada de basalto, construída nos anos 70.

Serra acima, as povoações vão sendo cada vez mais escassas, o isolamento bastante notório e o verde vai assumindo a sua posição como característica principal da paisagem. O jipe abranda e o Correia confessa nunca ficar indiferente à beleza do local onde acabávamos de chegar. Aponta o dedo na direcção de um gigantesco buraco branco e exclama: “Mais logo iremos estar ali em baixo”. Um manto branco move-se lentamente, cobrindo harmoniosamente um gigantesco buraco natural e permitindo por vezes que os campos verdejantes da Ribeira do Paul surjam por entre a nebulosidade.

Aproveitamos para nos refrescar com uma das muitas cervejas que nos acompanham na geleira e regressamos novamente à estrada, avançando mais alguns quilómetros, até ao momento em que somos surpreendidos pela vila de Esponjeiro. A estrada atravessa literalmente a vila e não havendo muito para fazer, os seus habitantes concentram-se junto à estrada. Paramos com o objectivo de conversar um pouco com os habitantes, o que acabou por ser uma sorte para a dona do único negócio local, que acabou assim por vender todos os seus queijos.

Após reforçarmos o estômago com um pouco do queijo que havíamos comprado, seguimos caminho para não muito longe dali nos cruzarmos com um grupo de caminhantes. A beleza natural, os trilhos e a temperatura amena acabam por ser factores chave na escolha deste local por trekkers de todo o mundo. Oferecemos boleia, mas estes apressaram-se a agradecer explicando que o seu objectivo consiste nas caminhadas, pelo que não faria sentido aceitar.

Delgadinho, Estrada da Corda

Delgadinho, Estrada da Corda

Alguns quilómetros depois e sensivelmente a meio do percurso, somos surpreendidos por um dos pontos mais altos e emblemáticos desta estrada. “Delgadinho”, um caminho esguio erguido através da sobreposição de pequenas rochas, numa estrutura em tudo similar a um castelo de cartas. Ribeira da Torre de um lado, Ribeira Grande do outro e apenas um pequeno muro, com não mais de meio metro de altura, nos impede de uma vertiginosa queda.

Sinto que estou perante uma paisagem única e de uma beleza tremenda. É certo que não sou conhecedor de todos os recantos naturais que o planeta tem para oferecer, mas não acredito que alguém, por mais viajado que seja, possa ficar indiferente a um cenário desta magnitude. Já todos se encontram dentro do carro, prontos para seguirem serra abaixo, mas a mim ainda me falta a coragem para abandonar este local. Grito “SANTO ANTÃO É LINDO!”, espero que o eco termine a sua viagem por entre vales e montanhas e, já de lágrima no olho, dirijo-me ao carro, como que obrigado a seguir caminho.

À medida que descemos, o mar surge na linha do horizonte e, bem lá no fundo, a vila de Ribeira Grande, onde iremos ficar alojados durante a nossa passagem pela ilha.

[Luís Leo­nardo é apai­xo­nado por via­gens e por foto­gra­fia, a que se dedica como fotó­grafo ama­dor. Encontra-se actu­al­mente em via­gem por Cabo Verde, país que, como refere, pla­neia con­ti­nuar a visi­tar e a foto­gra­far nos pró­xi­mos anos, ilha a ilha. No Cor­rer Mundo, rela­tará essa via­gem de con­tí­nuos regressos]

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